Descrição de chapéu tragédia dos sem-teto

Elite dos bombeiros, 'cascas de barata' usam a força em incêndios de SP

Grupo foi montado para atuar em casos como de fogo em invasões de sem-teto

Equipe de elite dos bombeiros que atuou no incêndio no largo do Paissandu
Equipe de elite dos bombeiros que atuou no incêndio no largo do Paissandu - Avener Prado/Folhapress
Rogério Pagnan
São Paulo

Os registros históricos talvez nunca venham a reconhecer que entre os bombeiros que lideraram o combate ao incêndio num prédio do largo do Paissandu, no centro de SP, estavam os “cascas de barata”. Mas eles estavam lá.

“Cascas” é o apelido do grupo especial dos bombeiros que tem, entre outras especialidades, a de atuar em edifícios invadidos por sem-teto e de lidar com situações que outros teriam dificuldades —como enfrentar (no braço) os invasores para apagar chamas.

O apelido faz referência ao tamanho da resistência desses homens que, brincam os colegas, seriam capazes de suportar até mesmo os efeitos de uma bomba atômica. Se houvesse uma explosão, sairiam ilesos do cogumelo de fogo.

O incêndio do último dia 1º fez aumentar essa fama entre a tropa, porque uma dessas equipes estava tão próxima ao prédio que desabou que, por minutos, os homens foram considerados mortos pelo comando da Polícia Militar.

No estado de São Paulo, os bombeiros são ligados à PM.

O comandante-geral da corporação, o coronel Marcelo Vieira Salles, contou à Folha que estava a caminho do local do incêndio quando recebeu a informação da possível morte de moradores e, também, de seis bombeiros.

Pouco antes de chegar ao local, o oficial —cujo pai também trabalhou por anos nos Bombeiros— foi avisado de que todos tinham conseguido escapar. “Há até uma imagem de TV que mostra eles correndo”, disse o comandante.

 

Essa equipe, liderada pelo sargento Benedito Amâncio Nascimento, 48, foi a primeira de ataque ao incêndio a chegar ao local e trabalhava no resfriamento de prédios. 

 

“Nós estávamos debaixo do prédio. Ele caiu praticamente na cabeça da gente. Foi só o tempo de a gente correr”, disse o cabo Denny Ricardo Faggian Telis, 39, um dos membros da equipe especial.

Apesar do susto, todos os bombeiros dessa equipe saíram sem nenhum arranhão e seguiram trabalhando em todos os dias de rescaldo. A reportagem falou com a equipe no local dos escombros, no intervalo de descanso deles.

O surgimento dos “cascas”, segundo bombeiros ouvidos pela Folha, coincide com a expansão de prédios invadidos por sem-teto, há cerca de cinco anos, em especial na região central, assim como era o edifício Wilton Paes de Almeida.

O prédio que desabou era invadido por famílias ligadas ao LMD (Luta por Moradia Digna) e MLSM (Movimento Social de Luta por Moradia). Levantamento dos bombeiros paulistas aponta 74 edifícios invadidos por famílias organizadas por movimentos.

O comando dos Bombeiros decidiu —após estudar o perfil das invasões— montar alguns grupos especiais para poder agir nas chamadas “favelas verticais”. Parte delas é controlada por esses grupos organizados, que chegam a enfrentar os bombeiros para impedir o acesso deles.

“Às vezes o bombeiro vai querer entrar [nos prédios invadidos], o portão fechado. Trancado. O porteiro não abre. Aí, a gente diz: ‘não vai abrir? Nós vamos abrir’”, disse o capitão Robson Mitsuo, 41.

“Existem muitas coisas dentro dessas organizações. [...]Eles se autoprotegem”, afirmou o oficial dos bombeiros.


Raio-x dos bombeiros

9.300
é o total de bombeiros no estado de SP, que atendem 2.000 ocorrências diárias

1.300
já atuaram no desabamento do edifício do Paissandu, em revezamento

R$ 3.000
é o salário inicial deles

21
é o número de equipes “cascas de barata”, altamente especializados em ocorrências graves; cada equipe tem 6 pessoas


Uma das características dos “cascas” é o perfil dos homens. Além das especialidades que cada um precisaria ter para o trabalho de bombeiro (apagar fogo e salvamento), muitos deles são escolhidos por conseguir impor respeito. Alguns são grandes, fortes e destemidos, para conseguir enfrentar adversidades impensáveis para quem trabalha apenas para tentar salvar vidas.

Um exemplo de adversidade sofrida pelos bombeiros em locais com invasores ocorreu com o major Henguel Ricardo Pereira na noite do próprio dia 1º, quando, segundo o oficial, ele chegou com o carro dos bombeiros ao local e teve o vidro dianteiro do veículo trincado por uma pedra atirada. Quando o caminhão estava estacionado para participar do combate às chamas, uma pessoa foi surpreendida tentando furtar material do veículo dos bombeiros.

Outra dificuldade sofrida pelos bombeiros em outros dias, em várias regiões da cidade, é com a falta de água e de hidrantes para conseguir combater as chamas. Na madrugada do dia 1º, conforme a Folha revelou, faltou água.

A equipe do sargento Amâncio confirma tal problema.

“Havia um hidrante, na esquina, relativamente próximo do caminhão, mas estava fechado. Não tinha água”, disse o bombeiro Marco Antônio Marques dos Santos, 42.

As equipes dos “cascas” —oficialmente chamadas de Auto Bomba Tática— são formadas por seis homens cada uma, para dar uma “resposta mais robusta”. “Com seis bombeiros, o poder de argumentação fica maior. Mas é muito difícil fazer isso. Bem complicado”, disse o capitão sobre conseguir acessar alguns locais com prédios invadidos.

Em toda a capital, existem 21 grupos —cada um com perfil especial para atuar nas regiões que trabalham. Uma das equipes consideradas mais cascudas é aquela que atua na unidade instalada nos Campos Elíseos, na região central, responsável por quase todos os prédios invadidos no centro.

Não faz muito tempo que, segundo os bombeiros, essa equipe precisou intervir para salvar dois policiais militares que estavam sendo atacados na cracolândia após uma tentativa de deter suspeitos.

Os PMs tentavam realizar a prisão de suspeitos de roubo quando foram cercados por um grupo enfurecido. A equipe de “cascas” chegava ao quartel, ao lado da cracolândia, e entrou na briga.

“Aí, virou uma batalha campal. [Os bombeiros] Tomaram paulada na cabeça. Dois se machucaram. E são bombeiros grandes, com pedaço de pau, barra de ferro, e mesmo assim [os usuários de droga] não recuaram”, disse Mitsuo. “Dois bombeiros foram hospitalizados.”, disse ele.

Geralmente, os homens colocados nesses grupos permanecem juntos por anos —só são trocados quando, por exemplo, algum deles é promovido, se aposenta ou quando não se adaptam com o trabalho do grupamento.

Esse convívio de anos permite que as equipes funcionem de maneira mais harmônica no serviço e, fora dele, funcionem como famílias.  

As famílias da equipe do sargento Amâncio, por exemplo, se reúnem constantemente.

Os bombeiros dizem que suas mulheres e filhos se conhecem e mantêm os laços de amizade, assim com eles.

“Não nos consideramos especiais ou diferentes de ninguém. Somos apenas bombeiros”, afirmou Faggian.

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