MARIANA ZYLBERKAN
CLAUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO

Enquanto as filas se formavam em Mairiporã, com muitas pessoas de outras cidades, a busca pela vacina contra a febre amarela parecia ainda pior na capital –o que explicaria o contrassenso e a exposição ao risco da procura pela imunização na cidade com o maior número de casos da doença no Estado.

O dia mal tinha raiado e um ambulante anunciava o "café só R$ 2" entre os que aguardavam a vez na UBS Boraceia, Barra Funda, zona oeste.

A unidade de saúde ainda nem estava aberta, mas a esperava já durava mais de quatro horas para a primeira da fila, a administradora Edileusa Moreira, 30. "Cheguei antes das 4h. Fiquei sabendo que teve um caso da doença no Bom Retiro, onde eu trabalho, por isso não quis arriscar", disse ela, que tentou a vacinação na tarde anterior, mas desistiu diante da previsão de espera de cinco horas.

Febre Amarela

Alguns metros atrás estava a dona de casa Carla Cruz, 40, com o marido Luciano Cruz, 43. Ele percorreram cerca de 30 quilômetros entre a Vila Jacuí, na zona leste, e a Barra Funda após se deparar com cerca de 400 pessoas antes da 5h em frente ao posto de saúde do bairro. "Teve gente que levou barraca e dormiu na calçada, por isso desistimos de esperar lá", disse a dona de casa.

O que tem motivado as pessoas a madrugar nas filas é garantir a dose antes do governo iniciar a campanha que irá distribuir a vacina fracionada, a partir do próximo dia 29 em 54 cidades paulistas. "Vai saber se é placebo", desconfiava o aposentado Cleber Santos, 65, que saiu de casa às 5h30 para se vacinar.

Perto dali, na calçada da UBS Humberto Pasqualli, em Santa Cecília, a analista de software Vanessa Nascimento, 33, se precaveu: saiu de casa com um banquinho de plástico. "Minha mãe mandou eu vir tomar a vacina e sabia que ia ter que esperar bastante", disse ela em meio à fila estimada pelos funcionários do posto em 600 pessoas antes mesmo das 7h.

Ao lado da sala de vacinação, um homem visivelmente impaciente perguntava se, ao final, poderia tomar cerveja para "relaxar" depois da saga para ser imunizado.

Boa parte da fila que estava ali, porém, teve que voltar para casa sem ser vacinada. Por volta das 11h30, funcionários anunciaram o fim do estoque de doses do dia.

Na UBS Sé, o problema era outro. Faltaram seringas para aplicar as doses.

Apesar das filas enormes desde o início da semana, os dois postos de saúde estão em áreas onde não há risco iminente de contrair o vírus da febre amarela, segundo a secretaria municipal de Saúde. A pasta confirma que não há nenhum caso autóctone da doença na capital.

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AGRESSÕES

Na terça (16), funcionários da UBS Milton Santos, na zona sul, ficaram trancados uma hora sob ameaça de agressão. A UBS fecha às 19h e, mesmo com aviso prévio de que não havia mais senhas, um grupo de cerca de 40 pessoas se manteve na fila.

Segundo uma médica que preferiu não se identificar, houve gritaria e ofensas aos funcionários, que se trancaram na unidade e só saíram às 20h, quando a polícia chegou e os retirou sob escolta.

Ela diz que os funcionários estão trabalhando sob "estresse insuportável". "É a revolta das vacina ao contrário. As pessoas querem se vacinar a qualquer preço", define outra médica, referindo à revolta urbana ocorrida no Rio em 1904 em que pessoas foram obrigadas a se vacinar contra varíola.

Mesmo pessoas em que a imunização é contraindicada estão insistindo em recebê-la, de acordo com a médica.

A confusão também causa outros problemas: atrapalha as consultas de rotina e o programa Estratégia Saúde da Família e deixa pacientes temerosos em procurar as unidades porque são acusados de "furar" a fila da vacina.

"Tinha consulta marcada há dois meses e o povo da fila não me deixavam entrar na UBS. Só consegui passar com proteção do guarda. E ainda ficaram me xingando", disse a aposentada Maria Aparecida de Sousa, 71.

Agressões entre pacientes foram registrados nesta semana, em Santo André e São Bernardo do Campo.

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, mesmo não integrando a campanha de vacinação, houve aumento na procura pela vacina nas unidades de referência para o viajante, "o que tem ocasionado desabastecimento pontuais e momentâneos, não apenas de vacinas, mas também de insumos". A pasta diz que unidades que aplicavam em média 500 doses por mês, nos últimos dias estão vacinando em média mil pessoas por dia.

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