Documentário revela lado cinza de Anthony Bourdain e se apropria de sua voz única

Produção estreia nos cinemas e streaming dos EUA três anos após a morte do chef

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Rafael Tonon
Porto

"Roadrunner" talvez seja mesmo um bom termo para definir quem foi Anthony Bourdain, o chef tornado escritor que virou apresentador e depois se transformou em uma celebridade global —e uma das vozes mais influentes da gastronomia moderna.

Antes de cometer suicídio, em 2018, Bourdain viajou o mundo tantas vezes que daria para circunscrever o planeta por quase 30 vezes, segundo um programa de televisão americano.

Cena do documentário "Roadrunner", sobre Anthony Bourdain - Divulgação

Eram cerca de 250 dos 365 dias do ano fora de casa, como lembrou o próprio chef, personagem principal de "Roadrunner: A Film about Anthony Bourdain" (com estreia especulada para breve no Brasil, mas sem título ou data definida), dirigido pelo ganhador do Oscar Morgan Neville.

O documentário, que chegou às salas de cinema americanas e a algumas plataformas de streaming em julho deste ano, três anos após sua precoce morte, faz uma radiografia precisa do momento em que o cozinheiro se tornou uma megaestrela (não só) da televisão.

E, principalmente, as implicações que uma vida passada diante da câmera pelo mundo lhe infringiu.

"Bourdain estava sempre correndo para o próximo lugar, mesmo que nem sempre tivesse para onde ir", resume um dos produtores que trabalhou com o chef durante anos.

Ele frequentou mesas de restaurantes duvidosos, matou animais com as próprias mãos e comeu coisas que poucos teriam coragem de provar (como o coração recém-arrancado de uma cobra) em lugares tão díspares como Bornéu, Jerusalém ou Acra.

Ele mesclava como poucos um espírito aventureiro e fanfarrão com o olhar perspicaz de um comentarista cultural fluido que tinha uma vasta bagagem de cozinha e de livros —era um leitor voraz.

E gostava sobretudo de ouvir as "pessoas reais", que lhe davam o senso de realidade do qual sua fama aos poucos o distanciou.

Era essa a fórmula da sua fama: um pouco de coloquialidade, um tanto de erudição e muito carisma —além de uma leve incompreensão do seu lugar no mundo, que é o que o filme tenta mostrar, buscando os tons de cinza de sua vida para entender porque, talvez, ele optou por abreviá-la tão cedo, aos 61 anos, em um hotel luxuoso na França.

"Bourdenização"

Bourdain era um cometa: fulgurante, intenso, impiedoso. Tê-lo em seu restaurante poderia significar mais do que ganhar três estrelas do aclamado Guia Michelin se a ideia fosse colocá-lo sob o holofote dos comensais.

Estabelecimentos mostrados em seus programas se transformavam instantaneamente em redutos com filas e filas depois de sua passagem, um efeito que muitos passaram a chamar de "bourdenização", quando lugares visitados por ele se tornavam depois "infrequentáveis" pelos locais tamanho o fluxo turístico.

A mesa em que ele se sentou com o ex-presidente americano Barack Obama no Vietnã para comer um prato de noodles, em 2016, por exemplo, foi coberta por uma estrutura de vidro e se tornou uma grande atração na pequena cidade de Ngô Thì Nhậm. Mais por ele do que por Obama, dizem alguns.

CNN; Anthony Bourdain
O então presidente Barack Obama toma uma cerveja com Anthony Bourdain, em Hanói, no Vietnã, em 2016 - Divulgação

Mas, com o peso da fama internacional, veio uma vida errática "de país em país, de cidade em cidade, de aeroporto em aeroporto", como ele narra em uma das cenas. Este modus operandi ajudou a definir sua personalidade um pouco sombria que o filme trata de tentar revelar, entrevistando uma dúzia de pessoas de seu circulo social próximo, como chefs e amigos, produtores e familiares.

Às entrevistas —que ele caracterizou para a revista New Yorker como "as mais difíceis que já fiz"—, Neville mescla, ainda, arquivos de programas e outras filmagens que nunca vieram a público.

Fama

Bourdain ficou mesmo famoso quando publicou, na década de 1990, o livro "Cozinha Confidencial", em que narra os bastidores dos restaurantes em uma espécie de ensaio sobre a personalidade desgarrada dos profissionais que as frequentam: um intricado perfil do submundo das panelas.

A obra surgiu de um artigo escrito por ele para a prestigiosa The New Yorker, que o catapultou para o sucesso.

"É por isso que os chefs são todos bêbados", ele diz, em uma das raras cenas dele vestido com o dólmã à frente do seu antigo restaurante, o Les Halles, nos anos 1990. "Nós não entendemos por que o mundo não funciona bem como as nossas cozinhas."

Fora dela, o mundo de Bourdain nunca foi perfeito, como os depoimentos de amigos fazem comprovar, contemplando dos vícios a uma crônica insatisfação social e existencial. Tinha um olhar inquieto para as mazelas do mundo, que tratou de mostrar em seus programas.

"É preciso ver a realidade com os olhos bem abertos", ele diz a um grupo de vietnamitas em uma conversa sobre a guerra que matou milhões no país asiático.

Mas, talvez, a passagem mais polêmica do filme seja no final, quando seu amigo de longa data, o artista David Choe, fala de um e-mail que Bourdain lhe enviou: "Minha vida está meio uma merda agora. Você é bem-sucedido, eu sou bem-sucedido, mas fico pensando: você é feliz?".

Mais do que o conteúdo, porém, o que mais chamou a atenção da imprensa e de produtores de cinema foi o fato de que as últimas palavras do texto são lidas na voz de Bourdain.

Morgan Neville confessou que usou partes da narração de Bourdain extraídos da TV, rádio, podcasts e audiolivros para criar uma inteligência artificial que fosse capaz de reproduzir de forma póstuma a sua voz.

O documentarista diz também ter usado o recurso em outras duas partes do filme, em um total de 45 segundos em que a voz de Bourdain é dublada pela tecnologia digital — mas apenas em cima de textos escritos pelo próprio Bourdain. Neville justificou o recurso dizendo que daria mais força à história que queria contar na tela.

Pessoas ligadas ao apresentador protestaram. O jornalista Nathan Thornburgh, que trabalhou em alguns roteiros para o chef, tuitou: "Tony era MUITO ESPECÍFICO com o que dizia no microfone e como o dizia. Era sempre perigoso tentar colocar palavras na boca desse homem, por isso #BourdainAI é uma péssima ideia".

A hashtag, aliás, se tornou um trending topic quando a mídia americana levantou o assunto, em um largo questionamento sobre o deep fake em documentários— e muitas críticas de fãs do apresentador. Curioso é que o episódio faz pensar na autenticidade da voz de um personagem que mudou a cena gastronômica com aquilo que dizia na frente (e também por trás, algumas vezes) da câmera.

Uma produtora ouvida no início do filme diz que ele "era muito consciente da sua própria habilidade de promover a voz das outras pessoas" e que, imbuído dessa responsabilidade, gostava sempre de redigir seus próprios roteiros e falas.

"É melhor eu escrever na minha voz, senão isso vai soar mais como um apresentador de televisão do que como um escritor", ele chegou a dizer a ela.

Na sua própria voz, Bourdain narrou o mundo em crônicas raivosas, elegantes, divertidas e muitas vezes esmagadoramente emocionais do mundo que ele via a partir principalmente das relações com a comida. De forma indireta, também expôs a sua vida a milhões de espectadores pelo mundo todo, intrigados pelo que ele tinha a dizer. É uma personalidade que o filme tenta, com algum sucesso, desvendar.

Logo nos primeiros minutos de "Roadrunner", Bourdain dá um spoiler comovente do que viria a seguir: "Você provavelmente vai descobrir isso de qualquer maneira, então aqui está uma verdade pré-sintomática. Não há final feliz".

Neste caso, é o apresentador mesmo —e não a sua versão robótica— quem está falando.

"Roadrunner: A Film about Anthony Bourdain". 2021, EUA. Direção: Morgan Neville. Sem data para estrear no Brasil. Trechos disponíveis no YouTube e no site HiMovies.to.

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