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Desconfiança de médicos pode ter afetado adesão à vacina fracionada

Para aumentar vacinação contra febre amarela, governo deve enviar carta a profissionais

Agente de saúde aplica vacina contra a febre amarela em UBS da zona sul de São Paulo
Agente de saúde aplica vacina contra a febre amarela em UBS da zona sul de São Paulo - Taba Benedicto/Folhapress
Natália Cancian
Brasília

Em uma tentativa de aumentar a vacinação contra febre amarela, o Ministério da Saúde planeja enviar uma carta a médicos do país para informar sobre a eficácia e duração da dose fracionada da vacina contra a doença.

A estratégia ocorre após uma reunião em conjunto com os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia que apontou a resistência dos profissionais de saúde como uma das possíveis causas para a baixa adesão à campanha com a vacina fracionada –cuja dose representa um quinto da dose integral. 

“Quando fizemos uma reunião para avaliação da campanha, uma das questões colocadas pelos estados era essa: a preocupação que estavam tendo com os próprios profissionais de saúde que estavam dizendo que a dose fracionada era uma dose fraca”, afirma a coordenadora substituta do Programa Nacional de Imunizações, Ana Goretti.

Para ela, há desconhecimento dos médicos sobre o fracionamento –daí a iniciativa de fazer a campanha de informação aos profissionais. A medida será feita em conjunto com as sociedades de Infectologia, Imunizações, Pediatria, Medicina Tropical e Reumatologia.

Segundo Goretti, dados de estudos feitos pelo instituto Biomanguinhos, da Fiocruz, mostram que tanto a dose fracionada quanto a integral possuem a mesma eficácia. A diferença está no tempo de proteção –enquanto a primeira teria duração vitalícia, a segunda protegeria por ao menos oito anos.

“Temos, além do estudo de Biomanguinhos, outro publicado na revista New England [Journal of Medicine] mostrando que de fato é uma dose bastante eficaz para proteger a população”, afirma a coordenadora, referindo-se à pesquisa financiada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, dos Estados Unidos.

O uso da dose fracionada também é recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como medida de controle em caso de risco de expansão da febre amarela, informa. Desde julho até o dia 28 de fevereiro, o Brasil registrava 723 casos confirmados de febre amarela, incluindo 237 mortes.

‘GUERRA’ DE DADOS

Na última semana, dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontavam que apenas 5,5 milhões de pessoas já haviam sido vacinadas durante a campanha emergencial nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O número representava o equivalente a 23,2% do público-alvo, de 23 milhões de pessoas.

Nesta terça, porém, a pasta chegou a divulgar que os dados foram revistos e que a cobertura vacinal nestes locais já chegava a 76% entre os três estados –em São Paulo, chegaria a 90%. 

A justificativa é que os dados anteriores não incluíam o público já vacinado e que vive nos municípios onde ocorre a campanha de vacinação.

Segundo o coordenador de controle de doenças de São Paulo, Marcos Boulos, no entanto, a secretaria de saúde já havia retirado da conta o percentual de vacinados antes de planejar a campanha. “Esses casos já estavam descontados. Fomos surpreendidos pelos números [divulgados]”, afirma. Segundo ele, a cobertura vacinal em São Paulo ainda estaria em torno de 50%, afirma.

Questionado sobre a divergência, o Ministério da Saúde informou que os dados são de responsabilidade dos estados e que iria verificar a possibilidade de ter havido um erro no novo cálculo. Uma nova revisão dos dados será feita nesta quarta-feira (7), informa.

BAIXA COBERTURA

Além da estratégia junto aos médicos para aumentar a adesão à vacinação contra febre amarela, o Ministério da Saúde planeja novas medidas para aumentar as coberturas vacinais contra outras doenças no país.

Um dos impasses, por exemplo, é a cobertura de sarampo, que hoje atinge 83% entre as crianças menores de um ano. Na segunda dose, o índice é ainda menor: cai para 68%. “É uma tragédia”, diz Goretti, do Programa Nacional de Imunizações. “Estamos com coberturas muito baixas de sarampo.”

Segundo ela, o próprio sucesso do programa de vacinação, que levou à redução nos casos de algumas doenças, pode ser um dos fatores para a queda na adesão da população à vacinação. 

“Hoje tem médico que nunca viu um caso de sarampo na vida. Pólio parece uma história da carochinha, de muitos anos atrás. As famílias esquecem que isso é um passado muito recente”, afirma.

Agora, a pasta planeja uma campanha para divulgar o programa nacional de vacinação. Também discute com os estados a possibilidade de ampliar os horários de funcionamento de salas de vacinação.

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