O agro não é pop, diz cineasta Luiz Fernando Carvalho em evento da Folha

Autor de curta sobre a preservação de rios, ele criticou o agronegócio por envenenar as águas 

Thaiza Pauluze
São Paulo

A água não deve servir como moeda de troca, para o diretor de novelas e minisséries globais como  “Velho Chico” e “Dois Irmãos”, Luiz Fernando Carvalho.

Ele exibiu nesta segunda-feira (19), em sessão inédita organizada pela Folha e pelo Cinearte, seu novo curta-metragem, “Em Nome de Quê?”. O filme, que será lançado na quinta (22), Dia Mundial da Água, critica a disputa de interesses econômicos que degrada os rios brasileiros. 

O cineasta Luiz Fernando Carvalho, que fez um curta-metragem sobre os Saltos Sagrados, berço das águas que correm na Amazônia
O cineasta Luiz Fernando Carvalho, que fez um curta-metragem sobre os Saltos Sagrados, berço das águas que correm na Amazônia - Marcelo Justo/Folhapress

Segundo Luiz Fernando, todas as águas do curta estão, em algum nível, envenenadas. “As reservas indígenas daquela região [Salto do Utiariti, no Mato Grosso] fazem fronteira com o deserto do agronegócio”, disse, em debate após a exibição.

“O agro não é pop, por mais que isso seja anunciado e vendido numa grande rede de concessão pública de televisão. Ele se estrutura através de processos químicos muito perversos, que, no mundo todo, contaminam, envenenam e matam não só aqueles que pulverizam.”

Para Maria Paula Fernandes, fundadora da ONG Uma Gota no Oceano, que produziu o curta, já há exemplos claros desta degradação. “Os índios Jurunas, no Xingu, ainda se alimentam de peixes, mas de sardinha em lata”, disse. “O Tapajós é o último grande rio da margem direita do Amazonas a correr livre. As próximas gerações não saberão o que é isso. Que futuro a gente quer?”

Além do agronegócio, outro risco para a região são as hidrelétricas e a crescente privatização das águas, na visão de Maria Paula e do antropólogo Rinaldo Arruda, presidente da ONG Operação Amazônia Nativa (OPAN). O compartilhamento de águas é tema da 8ª edição do Fórum Mundial da Água, sediado pela primeira vez no Hemisfério Sul, em Brasília, até sexta (23).

“Nesta região, têm mais de 140 pedidos para PCHs [Pequenas Centrais Hidrelétricas]. Elas servem apenas para gerar lucro e trazem um perigo ainda maior, porque são licenciamentos estaduais”, afirmou a ativista.

Todos criticaram os projetos legislativos, em trâmite no Congresso, que mudam o licenciamento ambiental, mas disseram que, hoje, a principal falha do poder público é a falta de fiscalização do cumprimento das leis.

“A legislação ambiental brasileira é considerada uma das mais sofisticadas do mundo, mas ela não é cumprida”, afirmou Maria Paula, explicando que para a construção de uma hidrelétrica são necessárias, no mínimo, três licenças: do projeto, da construção e da instalação. “Na nova proposta, querem que seja um licenciamento só. É um retrocesso de 30 anos.”

Segundo Arruda, as compensações e minimizações de impacto nas obras não são obedecidas. Além disso, para ele, deveria haver uma análise conjunta de todos os empreendimentos para avaliar os efeitos cumulativos das várias hidrelétricas num mesmo rio. “A lei pede uma avaliação ambiental integrada, mas as que são feitas são falhas”, afirmou.

No debate mediado pelo repórter da Folha Eduardo Geraque, o diretor Luiz Fernando fez referência ao título do curta. “A água não pode ser transformada em uma moeda de troca. Não pode servir a poucos empresários ou a interesses políticos. Nós sabemos em nome de quê e de quem”, disse. 

Durante o evento também foi exibido o documentário canadense “Marcas da Água”, dos diretores Jennifer Baichwal e Edward Burtynsky, que retrata, por meio de 20 histórias, as complexidades da interação entre o ser humano e a água ao redor do mundo. 
 

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