Mulheres invadem mundo masculino para desvendar os segredos da carne

Nomes como Paula Labaki e Ligia Karasawa retomam tradições familiares em cursos e restaurantes

Flávia G. Pinho
São Paulo

Gaúcha de Passo Fundo, a publicitária Clarice Chwartzmann, 53, cresceu vendo as mulheres da família encarregadas dos acompanhamentos durante os churrascos, enquanto os homens cuidavam da brasa.

"Sempre foi um conhecimento passado de pai para filho, raramente para filha", diz. A despeito disso, um time crescente de mulheres está tomando para si o manejo da grelha e dos espetos.

Filha de Marcos Bassi (1948-2013), fundador do restaurante Templo da Carne e até hoje considerado uma das maiores autoridades paulistanas em carne, Tatiana Bassi, 44, ocupou seu espaço no muque.

Desde 2016, ela conduz o curso Meet & Grill em um salão em cima do restaurante. Em dois anos, mais de 2.000 pessoas aprenderam com ela os segredos do churrasco.

 

No módulo 1, a R$ 290 por pessoa, o conteúdo inclui picanha e costela bovina, enquanto o módulo 2 (R$ 350 por pessoa) ataca a fraldinha e o carré de cordeiro.

"As mulheres ainda são minoria, cerca de 10% das turmas. Mas, em nosso empório, vejo muitas comprando a carne para o churrasco da família, cena que a gente não via pouco tempo atrás", diz Tatiana.

Nos cursos do projeto A Churrasqueira, ministrados por Clarice Chwartzmann no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo e em Minas Gerais, a proporção se inverte —mais de 90% das matrículas são de mulheres.

Elas pagam a partir de R$ 250 por pessoa e fazem o intensivão de uma tarde, enquanto comem e bebem à vontade. O principal objetivo, diz Clarice, é aprender como lidar com o fogo diante de variáveis como o clima.

"Não sei por que nós nos afastamos historicamente da culinária da brasa e ocupamos só o lugar do forno e fogão. Felizmente, estão pipocando mulheres churrasqueiras pelo Brasil inteiro", diz.

Criada em Presidente Prudente, interior de São Paulo, a chef Ligia Karasawa, 39, vem de uma família de criadores de gado de corte e diz que os churrascos sempre foram um ritual sagrado para o clã.

Na cozinha do restaurante Brace, no topo do empório Eataly, em duas parrillas a carvão, ela assa carnes, peixes, aves e legumes.

Ela também é membro fixo da Churrascada e tem sido convidada para eventos em outros estados. Nas horas de folga, é na brasa que prefere cozinhar as refeições.

Lenha e carvão, para dela, conferem aos alimentos um sabor defumado sem igual.

"Comprei uma churrasqueira que é meu xodó, mas não tenho frescura. Se quero fazer churrasco na praia, empilho quatro tijolos e faço."

Também criada em uma fazenda paulista, Paula Labaki, 50, proprietária do bufê Lena Labaki Catering, tem visto o contingente de mulheres crescer na plateia do curso Sete Fogos.

Elas não têm medo do conteúdo pesado: pagam R$ 800 por pessoa para, ao longo de um dia inteiro, aprender a fazer churrasco de sete maneiras, incluindo fogo de chão.

"Cresci acostumada a ver o abate e a acompanhar peões nas invernadas. Mas precisei impor respeito. Participo de um grupo de churrasqueiros, no WhatsApp, com 370 pessoas. E só eu de mulher", conta.

Em junho, também fez parte da minoria no evento Dark Mofo, na Austrália —além dela, só havia outras duas mulheres convidadas, uma neozelandesa e uma dinamarquesa.

Sua tarefa foi assar dois bois inteiros e 250 aves no fogo de chão. Com só um assistente.

"Adoro mostrar que o churrasco não precisa ser uma refeição bruta. É possível, sim, partir de um boi inteiro e chegar a um prato delicado."

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