Falsos perfis de restaurantes iludem consumidor no Instagram

Denúncias nem sempre funcionam e casos já chegam aos tribunais

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São Paulo

Experimente digitar “A Casa do Porco” na busca do Instagram —no dia 28 de junho, data do fechamento desta reportagem, a lista exibia 26 perfis, a maioria com a logomarca do restaurante. Mas só o primeiro, que acumula 373 mil seguidores e exibe o selo azul de autenticidade conferido pelo próprio Instagram, é verdadeiro.

A casa do chef Jefferson Rueda, eleito melhor restaurante do Brasil pelo ranking 50 Best Restaurants, tem sido um dos alvos preferidos dos golpistas que atuam na rede social.

A estratégia se repete. Por meio de perfis falsos fáceis de criar, que têm nomes bem parecidos e exibem fotos roubadas do original, golpistas entram em contato com seguidores, através do próprio aplicativo, e oferecem de descontos a refeições grátis.

Condicionam o prêmio ao envio de um suposto código de verificação. Assim que o número é enviado, o usuário tem seu WhatsApp clonado.

Restaurantes entram na justiça para derrubar perfis falsos no Instagram
A Casa do Porco é um dos estabelecimentos que enfrentam dificuldades para derrubar perfis falsos que aplicam golpes em seu nome - Catarina Pignato

O canal sugerido pelo Instagram para resolver o problema —preenchimento de um formulário na Central de Ajuda, indicando violação de propriedade intelectual e direitos autorais— não funcionou para A Casa do Porco.

Segundo Flávia Nóbrega, 41, advogada do grupo ao qual pertence o estabelecimento, a questão foi parar na Justiça.

“Preenchemos o formulário, mas foi inútil. Após muita espera, notificamos extrajudicialmente o Facebook (empresa à qual o Instagram pertence), mas continuamos sem resposta. Em 26 de outubro, ingressamos com ação judicial”, diz.

O recurso, emenda Nóbrega, também não funcionou. Em 30 de outubro, o juiz Luiz Fernando Rodrigues Guerra, da 38ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, determinou que os perfis falsos fossem removidos em 48 horas. “Mas eles continuam lá”, ela chia.

O auditor fiscal Luiz Sampaio, 51, foi uma das vítimas. Seguidor do restaurante, recebeu uma mensagem pelo Direct, ferramenta para conversas privadas, com a oferta de desconto de 50% em compras no empório da casa. O diálogo partiu de um perfil falso, mas ele não se deu conta.

“Sem pensar muito, mandei o código e imediatamente meu WhatsApp sumiu. Eles então começaram a mandar mensagens para pessoas da minha agenda, sempre pedindo R$ 3.100 em meu nome. Felizmente, eram textos tão toscos que ninguém acreditou.”

Sampaio denunciou o perfil falso, para que ninguém mais caísse no golpe. Mas a denúncia, para sua surpresa, caiu no vazio. “O suporte respondeu que o perfil denunciado não infringia nenhuma regra do Instagram”, afirma.

A designer de cílios Viviana Russo, 56, também foi abordada por um perfil falso d’A Casa do Porco. Mas, no caso dela, a golpista, que se apresentou como Bruna, foi mais ousada: iniciou a conversa de forma pública, nos comentários de um post.

Como já era seguidora do perfil do restaurante, Russo não se atentou ao nome da conta, diferente da original, e enviou, também publicamente, seu número de celular.

Seguidora conversa com perfil falso do restaurante Casa do Porco no Instagram, que oferece a ela falsa promoção - Casa do Porco no Instagram

“Por sorte, a ficha caiu assim que eles avisaram que iam mandar o código de verificação. O pior não aconteceu.”

Com 45.600 seguidores no Instagram, o restaurante de cozinha francesa Freddy também tem acumulado perfis falsos —eram 14 no fechamento da reportagem. Quinze anteriores já foram derrubados, mas a casa também precisou apelar à Justiça.

“Dois clientes caíram no golpe e um deles nos ameaçou de processo, porque a tia chegou a transferir dinheiro para a quadrilha”, conta Juliana Mello, 32, responsável pelo marketing da casa.

Às vezes, o golpista dá azar. Aconteceu com alguém que falseou o perfil do restaurante Le Jazz e, sem saber, mandou mensagem justamente para um amigo de Paulo Bitelman, um dos sócios.

Quando entendeu que tinha sido descoberto, o suposto Gilberto assumiu seu papel: “Maluco o foco é o golpe se não for passar o zap me poupe (sic)”.

De acordo com Gil Leite, 39, sócio do Le Jazz, os perfis falsos não são novidade, mas se multiplicaram de forma expressiva desde o início da pandemia. “Como os clientes passaram a usar mais os canais digitais para delivery, os golpistas devem ter enxergado uma oportunidade.”

Administrador de perfil falso conversa, sem saber, com o amigo de um dos sócios do restaurante Le Jazz - Reprodução/Mar Aberto

De março de 2020 para cá, a agência Mar Aberto, responsável pela gestão das redes sociais do Le Jazz, contou mais de 20 perfis falsos. Todos foram derrubados só com o preenchimento do formulário de denúncia. Mas a empresa não conseguiu, até hoje, obter o selo de verificação.

“Tentamos várias vezes sem sucesso. Enviamos toda a documentação exigida, mas eles indeferem sem qualquer justificativa”, diz Lucas Terribili, da Mar Aberto.

Segundo o Instagram, um dos requisitos para a concessão do selo é o perfil ser “notável”: a conta deve “representar pessoas, marcas ou entidades famosas e muito pesquisadas” e “aparecer em várias fontes de notícias”.

Tais critérios, na opinião de Gil Leite, não ajudam empresas como a dele. “O Instagram deveria ter um sistema mais sério de certificação para se tornar mais seguro”, critica.

Irmã da chef Renata Vanzetto e responsável pelas redes sociais do restaurante Muquifo, Luiza Vanzetto, 29, inseriu o alerta “Perfil oficial e ÚNICO do Restaurante” na bio, texto que apresenta o estabelecimento no Instagram. Não adiantou.

“Além de roubarem nossas fotos, os golpistas copiam o texto da bio e se apresentam como oficiais também. Dá até raiva. Alguns clientes acham que a culpa é nossa, já temos um protocolo de atendimento para essas situações. Os golpes são tão bem armados que até uma de nossas sócias investidoras caiu”, desabafa.

A esperança de Vanzetto é que a nova lei nº 14.155, em vigor desde 27 de maio, faça diferença. Ela determina que aplicar golpes pelo Instagram, Facebook, WhatsApp ou qualquer outro meio eletrônico é crime. A pena prevista é de até oito anos de prisão quando há prejuízo financeiro.

Já o advogado Luiz Augusto D’Urso, presidente da Comissão de Cibersegurança e Dados Pessoais da Associação Comercial de São Paulo, não é tão otimista.

Para ele, a lei é bem-vinda, mas a identificação e consequente condenação dos golpistas depende da ação do poder Judiciário e da polícia, ambos já sobrecarregados.

“O Instagram é que deveria ter um canal de denúncias eficiente, para evitar que as questões fossem judicializadas. O Facebook só presta esse serviço de péssima qualidade porque tem o respaldo do Marco Civil da Internet. Ele determina que as plataformas só se tornam corresponsáveis a partir de uma ordem judicial.”

Aos estabelecimentos que são vítimas de perfis falsos, D’Urso recomenda lavrar um boletim de ocorrência, que tem dupla função: pode gerar a instauração de um inquérito policial, para que o golpista seja identificado, e protege o restaurante no caso de eventuais processos, movidos por clientes que se sintam lesados.

“Sugiro lavrar um BO para cada perfil falso. Pode ser feito de forma digital. Mesmo que seja preciso lavrar vários, o custo-benefício compensa.”

Guilherme Farid, do Procon-SP, recomenda que os donos de estabelecimentos também façam a denúncia no órgão, que se responsabiliza por dar início à investigação, acionando a Divisão de Crimes Cibernéticos da Polícia Civil de São Paulo. Os consumidores que caírem no golpe do perfil falso, por sua vez, não devem deixar de registrar a reclamação no site do Procon-SP.

“A partir do registro, nós notificamos a rede social e ela não pode mais se eximir da responsabilidade, sob risco de multa de até R$ 10 milhões. Há até a possibilidade de o consumidor exigir ressarcimento por danos materiais”, explica Farid.

Procurado pela Folha, o Instagram, por meio de sua assessoria de imprensa, condicionou a entrevista ao conhecimento prévio do conteúdo da reportagem. Diante da negativa, só se pronunciou através da nota abaixo, assinada por “um porta-voz do Facebook”.

“Fingir ser outra pessoa, marca ou negócio viola as Diretrizes da Comunidade do Instagram. Temos uma equipe dedicada para detectar e impedir esses tipos de golpes e encorajamos as pessoas a denunciarem quaisquer contas ou atividades suspeitas no Instagram por meio das nossas ferramentas de denúncia.”

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