Wilson Gomes

Professor titular da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor de "Crônica de uma Tragédia Anunciada"

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Wilson Gomes
Descrição de chapéu União Europeia

O dilema de Marine Le Pen

Se os franceses se entregarão ao canto dessa sereia, o tempo é quem dirá

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É raro, mas acontece muito. Debates tipicamente acadêmicos entre especialistas na nova onda de partidos e movimentos extremistas no mundo se tornam temas de divergências no jornalismo.

Em toda parte, acontece o debate se Marine Le Pen e seu partido devem continuar sendo classificados como de extrema direita ou se, após um enorme esforço de reabilitação de imagem, agora podem ser considerados como uma direita republicana, ainda que nacionalista.

A "desdiabolização", para usar a expressão que os franceses empregam, é um tipo de normalização que consiste na remoção de certas características presentes em uma imagem pública, no deslocamento de outras para o segundo plano ou na adição de novos predicados que tornem o partido ou movimento mais palatável ao gosto médio dos eleitores.

Na ilustração de Ariel Severino, uma grande imagem colorida e pixelizada de Marine Le Pen, como se fosse um quebra-cabeças de tijolos quadrados. O perfil está incompleto em duas áreas. No  cenário, silhuetas de trabalhadores, guindaste e maquinaria, nas cores azul e vermelho, como a bandeira francesa. O objetivo do ilustrador é o de passar a ideia de que a candidata francesa está em constante construção. O guindaste vermelho à direita, está içando uma parte do perfil, para que seja encaixado no local certo, um operário certifica o local certo. Ao lado da base do guindaste, um outro operário coloca alguns cones preservando o local.  Do lado esquerdo, uma máquina está levando um outro pedaço do perfil, no espaço onde será encaixado, um operário trabalha acertando com uma furadeira o local do encaixe.  O fundo cinza destaca a ação do local.
Ilustração - Ariel Severino/Folhapress

No caso francês, foi crucial a remoção do antissemitismo, antissionismo e do racialismo, a moderação dos radicais do partido, a oferta de políticas sociais e um novo discurso sobre gênero.

É preciso reconhecer que Marine Le Pen fez um esforço explícito e consciente para reabilitar o movimento herdado do pai, Jean-Marie. Sinal de que entendeu que não havia esperanças de superar o sarrafo republicano ainda alto da maioria dos franceses com uma oferta ideológica que seduzia apenas os feios, sujos e malvados.

Por outro lado, qualquer discussão sobre a classificação de uma força política como extremista deveria partir de algum consenso sobre o que isso significa. Quem usa o modelo histórico fascista como parâmetro dificilmente encontrará partidos fascistas bem-sucedidos nas grandes democracias.

A nova extrema direita europeia não incorpora teses fundamentais dos fascistas, como o imperialismo expansionista, investidas contra a liberdade de mercado e o individualismo liberal, ou ataques explícitos à democracia e ao Estado de Direito.

O discurso é protecionista do território, não expansionista; e há a crença de que a extrema direita é a última trincheira da democracia e da civilização contra a barbárie, não adversária delas.

Retoricamente, as várias extremas direitas vivem da promoção do alarmismo sobre identidades – nacionais, ocidentais ou cristãs – ameaçadas. Ou da promoção da crença de que "nós", franceses, alemães, neerlandeses, italianos, portugueses etc., somos vítimas de um cerco de inimigos externos —as "hordas muçulmanas", os migrantes africanos e sul-americanos— e internos, os complacentes com isso.

Por isso, reivindica uma autoridade mais forte do que a permitida pelas amarras constitucionais para lidar com esse enorme problema. Eventualmente, nas bordas dos movimentos, há alguma glorificação da violência justificada pela defesa dos interesses da identidade, mas é raro ver tais teses expostas publicamente.

Isso não é fascismo, mas quem disse que é preciso ser fascista para ultrapassar limites republicanos inegociáveis?

O fato de não serem fascistas não os torna menos perigosos para aqueles que são alvo de sua hostilidade. A retórica identitária que se alimenta de um antagonismo feroz entre "nós", os nacionais sitiados em nosso próprio território, e os estrangeiros "inassimiláveis" que nos ameaçam, geralmente é sintoma de uma situação em que grupos já estão tomando medidas para mostrar aos migrantes todas as formas e cores da nossa repulsa.

Ao mesmo tempo, essa retórica funciona como uma autorização social ao racismo, às demonstrações de desprezo, às discriminações e à violência.

O pacote completo inclui muito mais do que o rótulo "xenofobia" é capaz de mostrar. Estrangeiros são responsabilizados pelos principais problemas sociais do momento: desemprego, delinquência, queda na qualidade dos serviços públicos, violência contra mulheres etc.

O foco está sempre nas ameaças —prostituição, drogas, crimes, estupros— e as diferenças são destacadas com ênfase nos estereótipos negativos, para mostrar como "eles" não aceitam nossos valores, trazem costumes estranhos para nossa pátria e se recusam a viver como nós, ao mesmo tempo em que consomem nossos recursos, diminuem nossas oportunidades e ameaçam nosso modo de vida e nossa soberania.

Lá como cá, não há extremismo sem que se apresentem antagonistas malignos, sem que se dissemine o sentimento de que somos vítimas de um cerco ou de uma ocupação de inimigos, sentimento que passa a justificar tudo, e sem que se difunda a sensação de que estamos em uma crise tão grave que não há solução tradicional capaz de resolvê-la.

Se os franceses se entregarão ao canto dessa sereia como nós o fizemos, o tempo, e não apenas esta eleição, é quem dirá.

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