Maia é hostilizado em sessão em homenagem à vereadora Marielle

Militantes chamaram o presidente da Câmara de 'golpista' e também gritaram 'fora, Maia'

Angela Boldrini
Brasília

Após demorar quase 12h para se manifestar a respeito do assassinato de Marielle Franco (PSOL), o presidente da Câmara e pré-candidato à presidência, Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidiu sessão solene em homenagem à vereadora carioca e foi hostilizado com gritos de "golpista" e "fora, Maia". 

"O que ele fazendo aí? Tira ele dessa cadeira", dizia uma militante no plenário cheio da Casa, onde servidores, parlamentares e ativistas se reuniram na manhã desta quinta-feira (15) para homenagear a vereadora morta a tiros na zona norte do Rio na noite de quarta (14). 

Maia, que não costuma presidir sessões solenes, ficou todo o tempo de duração dos discursos à frente da Mesa Diretora. De cara fechada e muitas vezes ao telefone, porém, não se pronunciou a respeito do assassinato de Marielle, limitando-se a chamar os parlamentares para a tribuna. 

Entre os discursos, o plenário cheio entoava palavras de ordem como "fascistas, racista, não passarão", "fora, Temer" e "golpistas". Os manifestantes também pediam o fim da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, medida defendida por Maia.

Apesar dos gritos, a atitude de Maia de presidir a sessão, com o plenário ocupado por partidos de esquerda, foi considerada "corajosa" por parlamentares presentes. Na saída, ele minimizou as hostilidades, apesar de, ao fundo, ainda ouvirem-se gritos de "golpista" durante a entrevista coletiva.

"É um momento de mais estresse, mais radicalismo das pessoas, mas eu entendo que o importante é que o direito à manifestação está colocado, a Câmara é a casa do povo, para a gente ouvir críticas", afirmou. 

No Facebook, Maia disse nesta manhã que os assassinatos ocorridos na noite de quarta-feira (14) significam um trágico avanço na escalada da barbárie que deve ser contida custe o que custar. “Solidarizo-me à sua família, à família do Anderson, e exijo junto com eles: justiça e paz. Justiça para conter os autores dessa execução, paz para a sociedade carioca e brasileira”, afirmou o presidente da Câmara.

Até a publicação desta reportagem, a agenda de pré-candidato de Maia na Paraíba estava mantida. À noite, como pré-candidato, Maia tem um jantar com empresários e parlamentares paraibanos em João Pessoa (PB).Na sexta-feira (16), a previsão é que ele vá ao interior da Paraíba e siga para o Rio de Janeiro somente à noite.

VIOLÊNCIA

Marielle Franco, 38, foi morta na noite de quarta, junto do motorista Anderson Pedro Gomes, 39, quando voltavam de uma roda de conversa intitulada “Jovens Negras Movendo Estruturas”. O carro em que estavam foi atingido por nove tiros. A polícia trabalha com a hipótese de execução. Uma assessora que estava no banco de trás sobreviveu.

O assassinato da vereadora ocorreu dois dias antes de a intervenção federal na segurança pública do estado completar um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

 Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do Estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o Estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso.

Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição. A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado. Policiais, porém, também estão matando mais.

Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu —estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros Estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

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