Em alta, hortas urbanas comerciais começam a abastecer feiras e empórios de SP

Organizações tentam atrair mais consumidores por meio de tecnologia

Imagem feita com drone retrata horta urbana em São Mateus, distrito no extremo leste da capital paulista  Adriano Vizoni/Folhapress

Cristiana Couto Priscila Pastre
São Paulo

A baiana Terezinha dos Santos Matos tem destino certo para os mais de 80 tipos de verduras e legumes de sua horta Sabor da Vitória, em São Mateus, na zona leste de São Paulo.

As feiras orgânicas do Tatuapé e de Itaquera são alguns deles, além do empório Grão em Grão, na Vila Romana. Do outro lado da cidade, na Casa Verde, a turismóloga Maria Rita Cavaliere vende frutas, ervas e temperos da É Hora da Horta em eventos e festivais.

Terezinha e Maria Rita fazem parte de um grupo crescente de agricultores urbanos que comercializa sua produção em empórios, feiras livres e mercados da capital.

Diferentemente das hortas urbanas comunitárias, feitas em praças e terrenos baldios e compartilhadas pelos moradores, as hortas urbanas comerciais, concentradas na periferia da cidade, geram emprego e renda aos produtores.

Se, no início, a venda desses hortifrútis restringia-se aos moradores próximos às hortas, a ideia dos apoiadores desse modelo de agricultura é ampliar os espaços de comercialização.

"Além de oferecer garantia de mercado e mais autonomia de produção para o agricultor, colaboramos para uma cidade mais produtora, que não precisa depender de produtos que vêm de longe", diz a psicóloga Regiane Nigro, especialista em economia solidária pelo Instituto Kairós e voluntária da Associação de Agricultores da Zona Leste (AAZL), da qual Terezinha faz parte.

A associação, criada há dez anos, reúne 30 agricultores (orgânicos ou em processo de conseguir essa certificação) em 15 hortas espalhadas pelos distritos de São Mateus, Guaianazes, São Miguel Paulista e Cidade Tiradentes.

Entre os desafios dos produtores urbanos estão a falta de assistência técnica e a logística de comercialização dos produtos agroecológicos. O administrador e técnico em pecuária Hans Dieter Temp, fundador organização da Cidades Sem Fome, estuda soluções.

A ONG, que promove a agricultura sustentável e orgânica, acaba de fechar um convênio com a Eletropaulo, que disponibilizou, por comodato, cinco áreas contínuas em São Mateus. Um total de 40 mil m² para a criação de novas hortas urbanas. "São Mateus será uma referência mundial em agricultura urbana", diz Hans.

A partir de setembro, coloca em prática uma estratégia de comercialização dos produtos. Em parceria com a Só Plantar —plataforma de tecnologia especializada na venda de produtos de agricultura urbana—, a ONG vai lançar um aplicativo de entrega de cestas. As hortas informam a quantidade e a variedade de hortaliças disponíveis, e a plataforma conecta os usuários que querem comprá-los.

O aplicativo vai disponibilizar, ainda, a entrega das cestas num raio de 5 km por meio de bicicletas da parceira EcoBike. No início, serão cinco hortas.

A recente onda das pancs (plantas alimentícias não-convencionais) também abriu possibilidade de negócio para os agricultores urbanos.

"As pancs estão batendo recordes de venda", comemora Terezinha. Na sua horta, de 6.000 m² num terreno da Eletropaulo, a agricultora investe na produção de ora-pro-nóbis, taioba e maxixe-do-reino. Utilizada originalmente como cerca viva, para espantar animais, a ora-pro-nóbis virou recheio da tapioca que Terezinha vende em feiras.

A aposentada Sebastiana Helena de Farias também investe em pancs em sua horta, em São Mateus. Beldroega, bredo e mastruz estão entre as variedades que oferece aos mais de 80 clientes, que compram no local. "As pessoas estão lembrando das suas raízes."

Já Maria Rita, que há quatro anos vive do que planta em 1.200 m², aposta na chaya, no hibisco e na bertalha. "São muito saudáveis e fáceis de cultivar", garante ela, que cultiva mais de 20 variedades de não-convencionais.

O movimento da agricultura urbana ganhou força em São Paulo a partir de 2010. A zona leste é a região de maior concentração dessas hortas, e uma das mais antigas. Lá, agricultores dão vida a terrenos desocupados, inutilizados ou de linhão (áreas de transmissão de energia).

Há diversas vantagens na agricultura urbana, como geração de emprego e renda, ampliação de áreas verdes, uso sustentável da água e o aproveitamento de espaços públicos.

No âmbito social, hortas encurtam a cadeia entre produtor e consumidor, produzem comida saudável, estimulam a diversidade de alimentos e fornecem ingredientes frescos aos que moram na periferia, onde o acesso a eles, pelo menos em São Paulo, é mais difícil. Mas a compra "na porta da horta" conta ainda com a vantagem do preço mais baixo.


Saiba onde comprar os produtos em São Paulo

- Empório Grão em Grão
Praça Alfredo Weizflog, 34, Vila Romana, tel. 3863-2098

- Instituto Feira Livre
Rua Major Sertório, 229, Vila Buarque, tel. 3237-0721

- Feira Livre de Itaquera
Rua Ken Sugaya, s/nº, Itaquera; aos domingos

- Instituto Chão
Rua Harmonia, 123, Vila Madalena, tel. 3530-0907

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.