Phillippe Watanabe
São Paulo

Um protesto contra a morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes, assassinados na última quarta (14) no Rio, reuniu centenas de pessoas neste domingo (18) em São Paulo e chegou a ocupar um quarteirão da avenida Paulista de uma das pistas (no sentido Consolação).

Na linha de frente, mulheres negras lideravam o protesto de mãos dadas e carregavam flores.

A associação Ilú Obá de Min ritmava, com tambores e roupas vermelhas e brancas, o protesto, que teve início por volta das 15h30 em frente ao Masp (Museu de Arte de SP) e desceu a rua Augusta.

Além de um silêncio quase total quando os tambores paravam de tocar, os manifestantes gritavam "Marielle Franco presente hoje e sempre" e também se lembraram do motorista Anderson Gomes.

Os manifestantes criticaram a intervenção federal no Rio de Janeiro e a Polícia Militar, com cantos de "não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar". Policiais presentes afirmaram que havia cerca de 40 oficiais acompanhando o protesto. Gritos de "Fora, Temer" também foram ouvidos.

O protesto começou a dispersar por volta das 17h30 em frente à praça Roosevelt, na região central de São Paulo.

Também houve protesto no complexo da Maré, zona norte do Rio, onde a vereadora nasceu e se criou. O ato foi promovido por organizações sociais do local, mas atraiu moradores de outras regiões da cidade, políticos e artistas. A marcha fechou por cerca de uma hora um trecho da Linha Amarela, uma das principais vias de acesso ao Rio, que corta a comunidade.

ENTENDA O CASO

A vereadora Marielle Franco (PSOL), 38, foi morta na noite de quarta (14) na zona norte do Rio. Ela e o motorista do carro em que estavam foram baleados e ambos morreram. Uma assessora que a acompanhava sobreviveu. 

Ela voltava do evento "Jovens Negras Movendo as Estruturas", uma roda de conversa na Lapa (centro), quando foi interceptada pelos criminosos.

A vereadora era aliada de Marcelo Freixo, que ficou em segundo lugar na eleição para prefeito do Rio. Segundo ele, nem o partido nem a família de Marielle sabiam de ameaças contra ela.

A morte ocorreu no momento em que a intervenção federal na segurança pública do Rio completa um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe dos forças de segurança do estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. 

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado.

Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu –estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.​

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