Uma alface não precisaria viajar metade do país para chegar à mesa, diz Arpad Spalding

Para geógrafo e agricultor, que atua com agricultura orgânica, redução de preços exige mudanças

O geógrafo e agricultor Arpad Spalding - Ju Nadin - 13.mai.2016/Folhapress
Tomás Chiaverini
São Paulo

Alimentos sem agrotóxicos, mais saborosos e com preços acessíveis. Para quem está acostumado a garimpar orgânicos nas gôndolas dos supermercados, parece uma ideia utópica.

Mas para o geógrafo e agricultor Arpad Spalding, 38, é uma realidade palpável. Desde 2008, trabalha ajudando produtores do distrito de Parelheiros, no sul de São Paulo, a plantar e vender orgânicos.

Em 2013, trocou a zona oeste por um sítio na região e passou a plantar ao lado de agricultoras que ajudou a capacitar. "Quis me envolver de forma profunda, mudar minha vida para fazer o que acho que as pessoas ali devem fazer."

Nos últimos três anos, em parte devido ao trabalho dele, as vendas da Cooperapas crescem de 20% a 30% ao mês. Hoje, 36 cooperados fornecem para 20 estabelecimentos (feiras, lojas e restaurantes).

Em entrevista à Folha, Spalding aborda desafios de plantar sem agrotóxicos, os preços altos dos orgânicos e modelos de distribuição de alimentos que poderiam encurtar o caminho do campo até a mesa.

 

Virou censo comum dizer que orgânicos são mais caros. Isso é verdade?

Nas grandes cadeias de supermercado, sim. Não significa que o agricultor orgânico receba muito mais, algo que justifique a diferença. As redes tratam o orgânico como item de luxo. Têm a ideia de que quem consome esse produto não se preocupa com preço. No fim, a margem de lucro dos supermercados é maior com orgânicos.

Mas escala e a forma de distribuição também são um problema, não?

O que faz o preço é o mercado e a distribuição. No modelo convencional, o agricultor familiar —que produz a maior parte do que se consome— recebe muito mal porque não tem acesso a centros de distribuição e os produtos trocam de mãos muitas vezes. Tenta-se, com os orgânicos, uma cadeia em que haja remuneração justa. É preciso mudar a distribuição.

Quais seriam essas mudanças?

Principalmente trabalhar com menos ou sem atravessadores, vender localmente. Assim é possível melhorar a remuneração do produtor e criar uma relação direta com quem consome. Aproxima o urbano do rural, valoriza o agricultor e faz com que ele queira produzir melhor, porque conhece o consumidor. Em feira convencional, é raro achar um agricultor vendendo o que ele plantou. Em feiras orgânicas, é comum. E ali os preços são parecidos com o dos alimentos convencionais.

Isso é possível em larga escala?

Rumamos para isso. A oferta de orgânicos hoje é maior do que há cinco anos. Agricultores estão se organizando para manter a oferta. Consequentemente, muitos restaurantes compram produtos locais. As prefeituras têm a diretriz de priorizar produtos locais para merenda escolar.

Pensar num país do tamanho do Brasil consumindo só orgânicos e localmente não é utópico?

Há um limite. São Paulo consome coisas que vêm do Japão, da China e isso não vai mudar. Mas muitas vezes um produto vem de Minas Gerais para São Paulo para depois voltar a Minas. Uma alface não precisa viajar metade do país para chegar à mesa. Há um custo ambiental aí que não pode ser desprezado.

A agricultura orgânica é mais importante para quem planta ou consome?

A preocupação com a saúde é o principal motivo para as pessoas comprarem orgânicos. Mas acho que é mais importante para o agricultor, o ambiente e a manutenção do homem do campo. A produção orgânica cria impactos positivos. Capta carbono, mantém a flora e torna o solo fértil. A convencional produz uma série de impactos negativos. O custo, do assoreamento de rios, da poluição dos lençóis freáticos, do empobrecimento do solo, é pago por toda a sociedade.

Plantar orgânico é mais difícil?

O agricultor orgânico precisa ser um cientista. Criar uma relação com a terra, saber as manhas para produzir ali. Até ter um ambiente equilibrado, precisa dedicar muito tempo e suor. Mas, numa produção estabilizada, não há mais grandes dificuldades e os custos de insumos diminuem. O agricultor vira senhor do seu reino. Sabe o que acontece ali, enquanto que ao plantar da maneira convencional, faz o que o cara da loja de veneno mandou.

Por que a certificação orgânica ainda é difícil?

Ela é um sistema de controle que exige documentos para comprovar o que ocorre em cada propriedade. Exige uma capacidade de registro e compilação de dados desafiadora para muitos pequenos agricultores. É preciso haver entidades de assistência técnica e de apoio.

Existe algum alimento que não dá para ser produzido de maneira orgânica?

A gente tem tecnologia para produzir praticamente tudo. O que não tem é recurso. Não existe uma grande produção de morango, por exemplo, porque não há estufas. Isso ocorre, em parte, porque o acesso ao crédito é menor do que para o agricultor convencional.

Por quê?

Por ausência de políticas públicas para o setor, porque técnicos da área de crédito não têm formação em agricultura orgânica. A produção convencional parece mais simples, por isso há mais facilidade no crédito. Se você tiver uma determinada área, aplicar determinada quantidade de veneno, tem uma garantia maior de resultado. Orgânicos dependem mais da habilidade do agricultor e da assistência.

Existe alguma oposição aos orgânicos?

O PL do Veneno [projeto de lei 6.299/02], por exemplo, não só trará problemas de saúde como vai dificultar a vida do agricultor orgânico. Ele traz propostas para limitar o uso de insumos feitos pelo próprio produtor para tratar pragas e doenças.


Arpad Spalding 

Geógrafo, formado pela USP, trabalha há dez anos capacitando agricultores para comprar e vender orgânicos em Parelheiros. É consultor da prefeitura em projeto que busca fortalecer a agricultura local. Desde 2013 planta e vende alimentos orgânicos.

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