Exército encerra teste em favela do Rio um mês após início de intervenção

Saída da Vila Kennedy ocorre após 'fichamento' e poucas apreensões

Sérgio Rangel Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

Escolhida pelas Forças Armadas como laboratório da intervenção federal na segurança pública do Rio, iniciada há pouco mais de um mês, a Vila Kennedy será desocupada pelos militares.

A decisão dos interventores é deixar a comunidade da zona oeste do Rio em definitivo em duas semanas. A partir daí, apenas a Polícia Militar ficará responsável pelo patrulhamento da região.

Atualmente, a operação na favela conta com 300 militares que patrulham as ruas durante o dia e um igual contingente de PMs à noite.

Em 23 de fevereiro, por exemplo, quando a operação teve início, 3.200 militares participaram da ação.

A determinação de se retirar "paulatinamente" da favela, segundo relatou à Folha um oficial do Exército, ocorre para que a intervenção possa se dedicar a outras áreas da cidade e do estado.

A avaliação dos militares é que o planejamento tem sido afetado por causa dos crimes de grande repercussão que surgem quase semanalmente na cidade. Só na semana passada, houve o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, além da morte do menino Benjamim, 1, com uma bala perdida na cabeça no Complexo do Alemão.

Segundo o CML (Comando Militar do Leste), as inteligências do Exército e da Secretaria de Segurança Pública têm informações de que houve redução dos roubos de veículos e motos na comunidade, ainda que os dados de fevereiro e março do Instituto de Segurança Pública não estejam consolidados.

Neste período de menos de um mês na comunidade, o Exército não prendeu nenhum chefe do tráfico nem fez apreensões volumosas de drogas e armas. A favela fica na margem da avenida Brasil e é reduto de roubo de veículos e cargas do Comando Vermelho.

O motivo inicial de ocupar os acessos da favela foi a morte, no mês passado, de um sargento do Exército em Campo Grande, bairro vizinho.

De efetivo, as forças de segurança retiraram barreiras postas pelo tráfico em pontos de acesso, mas que eram recolocadas pelos traficantes após a saída dos militares.

Um dos motivos para a operação na Vila Kennedy é sua proximidade logística com a Vila Militar, em Deodoro, também na zona oeste.

Distante cerca de 40 km do centro, a favela sofre com falta de serviços públicos e violência, mas não é a mais carente do Rio. A praça Miami, que fica na beira da avenida Brasil, é local em que traficantes ostentavam armas antes da chegada dos militares.

Logo após as primeiras operações, alguns chefes locais do crime deixaram as favelas. Moradores, contudo, relataram que, mesmo com a presença ostensiva dos militares, traficantes continuavam na comunidade.

A Vila Kennedy foi apontada pelo general Braga Netto, interventor nomeado pelo presidente Michel Temer, como o laboratório para o trabalho do Exército até o final do ano.

"Vamos estabilizar o terreno inicialmente com reforço do policiamento ostensivo, com investigação para localizar e prender os criminosos. Esse trabalho inicial vai permitir o acesso dos prestadores de serviço público e privado", disse Braga Netto na ocasião.

No sábado (17), o Exército apoiou um mutirão realizado pelo governo do estado e pela prefeitura na comunidade.

'Fichamento'

Logo no primeiro dia da ocupação, os militares tomaram uma decisão polêmica, que foi criticada por entidades de defesa dos direitos humanos. Eles decidiram "fichar" os moradores que deixavam a comunidade.

Nas abordagens aos moradores, enviavam RG e foto das pessoas por aplicativo para um setor de inteligência da Secretaria de Segurança do Rio, que avaliava eventual existência da anotação criminal.

Parte dos moradores protestou devido à ação. O "fichamento" foi feito em todas as saídas das comunidades. Cada procedimento demorava cerca de 20 minutos.

A OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil), que criou um grupo para acompanhar a intervenção no Rio, classificou as ações dos militares como "graves infrações às garantias constitucionais". 

O procedimento não foi repetido depois pelos militares.

Reportagem da Folha neste domingo (18) mostrou que a presença do Exército na favela não conseguiu reduzir o medo dos moradores e a ação de traficantes pelas vielas.

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