ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
ENVIADA ESPECIAL A SANTA MARIA (RS)

"Passava das quatro e meia da manhã quando o sargento Müller conseguiu, finalmente, acessar todo o interior da boate. No salão principal, ele contou cerca de dez corpos, e oito nos fundos da Kiss. Apesar da gravidade do caso, sentiu alívio ao imaginar que entre os cerca de 1.100 frequentadores naquela noite - a capacidade máxima era de 769 pessoas -, quase todos tinham saído ilesos.

— Sargento, dá uma olhada aqui — chamou um combatente, apontando na direção dos banheiros masculino e feminino, próximos à entrada da boate.

Müller seguiu o colega e foi tomado pelo espanto ao observar a entrada dos toaletes. Para se proteger da fumaça ou achar a saída, que ficara às escuras durante o incêndio, muitos jovens acabaram encurralados nos banheiros, único local onde uma luz de emergência permaneceu acesa. Muitos foram pisoteados. Todos morreram asfixiados.

Diante da pilha de corpos, o sargento sentiu as forças de seus braços esvaírem. Percebeu que homens e mulheres haviam morrido entrelaçados uns aos outros, caídos entre as portas arrancadas dos sanitários individuais na tentativa alucinada de buscar ar na janela do basculante - que também estava lacrada.

Todo Dia a Mesma Noite
Daniela Arbex
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Nenhum treinamento o havia preparado para lidar com a dor que sentiu no momento em que se viu tomado pelo mais humano dos sentimentos: a compaixão.

— Nós não salvamos ninguém — repetia, em choque. — Não salvamos ninguém."

O relato de um dos primeiros a entender o tamanho da tragédia da boate Kiss, o sargento dos Bombeiros Robson Viegas Müller, é um dos flancos iluminados pelo livro "Todo Dia a Mesma Noite", recém-lançado pela jornalista Daniela Arbex (Intrínseca, 248 págs., R$ 39,90).

Sobre um tema já muito explorado ao longo de cinco anos, o trabalho de Arbex tem dois méritos principais.

Um é mostrar o lado humano de personagens que até agora apareciam principalmente como vozes institucionais.

Outro é retomar histórias doloridas como as dos sobreviventes e as dos pais que perderam filhos de forma bastante emocionante, mas nunca sensacionalista.

5 anos depois
O legado da boate Kiss

Resultado de mais de um ano de pesquisa e cinco viagens a Santa Maria, ele traz também informações novas sobre o trabalho das forças de resgate, emergência e tratamento.

Quando começou o trabalho, em 2016, Arbex, 44, se espantou ao descobrir que os profissionais da área de saúde nunca haviam falado sobre a tragédia entre si.

Ela afirma que seu principal objetivo é que o relato crie uma empatia pela dor do outro e nacionalize a história.

"Esta não é uma tragédia da boate Kiss, nem de Santa Maria, nem do Sul. É uma tragédia do país."

Uma das preocupações de Arbex é que não se repitam tragédias semelhantes. Segundo ela, há um incômodo de parte dos moradores contra os protestos dos pais.

"Se simplesmente virarem a página, o desastre vai, sim, se repetir."

O livro conta situações em que pais foram ofendidos por desconhecidos, também relatadas à reportagem da Folha.

Um dos focos de discórdia é a tenda armada na praça praça Saldanha Marinho, no coração da cidade. Nela estão fotos de 240 dos 242 mortos no incêndio, em ordem alfabética. De Alan Raí Rehbein de Olveira até Wictor Schimitz há jovens negros e brancos, loiros, ruivos e morenos, com camisetas do Grêmio e do Internacional, de gravata, de regata, e sobrenomes de inúmeras origens e misturas, como Scaphin de Freitas, Farias Brissow, Betega Ahmad, Webber, Toriolo, Segabinozzi, Zimmerman, Oliveira e Silva da Silva.

"Sorrir é uma conquista", diz o slogan da clínica odontológica que fica na esquina em frente.

É ali que pais, sobreviventes e amigos faziam vigílias antes diárias e hoje semanais.

Crédito: Eduardo Anizelli/Folhapress SANTA MARIA, RS, BRASIL, 16-01-2018: O prestador de serviços na área de construção civil Flávio José da Silva, 56, mostra o interior da boate Kiss, cinco anos depois do incêndio que deixou 242 mortos. Flávio é pai de Andrielle Righi da Silva, que tinha ido comemorar com amigas o aniversário de 22 anos e acabou morrendo (as cinco amigas morreram na tragédia). Ele faz parte da associação de pais e vítimas e tem a chave da boate. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress, COTIDIANO) ***EXCLUSIVO FOLHA***
O prestador de serviços na área de construção civil Flávio José da Silva, 56, mostra o interior da boate Kiss, cinco anos depois do incêndio que deixou 242 mortos

Ligiane Righi da Silva, 48, principal organizadora das vigílias, e seu marido Flávio, vice-presidente da associação de pais, dizem já ter ouvido todo tipo de desaforo.

O casal, porém, se incomodou quando foi acusado de ter abandonado a filha mais nova, Gabi, então com 17 anos. "Como nunca estava em casa, não podia cozinhar para ela, deixava pilhas de miojo. Contamos a ela o que estavam falando e ela me disse: 'Isso é o mínimo que a mana esperaria de vocês. Se não estivessem fazendo toda essa luta, eu teria vergonha'."

Mas as mães também recebem manifestações de apoio, como na campanha recente para arrecadar dinheiros para o concurso do memorial. "Uma menininha largou da mão da mãe, veio correndo e colocou R$ 1 na caixinha."

"As pessoas mais humildes vinham para dar R$ 2, R$ 5, R$ 10", diz o físico Dartanhan Baldez Figueiredo, 68, professor aposentado da Universidade Federal de Santa Maria.

Fotógrafo amador, ele documenta desde 2013 a luta dos pais e publica fotos e vídeos em suas redes sociais.

Figueiredo se ressente da pouca solidariedade demonstrada, por exemplo, pela comunidade acadêmica. Eram estudantes universitários a maioria dos 242 mortos no incêndio, e 132 eram alunos da UFSM.

Polo de atração de alunos do interior gaúcho e de outros Estados, Santa Maria têm hoje cerca de 30 mil estudantes. Alguns deles também dão depoimentos a Arbex sobre o desespero que sentiram dentro da boate e a luta pela sobrievivência após o resgate.

Um dos pontos críticos é o que relata a falta de sensibilidade de políticos.

A notícia do desastre trouxe a Santa Maria várias das autoridades da época: a presidente da República, Dilma Rousseff, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, eram alguns deles.

Os políticos acabaram entrando no ginásio que servia de necrotério antes dos próprios familiares, que aguardavam desesperados por alguma notícia.

Arbex elenca essa passagem no capítulo das "desumanidades", comparável apenas ao auxiliar de uma funerária que, ainda durante as necropses no ginásio, resolveu tirar uma selfie com os cadáveres.

Crédito: TRAGÉDIA EM SANTA MARIAComo diversas falhas mataram 242 pessoas e feriram mais de 600
TRAGÉDIA EM SANTA MARIAComo diversas falhas mataram 242 pessoas e feriram mais de 600

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