Escolas do Rio adotam de blindagem a 'plano de guerra' contra tiroteios 

Colégios de elite buscam estratégias para proteger estudantes 

Escola municipal onde Maria Eduarda, 13, morreu com bala perdida no Acari (zona norte), motivando projeto de blindar muros e paredes de unidades
Escola municipal onde Maria Eduarda, 13, morreu com bala perdida no Acari (zona norte), motivando projeto de blindar muros e paredes de unidades - Ricardo Borges - 03.abr.2017/ Folhapress
Luisa Leite
Rio de Janeiro

Escolas de elite do Rio de Janeiro localizadas perto de áreas de conflito começaram este ano letivo adotando medidas de segurança para proteger estudantes e professores contra eventuais tiroteios.

Estou em grupo de WhatsApp com mães. Houve muita apreensão entre os pais durante as operações na Rocinha no fim do ano, diz Letícia Barros Barreto, mãe de Alice, 3, matriculada na Escola Parque, colégio construtivista na Gávea, bairro da zona sul próximo à favela.

Antes do início das aulas, a instituição, cujas mensalidades superam R$ 2.000, enviou aos pais um comunicado informando que, para este ano, foi contratado um especialista em segurança que elaborará um plano a ser acionado em situações especiais espécie de plano de guerra.

O funcionamento das novas medidas ainda não foi detalhado aos pais e será debatido em reuniões. É planejada também uma transferência de endereço até 2019, conforme antecipou "O Globo".

A contratação do programa de segurança foi feita após a escalada de violência na região, que culminou com operação da Polícia Militar com apoio das Forças Armadas em setembro passado.

Com intensa troca de tiros na favela vizinha, a Escola Parque interrompeu as atividades por três dias. Os pais foram informados, por mensagens de celular, que não deveriam levar os filhos ao colégio.

O mesmo aconteceu com a Escola Americana, colégio bilíngue próximo à Rocinha. No colégio, que cobra mensalidades de até R$ 6.000, os estudantes chegaram a ficar sem aula por quatro dias.

Em outubro, encerradas as operações que levaram à paralisação, a instituição comunicou aos pais que havia iniciado obras para ampliar a área do prédio que recebe blindagem parte dele já possuía proteção contra tiros.

Também é prática proibir a circulação de estudantes em áreas externas quando há qualquer barulho ou incidente que possa significar risco de bala perdida.

Um pouco mais distante, no bairro de Botafogo, a também bilíngue Alemã Corcovado é outra escola privada que possui plano para reduzir danos caso haja tiroteio.

Vizinha do morro Dona Marta, onde os conflitos têm se tornado frequentes, o local conta com uma garagem subterrânea. Em caso de situações adversas, o lugar é usado para realizar a saída de alunos e funcionários.

A escola afirmou, em nota, que as questões de segurança que envolvem a comunidade escolar são contínuas e prioritárias para a instituição. Procuradas, a Escola Parque e Escola Americana preferiram não se pronunciar.

INSEGURANÇA

Na última semana, ao menos cinco menores de idade, entre crianças e adolescentes, foram vítimas de tiros na região metropolitana do Rio.

Entre os atingidos, uma menina de 3 anos que morreu depois de tentativa de assalto à família na zona norte e um garoto de 4 anos que está hospitalizado após bala perdida em São Gonçalo.

Enquanto os colégios privados buscam alternativas para tentar enfrentar a alta da violência, na rede pública a situação é mais dramática.

O prefeito Marcelo Crivella (PRB) anunciou em abril de 2017 um projeto que blindaria muros e paredes de colégios da gestão municipal. Inicialmente ele seria aplicado na região da Maré. Nove meses depois da promessa, ainda não foi executado. A prefeitura afirma que esse processo está em trâmite.

A proposta surgiu depois que a estudante Maria Eduarda Conceição, 13, morreu vítima de bala perdida em março durante uma operação no bairro de Acari, na zona norte. O disparo que atingiu a estudante partiu de um fuzil da Polícia Militar.

Só na região da Rocinha, mais de 3.300 alunos da rede municipal perderam 15 dias de aula em 2017 devido a tiroteios. A Secretaria do Estado, responsável pelo Ciep Ayrton Senna, única unidade estadual na região, não informou a quantidade de dias sem aula por conta dos conflitos, mas disse que os conteúdos perdidos foram repostos e que a escola cumpriu os dias letivos exigidos por lei.

Estado e prefeitura citam normas desde agosto para operações policiais, como evitar horários de fluxo de entrada e saída de alunos e que carros policiais parem na frente das escolas durante as ações.

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