Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Manifestantes se reúnem em ato multirreligioso por Marielle no Rio

Cerimônia encerra passeata que partiu da Igreja da Candelária, no centro

 

Manifestantes participaram nesta terça-feira (20) de um ato multirreligioso em frente à Câmara no Rio de Janeiro em memória à vereadora Marielle Franco (PSOL) e ao motorista Anderson Gomes, assassinados na última quarta-feira (14). 

A cerimônia conta com a presença de lideranças religiosas como Iyá Wanda de Omolu, frei Leonardo Boff, o rabino Nilton Bonder e o pastor Mozart Noronha. O evento encerra uma passeata que partiu de ato em frente à Igreja da Candelária, no centro do Rio.

"Queremos que nesse país surjam milhares e milhares de Marielles, que vão lutar pela vida", disse Boff.

Além dos milhares de manifestantes, participaram da cerimônia os pais, irmã, filha e viúva da vereadora —a última, muito comovida, chorou bastante desde o início do ato. Também compareceu Agatha Arnaus, viúva do motorista. Manifestantes se revezam para discursar no púlpito improvisado sobre um caminhão estacionado.

Agatha disse que seu marido representava "cada trabalhador que sai de casa para trabalhar, cada pai de família que foi morto neste estado".

"Existe um luto que não é só da família, mas da cidade e de todo o país", declarou Bonder.

O discurso do pastor batista Henrique Vieira foi um dos mais saudados. "Jesus, negro favelado de Nazaré. Marielle, negra favelada da Maré", ele disse.

"A cruz não silenciou Jesus e aqueles tiros não vão silenciar Marielle", afirmou.

Ele criticou o que chamou de "vendilhões do templo" da fé. "Crivella e Malafaia matariam Jesus hoje", disse. 

A orquestra Música pela Democracia abriu a cerimônia por volta das 19h com o hino da Internacional Socialista, seguido de "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré

Entre as canções, os manifestantes gritam contra o decreto de intervenção federal na segurança do Rio.

"[O ato] significa tudo o que o Brasil precisava ouvir. A gente fica com uma dor muito grande, mas com a certeza de que tudo que minha filha fez nunca vai ser em vão", disse Marinete Silva, mãe de Marielle. "Nós queremos que sejam punidos os culpados. O que fizeram com a minha filha foi uma covardia."

Nome

A Folha atendeu pedido do PSOL e não divulga mais em suas reportagens o nome da assessora da vereadora Marielle Franco, 38, assassinada em uma região próxima ao centro do Rio.

A assessora foi a única sobrevivente do ataque a tiros, que, além de Marielle, matou o motorista Anderson Gomes, 39. Como única testemunha, a assessora foi ouvida pelos investigadores e agora está sob proteção. Nenhum dos criminosos foi preso, e a polícia ainda não descobriu a motivação do crime.

Marielle e Anderson foram mortos quando voltavam de uma roda de conversa intitulada “Jovens Negras Movendo Estruturas”. O carro em que estavam foi atingido por nove tiros. A polícia trabalha com a hipótese de execução. 

O assassinato da vereadora ocorreu dois dias antes de a intervenção federal na segurança pública do estado completar um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do Estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o Estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. 

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado.

Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu –estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros Estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

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