Sucessão estadual ameaça travar apoio a Bruno Covas na Câmara de SP 

Temor da prefeitura é que aliados de vice de Alckmin votem com a oposição

João Doria, que deixará a Prefeitura de São Paulo para concorrer ao governo do estado, e seu vice, Bruno Covas, que assumirá o comando da cidade
João Doria, que deixará a Prefeitura de São Paulo para concorrer ao governo do estado, e seu vice, Bruno Covas, que assumirá o comando da cidade - Danilo Verpa - 18.mar.2018/ Folhapress
Artur Rodrigues Guilherme Seto
São Paulo

Quando assumir a Prefeitura de São Paulo a partir de 7 de abril, o atual vice Bruno Covas (PSDB) deve enfrentar mais problemas para aprovar projetos na Câmara Municipal do que o atual prefeito, o também tucano João Doria.

O principal motivo é o racha na sucessão estadual, com a disputa entre Doria e o hoje vice-governador Márcio França (PSB), que assumirá o Palácio dos Bandeirantes nos próximos dias com a saída de Geraldo Alckmin (PSDB) para a eleição presidencial.

A coligação de França para as eleições ao governo deve incluir partidos que, hoje, somam 18 vereadores, dos 55 da Câmara. Além disso, a prefeitura já tem uma oposição fixa de 11 vereadores, sendo nove do PT e dois do PSOL.

Segundo esse cenário, Covas teria uma base de, no máximo, 26 vereadores, número insuficiente até para aprovar um simples projeto de lei. O que não se sabe ainda é se os vereadores de partidos coligados com Marcio França irão boicotar os projetos de interesse de Covas (e ainda de Doria) na Câmara Municipal.

Bruno já atua hoje como articulador político de Doria na Câmara. Ele assumiu a Casa Civil, depois de ser retirado pelo prefeito do comando da Secretaria das Prefeituras Regionais diante de problemas de zeladoria na cidade.

Entre os projetos importantes a serem avaliados pelos vereadores no início de gestão de Covas estão as privatizações de Anhembi e Interlagos e algumas mudanças na lei de zoneamento.

Vereadores da base e integrantes da prefeitura viram dedo de França na derrota em relação à reforma da previdência municipal, que acabou congelada na Câmara após pressão de servidores.

Para João Jorge (PSDB), líder do governo na Casa, França teria atuado diretamente para que os vereadores de partidos de sua coligação não apoiassem o projeto.

“Ele tem falado com prefeitos do interior de São Paulo que são do PSDB e tem feito promessas em troca de apoio, então acredito que esteja fazendo o mesmo com os vereadores”, diz Jorge.

“Ele acha que, assim, está prejudicando o Doria, mas, na verdade, está prejudicando a municipalidade”, completa.

Desde meados de 2017, quando Doria já indicava pretensões eleitorais para além da prefeitura, França demonstrava desagrado. Em agosto, o vice de Alckmin se reuniu com vereadores de sua legenda para dizer que eles não tinham mais a obrigação de votar com o tucano na Câmara.

O vereador José Police Neto (PSD), que faz parte da base aliada na Câmara e é pré-candidato ao Senado, diz que Covas tem se saindo bem na articulação política, mas agora pode encontrar uma situação diferente, em um momento em que vários projetos da gestão exigem maioria qualificada de 37 votos, como as mudanças no zoneamento.

“Pode ser uma dificuldade, sim, na construção de maioria quanto você tiver propostas distintas do governo do estado caminhando paralelamente. A base pode passar a ser menos acessível”.

Também parte da base e de partido que deve apoiar o PSB nas eleições estaduais, Adilson Amadeu (PTB) diz que pretende continuar votando com a prefeitura. Mas admite que a base pode ser afetada. 

“Se já está difícil agora, talvez fique mais ainda. Acredito que o governo [de Covas] vai chamar um a um para saber quem fica [na base].”

No dia-a-dia da articulação política de Doria, vereadores da base dizem que Bruno costuma ser solicito e retornar as ligações com rapidez.

No entanto, já deu mostras de que pode jogar pesado. Logo que assumiu a Casa Civil, em novembro, o vice de Doria esteve à frente da demissão de indicados políticos ligados ao PRB, partido que vinha dificultando a vida do governo municipal nas votações de projetos relacionados a privatizações.


PROJETOS PRIORITÁRIOS PARA A PREFEITURA EM 2018  

Privatização do Anhembi 
- Fase atual: foi aprovado em 2017, mas ainda depende de aprovação de projeto de lei que altera o zoneamento da região 
- Votos necessários: 37 em dois turnos (para a alteração do zoneamento)

Privatização de Interlagos
- Fase atual: foi aprovado em primeira votação em 2017 e precisa passar por segunda votação; depois, ainda dependerá de aprovação de projeto de lei que altera características do zoneamento na região
- Votos necessários: 28 na segunda votação

Reforma da previdência municipal
- Fase atual: Prefeitura enviou projeto em dez.2017, mas ele foi retirado da pauta por 4 meses para estudo após sofrer forte oposição de servidores
- Votos necessários: 28 em dois turnos  

Flexibilização da lei de zoneamento
- Fase atual: ainda não foi finalizado; prefeitura quer enviá-lo à Câmara até junho e espera que ele seja aprovado até o fim do ano
- Votos necessários: 37 em dois turnos

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