Não dependa de ninguém para nada

Recebo muitas mensagens de mulheres de todas as idades. Há muito em comum entre todas, apesar de morarem a centenas de quilômetros umas das outras, terem experiências de vida distintas, umas mais, outras menos. Algumas tiveram mais oportunidades, outras, nenhuma. Tem mulher em todos os cantos do Brasil, na Austrália, no Japão, na Inglaterra, nos Estados Unidos. Eu sempre me enxergo naqueles dilemas transcritos, que chegam com a intimidade que só as redes sociais trouxeram para as nossas vidas. Uma falsa impressão de que somos amigas, quando não somos, mas temos muito mais em comum do que poderíamos imaginar. Nos tornamos cúmplices em segredos, desejos, medos, angústias e alegrias.

Tenho calafrios quando vem a pergunta “o que você acha que eu deveria fazer”? Não sei, seria o mais honesto, porque nem eu mesma tenho certeza se tomei as decisões certas, se foram os melhores caminhos, se era a hora. Fico com a sensação de que sou ótima conselheira da vida dos outros, mas nem sempre consigo resolver meus próprios problemas. 

De todas as poucas certezas que conquistei na vida, a única que eu diria para qualquer mulher é a seguinte: não dependa de ninguém para nada. Recebi esse conselho muito cedo do meu pai, embora lá atrás talvez eu achasse que ele queria apenas que eu começasse a pagar minhas próprias contas.

Apenas com os anos, entendi que aquela recomendação tinha dezenas de ramificações e que as cobranças que nos chegam nem sempre vêm em forma de boleto. Ainda que seja muito importante ganhar seu próprio dinheiro, ter autonomia não significa apenas ter saldo positivo no banco.

Levei tudo tão a sério que hoje, se precisar, troco pneu de carro, desentupo privada e a furadeira aqui de casa é minha. Claro que isso vale para as pequenas coisas também, mas certamente o olhar paterno ao me encaminhar para a vida era macro e não doméstico.

Ficou claro o que ele dizia para mim. Não dependa de marido, não dependa de um emprego, não dependa de outras pessoas para ser feliz. Ele estava certo.

Há milhões de mulheres no mundo que conquistaram emprego, status, poder, mas continuam dependendo emocionalmente de um parceiro. Dependem dele para se sentirem amadas e seguras. Esperam aprovação no que fazem, no que vestem, no jeito que se comportam. Comandam equipes, são criativas, inteligentes, bem-sucedidas, mas esperam do marido ou do namorado um afago na cabeça como um cachorro abandonado querendo atenção. Já fui uma dessas mulheres e só encontrei amor de verdade quando entendi que não precisava do amor de ninguém para gostar de quem mais importava na vida: eu mesma.

A gente passa boa parte da vida achando que ganha pouco e trabalha muito. E poucas vezes fazemos algo a respeito. Medo de perder o emprego, ilusão de que reconhecimento e recompensa são responsabilidade da empresa. De novo, passamos a depender de terceiros para resolver questões que também são nossa responsabilidade. Já sabemos que há diferenças salariais entre homens e mulheres em determinados setores, mas você já se perguntou por quê? Falo do seu caso específico. Por que você ganha menos do que um colega que faz as mesmas coisas? Ou por que você ganha menos do que considera justo? Quando finalmente consegui responder essas perguntas, pude mudar o jogo. Eu não sabia pedir aumento, tinha uma dificuldade enorme em avaliar monetariamente meu trabalho, era péssima negociadora e achava que almejar um salário melhor poderia pegar mal. Essa é a equação que precisa ser feita para que você assuma o controle de sua vida profissional e o valor que tem no mercado, sem depender de que outras pessoas lhe digam quanto você vale. 

É claro que isso tudo é lindo na teoria, na prática não conseguimos mudar essa chavinha de uma hora para outra. Também porque é doloroso mudar mesmo o que é doloroso. É preciso coragem para promover rupturas em comportamentos que repetimos o tempo todo. É preciso ousadia para assumir a responsabilidade total por nossas decisões e nossa felicidade, mas o alívio é enorme ao constatar que nada em nossa vida depende de alguém, a não ser de nós mesmas. Bem, eu ainda preciso de ajuda para abrir o maldito vidro de palmito. 

Mulher segura cartaz We Can Do It
Lucimara Morais enviou imagem de sua filha, a Luísa Morais, de 21 anos, de Brasília, replicando o famoso cartaz "We Can Do It" - Divulgação/Leitores

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