Doria se despede com choro, Gandhi, crítica à imprensa e meta inflada

Tucano deixou a prefeitura para disputar a eleição ao governo do estado de SP

Guilherme Seto Artur Rodrigues
São Paulo

A última reunião de João Doria (PSDB) como prefeito de São Paulo na tarde desta sexta-feira (6) foi a portas fechadas, sem público ou jornalistas, evitando assim o desgaste por renunciar ao cargo 1.000 dias antes do fim do mandato.

Mas, no espaço reservado, o agora ex-prefeito teve performance ao seu estilo habitual, com citações a Mahatma Gandhi, vídeo com vitória de Ayrton Senna, choro, medalhas e antipetismo. Ao fim, passou o bastão para o vice, Bruno Covas (PSDB).

Diante de uma plateia de secretários, vereadores da base aliada, empresários e familiares, Doria leu trechos de um livro sobre Mahatma Gandhi que disse ter ganhado de uma eleitora um dia antes. Ele usou uma citação atribuída ao líder pacifista para descrever seu estilo de governar: "Melhor um 'não' com convicção do que um 'sim' dito apenas para agradar ou, pior, para evitar problemas."

Após 15 meses de gestão, Doria deixa o cargo para concorrer ao posto de governador do estado.

 

Segundo a Folha apurou com participantes da reunião, Doria foi às lágrimas mais de uma vez enquanto passava um filme com suas realizações, ao distribuir medalhas para secretários e empresários e, por fim, ao exibir vídeo com vitória árdua de Ayrton Senna no Grande Prêmio do Brasil, em 1993, sob chuva.

Ao longo do mandato, Doria tentou colar sua imagem à de Senna algumas vezes, utilizando em eventos públicos o "tema da vitória" tocado pela TV Globo a cada vitória do piloto.

Desta vez, pretendeu associar o tricampeão mundial de F-1 ao sentimento patriótico e à sua própria sanha antipetista: chacoalhou uma bandeira do Brasil e disse que "essa bandeira nunca será vermelha". Repetiu o que disse à Folha nesta quinta-feira (5): "Fiz mais em 15 meses do que o Haddad [seu antecessor, do PT] em quatro anos".

O ex-prefeito foi bastante aplaudido quando exaltou o PSDB, afirmando que o partido "vai deixar de ter muro", pedindo mais união para os tucanos.

Entrevista

Após a troca de bastão com Bruno Covas, Doria deu uma rápida entrevista na qual apresentou um vídeo de 12 minutos sobre seus feitos no qual tenta justificar a decisão de abandonar o cargo. O tucano também criticou a imprensa.

O vídeo, que será divulgado nas redes sociais do tucano, faz um balanço da gestão. "Entendo e respeito o sentimento de quem desaprova minha saída da prefeitura. Confesso: foi uma decisão muito difícil. Mas tenho que dizer aqui: é fundamental que o governo e a prefeitura estejam alinhados", diz, no video. Ele ainda afirma que "a sede do governo de São Paulo fica dentro da cidade de São Paulo".

Doria diz, na peça de marketing, que criou 42 mil vagas em creche. Na verdade, segundo dados oficiais, foram criadas 27,5 mil vagas e houve a assinatura de convênio para criação de mais cerca de 14 mil  --o prazo estipulado para isso é de dois meses. O tucano descumpriu promessa de criar 65 mil vagas até março deste ano. 

O ex-prefeito também diz ter inaugurado o hospital de Parelheiros, no extremo sul da capital. No entanto, apenas o pronto-atendimento da unidade, cujas obras foram iniciadas na gestão anterior, foi de fato entregue para a população. 

Após a apresentação do vídeo, ao ser questionado pela Folha sobre o número de vagas em creche, ele disse que o repórter gostaria que ele tivesse criado menos vagas. Também afirmou que, desde o início, foi divulgado que o hospital teria inauguração em partes. Em seguida, o tucano acusou outro jornalista de exaltar a gestão de Fernando Haddad (PT), após ouvir questionamento similar sobre o tema. 

Sobre o fato de criticar jornalistas, diz que não "fica disfarçando os sentimentos". "É bom que pelo menos uma parte da mídia brasileira faça um pouco da reavaliação e tenha consciência de que também pode errar", disse. 

O evento foi lotado por aliados, como vereadores tucanos, o presidente da Câmara, Milton Leite (DEM), e o presidente da Assembleia Legislativa, Cauê Macris (PSDB). O novo prefeito, Bruno Covas, também participou, ao lado do filho. Todos aplaudiram Doria ao fim do vídeo.

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