Descrição de chapéu febre amarela saúde

Vacina da febre amarela vem de misterioso da África infectado em 1927

Vírus extraído do ganês Asibi é a base da imunização, hoje estendida a todo o país

Asibi, paciente a partir do qual a vacina da febre amarela foi feita
Asibi, paciente a partir do qual a vacina da febre amarela foi feita - Acervo Rockefeller Archive Center
Angela Pinho
São Paulo

Seu sangue doente já salvou milhares ou, talvez, milhões de vidas nas últimas oito décadas. Ainda assim, muito pouco se sabe sobre ele: um nome, uma localidade, uma data de nascimento aproximada e uma única declaração já registrada por escrito.

Chamava-se Asibi, morava na então Costa do Ouro, atual Gana, e, em 1927, tinha 28 anos. Desde 1937, todas as doses de vacina contra febre amarela fabricadas no Brasil —e a maior parte das produzidas no exterior— são derivadas do vírus que o infectou.

Sua importância para a ciência é proporcional ao desconhecimento sobre a sua participação na história —que ganha um novo capítulo com a decisão do Ministério da Saúde de estender a imunização a todo o país, com prazo até abril de 2019, após o registro de 1.127 casos da doença em nove meses.

O ENCONTRO

O encontro de Asibi com a ciência se deu em 30 de junho de 1927. Naquele dia, ele foi visto pelo especialista da Fundação Rockefeller Alexander Mahaffy. O cientista integrava a unidade que a organização americana havia instalado no oeste da África para pesquisar doenças tropicais.

Estudar a região, à época conhecida como “túmulo do homem branco”, era vital para poder entender vírus que também faziam vítimas no mundo desenvolvido. 

Cidades dos Estados Unidos como Filadélfia, Nova Orleans e Nova York eram algumas das que haviam enfrentado epidemias de febre amarela até então.

À época em que Asibi foi encontrado, sabia-se que a doença era transmitida por insetos e supunha-se que macacos também fossem suscetíveis. Por isso, animais foram transportados de outra colônia britânica, a Índia. Faltava isolar o vírus.

A oportunidade surgiu naquele ano de 1927, quando surgiu a informação de pessoas infectadas no vilarejo de Kpeve, no norte do atual Gana. Lá estava Asibi. Segundo as memórias de sir Percy Selwyn Selwyn-Clarke, do serviço médico colonial britânico, seu sobrenome era Dagomba, nome do grupo étnico que habita a região ainda hoje. 

No momento do encontro, relatou o médico, o africano usava fitas militares britânicas afixadas em vestes islâmicas —possivelmente, havia lutado pelo então império na Primeira Guerra Mundial.

Seus dados clínicos foram anotados por Mahaffy: com “cerca de 28 anos de idade”, Asibi estava com 39º C de febre e havia começado a sentir alguns dos primeiros sintomas 33 horas antes. 

Uma amostra de seu sangue foi coletada, enviada para o laboratório de Acra, hoje a capital de Gana, e depois inoculada em macaco rhesus.

Em 4 de julho, o animal começou a ter febre. Um dia depois, morreu. A autópsia confirmou lesões similares às da febre amarela. Material retirado do sangue do primata foi injetado em outros macacos, em uma série de experimentos que deu origem à vacina que conhecemos atualmente.

Embora o final tenha sido feliz, o percurso foi trágico.

A PRODUÇÃO DA VACINA

Nos cinco anos após o isolamento do vírus de Asibi, 32 profissionais de laboratório foram infectados por febre amarela, e cinco morreram.

O africano sobreviveu e batizou a cepa que circulou em diversos laboratórios do mundo até que a vacina fosse desenvolvida, em 1937, a partir não de tecido de macaco, mas de ovos de galinha.

A descoberta deu ao pesquisador sul-africano Max Theiler o Prêmio Nobel anos depois. A partir da passagem do vírus por diversos animais, ele reduziu a força da infecção e, assim, obteve a resposta esperada: a vacina gera anticorpos sem provocar a doença.

Asibi também teve um pequeno reconhecimento pelo feito em 1943, quando a Fundação Rockefeller divulgou a história em seu relatório anual. O New York Times repercutiu: “O sangue de um homem negro e doente da África foi uma bênção para a espécie humana”, dizia o artigo.

Já a reação do próprio Asibi foi mais comedida, como mostram outros registros da imprensa à época. Ele soube o que havia sido feito com seu sangue pelo próprio cientista que o contatou.

Foi em 1944, quando Mahaffy saiu em busca do antigo paciente para agradecer. 

Asibi ainda estava em Kpeve, havia se curado da febre amarela, mas tinha outros problemas de saúde —não especificados pelo jornal que registrou o encontro. 

De acordo com a notícia, assim reagiu o africano: “Manteve-se impassível e disse ‘se eu sou homem famoso como você diz, talvez você possa me dar algo para essa doença’.”

Mahaffy, então, fez articulações com o governo local para que Asibi recebesse uma pensão vitalícia. 

Não há informações sobre o valor, mas, em 1961, o tema voltou a aparecer no relato de Selwyn-Clarke. O médico do serviço colonial disse ter reencontrado Asibi e afirmou que o africano havia pedido um aumento.

Não se sabe o que aconteceu com sua vida depois. Já o vírus extraído de seu sangue, atenuado após mais de 200 culturas em animais, ainda hoje é usado para produzir todas as doses de vacina fabricadas contra a doença.

Desde 1937, só Bio-Manguinhos, maior produtor mundial, já fez com a cepa asibi quase 1 bilhão de doses da imunização, segundo dados do período recente somados aos elencados em estudo de Akira Homma, assessor científico sênior do laboratório.

ACASO

Procurada, a instituição afirma tratar-se de mero acaso o uso dessa cepa. Diretor do Instituto Evandro Chagas e um dos maiores especialistas do mundo no tema, Pedro Vasconcelos concorda, de certa forma. 
“Não sei o que se passava na cabeça de Max Theiler, mas talvez ele tenha pensado que, pelo fato de o paciente ter sobrevivido, o vírus era mais atenuado —o que não era verdade. Originalmente, era fortíssimo”, diz.

O que não é exatamente acaso é o fato de a vacina ainda usar praticamente a mesma tecnologia de oito décadas atrás, a de vírus vivo. 

Por ter essa característica, ela causa efeitos colaterais que, embora raríssimos, podem ser graves —uma em um milhão de pessoas desenvolve a doença após receber a imunização.

Com dose a R$ 3, estudos de novas tecnologias esbarram, contudo, na falta de recursos. “Como a vacina é muito barata e dá ótima resposta imune, não há interesse da indústria em gastar com pesquisa”, diz Vasconcelos. Essa, porém, já é outra história.

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