Irmã de Marielle Franco diz que vereadora nunca relatou ameaças

Ex-presidente Lula conversou por telefone com família de vereadora

Felipe Bächtold Catia Seabra
Rio de Janeiro e Salvador

Irmã da vereadora do Rio Marielle Franco, morta nesta quarta (14), a professora Anielle Silva, 33, diz que a família a deixava "solta e tranquila" e que ela nunca relatou ameaças ou medo por causa de sua atuação política.

"Nem para a equipe dela. A gente perguntou [após o crime] e não tinha também nada", disse.

Anielle falou brevemente com investigadores pela manhã sobre o assunto.

A jornalistas, após o sepultamento, a professora disse que a repercussão da morte mostra a força da atuação da irmã. Falou que foi convidada a discursar no ato durante o velório, na Câmara do Rio durante a tarde, mas não teve condições de participar. 

"As pessoas acreditaram no que ela representava. Eu não esperava uma repercussão tão grande", disse. 

Anielle contou também que esteve com ela no domingo e vinha conversando nos últimos dias. A irmã da vereadora planejava ir na noite de quarta com a filha de Marielle, de 19 anos, ao evento do qual a vereadora participou, na Lapa. 

Mas acabou não comparecendo porque as duas tiveram uma conjuntivite. A filha de Marielle, Luyara, provavelmente não estaria no carro que foi alvo do ataque, diz, porque pegaria carona com ela.

Segundo a irmã, a vereadora iria para a academia após o evento.

A mãe e a filha de 19 anos da vereadora não participaram do sepultamento, que ocorreu no fim da tarde desta quinta-feira no cemitério do Caju, na zona norte do Rio. Marielle morava com a filha e com a companheira Mônica havia pouco mais de um ano.

LULA

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou na tarde desta quinta-feira para a família da vereadora Marielle Franco.

No telefonema feito à irmã de Marielle, Lula também conversou com a mãe da vereadora, pelo viva-voz.

O ex-presidente prometeu visitá-las em sua próxima viagem ao Rio. Após o telefonema, Lula afirmou que o assassinato da vereadora não foi coisa de amador.

Antes do telefonema, Lula disse que seu problema na Justiça era menor em comparação à atrocidade cometida contra a menina de 38 anos.

“A gente não tem como devolvê-la aos seus. Mas a gente tem que fazer desse acontecimento quase que uma profissão de fé para não permitir que outras atrocidades como essa aconteçam".

VIOLÊNCIA NO RIO

Marielle Franco, 38, foi morta na noite de quarta, junto do motorista Anderson Pedro Gomes, 39, quando voltavam de uma roda de conversa intitulada “Jovens Negras Movendo Estruturas”. O carro em que estavam foi atingido por nove tiros. A polícia trabalha com a hipótese de execução. Uma assessora, que estava no banco de trás, sobreviveu.

O assassinato da vereadora ocorreu dois dias antes de a intervenção federal na segurança pública do estado completar um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso.

Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição. A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado. Policiais, porém, também estão matando mais.

Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu —estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

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