Bruno Covas assume prefeitura sob pressão de carreira política discreta 

Tucano entra na vaga de Doria, que disputará eleição ao governo de SP

Novo prefeito de SP, Bruno Covas assumirá lugar de Doria, que disputará eleição
Novo prefeito de SP, Bruno Covas assumirá lugar de Doria, que disputará eleição - Jorge Araujo - 15.mar.2018/ Folhapress
 
Marina Estarque
São Paulo

​Com mais de uma década em cargos públicos, Bruno Covas (PSDB) teve atuação discreta em funções do Executivo e do Legislativo —apesar de boas votações alavancadas pelo sobrenome do avô, Mario Covas, ex-governador e ex-prefeito de São Paulo.

Não deixou grandes marcas como deputado estadual e federal nem como secretário paulista de Meio Ambiente —e, como secretário das Prefeituras Regionais de João Doria (PSDB), foi afastado pelo correligionário em meio às críticas à zeladoria da cidade.

Por outro lado, conciliador e diplomático, ainda é bastante jovem —e elogiado por adversários políticos pela maior propensão ao diálogo.

É com esse retrospecto que Bruno Covas —divorciado, morador da Barra Funda (zona oeste), pai de um garoto de 12 anos— assumirá a Prefeitura de São Paulo em um evento fechado com Doria na tarde desta sexta (6). O atual prefeito sairá para disputar a eleição ao governo paulista.

A cidade com mais de 12 milhões de habitantes terá seu prefeito mais novo desde a redemocratização —Covas completará 38 anos no sábado (7).

Além do desafio de assumir um papel de protagonista, ele terá a responsabilidade de cumprir uma série de promessas pendentes deixadas por Doria para os próximos mil dias de mandato.

Nos últimos meses, mesmo aliados dizem que Covas se recolheu e evitou interferir no governo —apesar das viagens do prefeito que abriram margem para a exposição do vice.

“Durante a ausência do Doria, que foi bastante grande no ano passado em viagens, eu esperava que Bruno pudesse assumir a prefeitura, dar a cara dele a algum projeto e imprimir um ritmo próprio. Mas infelizmente isso não aconteceu”, diz Mario Covas Neto, 58, conhecido como Zuzinha.

Tio do novo prefeito, filho do ex-governador e vereador crítico à gestão Doria, Zuzinha acaba de sair do PSDB para se filiar ao Podemos.

DESGASTE

Segundo aliados, a discrição de Bruno Covas se intensificou após desgaste com Doria em novembro, quando ele saiu do comando da Secretaria de Prefeituras Regionais.

“O Bruno deu um passo atrás, ficou um pouco na posição de espectador. Ele ia aos mutirões [de zeladoria feitos pelo prefeito aos finais de semana], mas não interferia”, afirma Raul Christiano, um dos fundadores do PSDB.

Na ocasião, em meio a queixas sobre excesso de buracos, sujeira e mato alto pela cidade, Doria demitiu Fabio Lepique, secretário-adjunto da pasta e aliado do vice-prefeito. Em seguida, tirou Bruno Covas da secretaria —e decidiu acomodá-lo na Casa Civil, de articulação política.

Na visão de aliados de Covas, Doria quis impor, de forma equivocada, um ritmo empresarial à gestão pública.

“Foi incompreensão dele, infelizmente não dava para dar respostas na velocidade que o prefeito queria, por conta dos prazos legais e discussão de editais com o Tribunal de Contas. E tem uma questão grave orçamentária. A pasta tinha cerca de um sexto das equipes que o Kassab tinha”, diz Lepique, que defende a postura do vice. “É um cargo protocolar, e o Bruno nunca avançou o sinal.”

Zuzinha avalia que o sobrinho priorizou a harmonia na administração, mas que a conciliação teve um custo pessoal alto para Bruno Covas.

“Agora pesa sobre ele a necessidade de a todo momento provar que é capaz de ser um bom prefeito, apesar de Doria achar que ele não poderia ser um bom secretário.”

O vereador diz ter “relação da melhor qualidade” com Bruno Covas, mas com “divergências políticas pontuais”.

O novo prefeito nega atuação discreta. “Fui o vice prefeito com maior protagonismo da história de São Paulo”, afirma. “Não fui demitido. Houve uma readequação. E minha gestão na pasta não foi mal avaliada”, diz ele, citando pesquisa Datafolha sobre aprovação em limpeza urbana.


TRAJETÓRIA DE BRUNO COVAS

Formação e filiação
Formou-se em direito pela USP e em economia pela PUC-SP no início dos anos 2000. É filiado ao PSDB desde 1998 e já foi presidente estadual e nacional da juventude do partido

Primeiras candidaturas
Candidatou-se a vice-prefeito de Santos em 2004, mas não ganhou. Depois foi eleito deputado estadual de SP duas vezes (2007-2010 e 2011-2014)

Passagem pelo Executivo
Licenciou-se do Legislativo em 2011 para assumir a Secretaria do Meio Ambiente de Alckmin (PSDB). Três anos depois, foi eleito deputado federal para o mandato de 2015-2018

Volta ao Executivo
Voltou de Brasília antes de completar dois anos de mandato para se candidatar a vice-prefeito de João Doria (PSDB). Foi eleito em primeiro turno em 2016

Vice-prefeito
Acumulou o cargo de secretário das Prefeituras Regionais, mas foi realocado para a Casa Civil (articulação política) após atritos com Doria. Nesta sexta (6), se torna prefeito de SP


POLÍTICA FAMILIAR

Na adolescência, Bruno Covas deixou Santos, cidade da sua família, e foi morar com o avô, então governador de São Paulo, para estudar no Colégio Bandeirantes. Ele é frequentemente descrito como aplicado e estudioso.

“Sempre gostou de planilha, fez Kumon [método japonês de ensino], era muito CDF”, diz Fernando Padula, coordenador do Arquivo Público do Estado e amigo de infância do novo prefeito.

Padula foi padrinho de casamento de Covas e cresceu com ele no Clube do Tucaninho, voltado para a iniciação de crianças dentro do PSDB.

O amigo do novo prefeito agora é acusado pela Promotoria de corrupção passiva em contratos do caso da máfia da merenda —pela época em que foi chefe de gabinete da Secretaria da Educação da gestão Geraldo Alckmin (PSDB).

Padula nega ilegalidades e diz que a quebra de seus sigilos atesta a sua inocência.

Com foco na vida pública, Bruno Covas cursou economia na PUC e direito na USP.

A oportunidade de concorrer ao primeiro cargo, de vice-prefeito de Santos na chapa de Christiano em 2004, veio por meio da família. O convite inicial tinha sido para a mãe, Renata Covas.

“Ela era um nome de peso, mas me disse para chamar o Bruno: ‘ele é o político da família’”, conta Christiano.

A chapa perdeu e, dois anos depois, Bruno Covas se candidatou a deputado estadual. Recebeu 122 mil votos e, em 2010, foi reeleito com 239 mil, maior votação do estado.

Na Assembleia, foi presidente da Comissão de Finanças e Orçamento e autor de 68 projetos de lei, mas apenas oito foram aprovados.

Dentre eles, três propunham a mudança de nome de instituições e dois tratavam de declaração de utilidade pública de entidades. O mais significativo foi aprovado em 2007 e tornou obrigatória a Virada Cultural em todas as regiões do estado.

Em 2014, Covas foi o quarto deputado federal mais votado em São Paulo, escolhido por 352 mil eleitores.

O novo prefeito defende sua atuação como deputado estadual. “Segundo a ONG Voto Consciente, fui um dos parlamentares mais atuantes. Analisar um mandato pelo número de projetos aprovados é uma visão restrita”, diz.

SECRETÁRIO

Bruno Covas foi secretário de Meio Ambiente de 2011 a 2014, na gestão Alckmin. Criou só uma unidade de conservação, segundo dados compilados pelo presidente da ONG Iniciativa Verde, Roberto Resende. “É pouco perto da demanda de regularização e criação de áreas protegidas.”

Na gestão anterior, de Xico Graziano, no governo de José Serra (PSDB), foram seis novas, bem como o desdobramento do Parque Jacupiranga em 16 áreas de preservação.

“Deixou muito a desejar, foi uma gestão morna”, afirma Malu Ribeiro, da Fundação SOS Mata Atlântica.
Bruno Covas rebate: “A última unidade de conservação no estado foi criada por mim. Desde lá não houve nenhuma. E com custo zero ao estado. Tive uma preocupação ambiental ao lado de uma preocupação fiscal”, afirma.

NEGOCIADOR

“Ele tem esse temperamento de ouvir, de negociar. Acho que essa vai ser a grande diferença dele para o João Doria”, afirma o tio Zuzinha.

O vereador Antonio Donato (PT), líder da oposição na Câmara, concorda. “O Bruno Covas foi, em geral, bem mais respeitoso do que o Doria.”

O empresário Alê Youssef, integrante do Fórum dos Blocos de Carnaval de SP, afirma que teve mais facilidade de negociar com o então vice. “O contato com o Bruno foi um tempo de maior espaço de diálogo e compreensão”, diz. 

Apesar de ser considerado comedido pessoalmente, nas mídias sociais o novo prefeito costuma reagir a seguidores. 

Em fevereiro, respondeu a uma crítica de um internauta: “Olha, o cara vem na minha página reclamar e nem sabe o que está acontecendo na região dele. Aí fica difícil”. 

Em janeiro, protestou contra um comentário que uma pessoa fez sobre sua roupa. “Não passe essa vergonha na minha rede. O mundo já está repleto de preconceito contra raças e opção sexual, ajude a mudar isso!!”, escreveu. E, para manter a diplomacia, complementou: “Boa tarde!”.

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