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Ocupação em favelas do Rio não será permanente, diz interventor federal

Segundo general, ação atual servirá de laboratório a outras operações no país

Sérgio Rangel Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

Interventor federal na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, o general do Exército Walter Braga Netto disse na manhã desta terça-feira (27) que o “Rio é um laboratório para o Brasil” no que diz respeito ao uso de forças federais no combate à criminalidade.

Segundo ele, o Estado será utilizado como modelo de atuação dos militares na segurança pública, sem dizer, contudo, se outros locais do país poderão ser objeto de intervenção. A ideia é integrar as áreas de inteligência do Exército com as forças estaduais da segurança.     

Braga Netto explicou que as Forças Armadas não irão substituir as polícias. A intervenção manterá as ações de cercos a favelas, mas o trabalho de investigação, prisões e incursões continuará a cargo das polícias.

O interventor federal e comandante militar do Leste, Braga Netto, em entrevista à imprensa
O interventor federal e comandante militar do Leste, Braga Netto, em entrevista à imprensa - Danilo Verpa/Folhapress

Segundo o general, durante os dez meses em que irá vigorar a intervenção, não há previsão de ocupações permanentes de favelas, a exemplo do que ocorreu na Maré em 2013 e 2014. Braga Netto participou de uma entrevista à imprensa nesta terça-feira para apresentar detalhes da ação e o novo titular da pasta de Segurança Pública do Estado, o general Richard Fernandes Nunes.

Muito aguardada, já que há uma semana se especulam os rumos da intervenção, a entrevista durou exatos 30 minutos. Com respostas superficiais e breves, os militares responderam nove perguntas dos jornalistas, deixando diversos questionamentos sem resposta. Foi realizado um cadastro prévio das perguntas a serem feitas pela imprensa.

Braga Netto disse que o objetivo da intervenção neste momento será o de recuperar a chamada “capacidade operativa das polícias”, com investimentos na estrutura de pessoal e logística das corporações. As áreas de inteligência também receberão reforço e serão integradas a do Comando Militar do Leste. Haverá reforço ainda das corregedorias. Segundo o general, a intervenção é uma “janela de oportunidade para superar gargalos na segurança pública”.

Braga Netto, no entanto, não divulgou qual será o investimento disponível para reformular e equipar as duas polícias. A Polícia Civil do Rio conta com 9,5 mil policiais, enquanto na PM são 45,7 mil na ativa.

Nos poucos momentos em que falou, o novo secretário de Segurança, o general Richard Fernandez Nunes, deu poucos detalhes dos próximos passos da intervenção. Segundo Nunes, as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) passarão por “redirecionamento de ações”.

Nesta terça, o Exército realiza uma nova operação na Vila Keneddy, na Coreia e na Vila Aliança, na zona oeste. As comunidades são vizinhas. Militares retiraram barreiras para permitir a entrada de blindados militares. Até o final de semana, o Exército e as polícias do Rio deverão realizar uma operação para combater o narcotráfico local. Também nesta terça a Folha revelou que parte dos criminosos da Vila Kennedy e do Chapadão fugiram no final de semana após o Exército deixar os cercos às favelas.

O Rio passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o Estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado.

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente neste ano, 18 PMs foram assassinados no Estado --foram 134 em 2017.

Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu —​estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou. Com a escalada nos índices de violência, o presidente Michel Temer (MDB) decretou a intervenção federal na segurança pública do Estado, medida aprovada pelo Congresso e que conta com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe dos forças de segurança do Estado, como se acumulasse o comando da Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros Estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo. ​​

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