Descrição de chapéu New York Times Crise da Água

Com seca severa, Cidade do Cabo já se prepara para 'dia zero' de água

Região sul-africana pode declarar restrição severa em menos de 3 meses

Homem caminha com balde em região de seca na Cidade do Cabo
Diante de colapso de abastecimento, moradores coletam água próximos à Cidade do Cabo - João Silva - 24.jan.2018/The New York Times
Norimitsu Onishi Somini Sengupta

Soa como um blockbuster de Hollywood: o "dia zero" vai chegar à Cidade do Cabo, na África do Sul, em abril. População, fique de sobreaviso.

O governo explica que o dia zero será pior do que qualquer coisa que qualquer grande cidade do mundo enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial ou que os ataques de 11 de setembro de 2001.

A polícia sul-africana está se preparando, porque a previsão é que "o policiamento normal será totalmente insuficiente". Com os nervos cada vez mais à flor da pele, moradores falam em voz baixa sobre o caos que se aproxima.

A razão do medo é simples: as reservas de água da cidade estão perigosamente perto de se esgotar.

Se o nível de água continuar a cair, a Cidade do Cabo vai declarar dia zero em menos de três meses. As torneiras dos imóveis residenciais e comerciais serão desligadas enquanto não chover. Os 4 milhões de habitantes da cidade terão que fazer fila para buscar cotas de água em 200 pontos de coleta. A cidade se prepara para um impacto sobre a saúde pública e a ordem social.

"Quando o dia zero chegar, vão ter que chamar o Exército", disse Phaldie  Ranqueste depois de encher seu grande SUV com galões de água colhida numa fonte natural diante da qual se formara uma fila longa e ansiosa.

ESTIAGEM

Essa situação não estava nos planos para a Cidade do Cabo, conhecida pela política ambiental forte, incluindo a gestão cuidadosa de água. A cidade fica numa região do mundo cada vez mais seca.

Mas, após uma estiagem que já dura três anos, a pior em mais de um século, as autoridades sul-africanas dizem que a Cidade do Cabo corre o risco sério de se tornar um dos poucos grandes centros urbanos do mundo cuja população e locais públicos deixarão de ter água nas torneiras. Hospitais, escolas e outras instituições vitais ainda terão água, mas o racionamento será intensivo.

Os problemas da Cidade do Cabo exemplificam um dos grandes perigos da mudança climática: o risco crescente de secas extensas e recorrentes. Na África, continente especialmente vulnerável aos efeitos da mudança climática, esses problemas servem de alerta a outros governos, que não possuem os recursos dessa cidade e fizeram pouco até agora para se adaptar.

As lideranças políticas da Cidade do Cabo falam em unir-se para "derrotar o dia zero". Enquanto o nível dos reservatórios continua a cair, a cidade corre contra o tempo para construir estações de dessalinização e aumentar a extração de água de poços artesianos. A partir de fevereiro os moradores enfrentarão multas maiores se excederem seu novo limite diário de consumo, que cairá de 87 para 50 litros por pessoa por dia.

Dois anos atrás a situação parecia muito diferente. Em 2014, após anos de chuvas boas, os reservatórios estavam cheios. No ano seguinte, o Grupo C40 (de cidades de todo o mundo que estão combatendo a mudança climática) deu à Cidade do Cabo seu prêmio de "implementação de adaptação", reconhecendo sua boa gestão da água.

A Cidade do Cabo foi descrita como uma das principais cidades verdes do mundo, e a Aliança Democrática –partido que governa a cidade desde 2006– se orgulhou de seu trabalho com a sustentabilidade e o ambiente.

Os prêmios e menções reconheciam o sucesso da cidade na conservação de água. Apesar de a população ter crescido 30% desde o início do século, o consumo total de água permaneceu igual. Muitos dos novos habitantes se fixaram nos bairros pobres, que usam menos água. O consumo total per capita caiu.

MEDIDAS

As medidas de conservação adotadas pela prefeitura –consertando vazamentos, trocando tubulações e encanamentos antigos, instalando hidrômetros e ajustando as tarifas– tiveram um impacto forte. Talvez forte demais.

A cidade conseguiu conservar tanta água que adiou a busca por novas fontes.

A Cidade do Cabo era aconselhada havia anos a aumentar e diversificar suas reservas hídricas. Quase toda a água que ela consome ainda vem de seis reservatórios dependentes de chuva, uma situação arriscada numa região árida com clima em transformação. Os reservatórios, que poucos anos atrás estavam cheios, hoje estão com 26% de sua capacidade.

O clima na Cidade do Cabo vem ficando mais quente nos últimos anos e mais seco no último século, segundo o hidrologista Piotr Wolski, da Universidade da Cidade do Cabo, que mediu as médias de precipitação pluviométrica do início do século 20 até hoje.

Modelos climáticos mostram que a Cidade do Cabo terá um futuro mais seco; as chuvas serão mais imprevisíveis nas próximas décadas.

"A previsão é que os anos de seca sejam mais secos que antes e os anos de chuvas, menos molhados que antes", disse Wolski.

Em 2007, citando o potencial impacto das mudanças climáticas, o Departamento de Assuntos Hídricos sul-africano avisou que a Cidade do Cabo precisava estudar a possibilidade de reforçar suas reservas de água, com poços artesianos, dessalinização e outras fontes.

Mike Muller, diretor do departamento entre 1997 e 2005, disse que a estratégia de conservação de água da cidade, sem buscar novas fontes, "foi um dos grandes elementos que contribuiu para os problemas da Cidade do Cabo".

"A natureza não tem feito concessões", disse. "Haverá estiagens severas. Quem não estiver atento para isso sofrerá as consequências."

O vice-prefeito Ian Neilson disse que novas fontes de água estavam nos planos da Cidade do Cabo, mas não se previa que fossem necessários tão já.

BRASILEIROS

Outras cidades do mundo já encararam escassez grave de água. Milhões de brasileiros já sofreram racionamento em função de estiagens prolongadas. Um ano atrás foi declarado estado de emergência em Brasília.

Especialistas dizem que os casos de escassez de água no Brasil, que afetaram mais de 800 municípios no país, se devem às mudanças climáticas, à expansão agrícola acelerada, infraestrutura deficiente e falta de planejamento.

Na Cidade do Cabo, a escassez de água agravou as divisões políticas, especialmente porque a responsabilidade pela construção de infraestrutura hídrica cabe em boa medida ao governo nacional, liderado pelo Congresso Nacional Africano.

"O governo nacional tem feito feito corpo mole", disse David Olivier, que estuda a mudança climática no Instituto de Transformações Globais da Universidade de Witwatersrand.

O governo nacional controla o fornecimento de água à Cidade do Cabo, outros municípios e o setor agrícola da província, incluindo o grande setor vinícola ao leste da Cidade do Cabo. Especialistas dizem que nos dois primeiros anos da estiagem o governo não limitou o fornecimento de água aos agricultores, intensificando o problema.

Mas a prefeitura também cometeu equívocos. No ano passado, em vez de apostar em soluções mais imediatas, como a extração de água dos aquíferos locais, ela se concentrou em construir unidades de dessalinização temporárias, disse Kevin Winter, hidrologista do Instituto de Água Futura da Universidade da Cidade do Cabo.

"Os módulos de dessalinização levam muito tempo (três a cinco anos) para ser construídos e têm um custo alto", disse. "O custo de construção é ainda mais alto em momentos de crise."

Ian Neilson, o vice-prefeito, reconheceu que "algum tempo foi perdido".

A cidade está intensificando seus esforços para reduzir o consumo. Com a água e o tempo se esgotando, Neilson disse que tem consciência aguda da necessidade de assustar as pessoas para que mudem seu comportamento, mas sem semear o pânico.

Até agora, só 55% dos moradores da cidade alcançaram a meta de limitar seu consumo para 87 litros por dia.

INEVITÁVEL

Helen  Zille, premiê da província do Cabo Ocidental, que abrange a Cidade do Cabo, escreveu no "The  Daily  Maverick" que vê o fechamento das torneiras como algo inevitável. A pergunta agora, segundo ela, é "quando o dia zero chegar, como fazemos para disponibilizar água à população e impedir a anarquia?".

Reduzir o consumo é uma mensagem difícil de transmitir em uma das sociedades mais desiguais do mundo, onde o acesso à água reflete disparidades enormes.

Os moradores de loteamentos irregulares buscam água de torneiras comunais e a carregam em baldes para seus barracos. Em outras partes da cidade, milionários vivem em mansões com piscinas.

Em grandes subúrbios pobres como Mitchells Plain, moradores sem carro não sabem como vão carregar galões de água de um dos postos de água até suas casas.

Faried  Cassiem é faxineiro e não tem carro. Diz que sua mulher terá que buscar água para sua família, que tem oito pessoas. "Há tanta gente parada por aí, sem emprego. Acho que vou dar dois rands (R$ 0,50) a um desempregado para carregar a água."

Com o dia zero se aproximando, algumas pessoas estavam buscando água em duas fontes naturais na cidade. Outras compravam garrafões de água no armazém Makro.

Em Constantia, um subúrbio com condomínios fechados com piscina e casas grandes, alguns moradores instalavam caixas d'água em seus quintais.

Em uma das casas, Leigh de Decker e Markl Bleloch contaram que já reduziram seu consumo total de água fornecida pela prefeitura para 20 litros por dia, sendo que antes da seca consumiam 500 litros por dia. Hoje eles usam duas caixas d'água de 10 mil litros cheias de água de poço tratada. E estavam esperando a entrega de mais duas caixas d'água.

Eles disseram que semanas antes do dia zero seu consumo de água da prefeitura deve cair para zero. Estimaram que terão gasto US$ 4.200 para se tornarem totalmente autossuficientes. "Vamos poder conservar nosso estilo de vida sem usar recursos naturais que outras pessoas necessitam", disse Decker.

Tradução de *CLARA ALLAIN*

The New York Times

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