Encanador perde tudo, monta casinha na rua e 'revitaliza' praça em SP

Baiano faz-tudo vive em barraco na Vila Olímpia com apoio de moradores locais

O morador de rua Ivan Carlos da Silva Lima, 44, em praça da Vila Olímpia, onde construiu sua moradia
O morador de rua Ivan Carlos da Silva Lima, 44, em praça da Vila Olímpia, onde construiu sua moradia - Eduardo Anizelli/ Folhapress
Ricardo Kotscho
São Paulo

Entre os 20 mil moradores de rua de São Paulo, o baiano Ivan Carlos da Silva Lima, 44, o popular Sassá, parece o mais feliz deles. Nada lhe falta, é o que diz o único morador do jardim da praça Edgard Leite, na confluência das avenidas Santo Amaro e Hélio Pellegrino, na Vila Olímpia, para onde se mudou em julho do ano passado.

Com o rádio a pilha quebrado e sem o hábito de ler jornal, Sassá só ficou sabendo da tragédia do incêndio e do desabamento de um prédio ocupado por sem-teto no último dia 1º no largo do Paissandu, no centro, pelos vizinhos que puxam conversa com ele.

Todos gostam dele porque o solitário morador cuida com zelo do jardim em volta da casinha que montou com madeiras e outros restos que encontrou no lixo.

Sassá nunca participou de uma invasão, embora já tenha sido convidado. “Já me chamaram, mas não concordo. Gosto muito da minha privacidade aqui”, explica, enquanto faz carinho no galo Zeca, sua única companhia no bem cuidado cafofo enfeitado com tranqueiras que pega na rua.

Diz levar a vida que pediu a Deus, sem ninguém para perturbá-lo e sem ser incomodado por fiscais da prefeitura. 

Só se chateia quando outros moradores de rua roubam suas coisas, como aconteceu com as mudas de girassol que cultivava com esmero.

Dorme de dia, “porque é mais seguro”, e trabalha à noite, puxando o carrinho que ele mesmo construiu, o seu ganha pão. Vende o que acha na rua a um ferro-velho no Brooklin.

Para comer, basta atravessar a avenida Santo Amaro e ir até a lanchonete New Point, onde fez amizade com o dono e almoça e janta de graça.

Roupa ele ganha dos vizinhos. Como bom baiano, vive feito Iemanjá, de oferendas. “Tô bem, tô tranquilo, tenho tudo o que preciso pra viver. Pra que vou querer mais?”

Até encontrar este paraíso particular, Sassá penou bastante. Criado na roça em Ipirá, cidade próxima a Feira de Santana, só estudou até a quarta série e, com 14 anos, mudou-se para São Paulo atrás do irmão mais velho, hoje pedreiro.

Naquela viagem de 32 horas de ônibus, sonhou ser radialista na cidade grande, de tanto que ouvia a rádio Cinzal de Conceição do Coité, município vizinho a Ipirá.

Mas seu primeiro trabalho foi vender cafezinho em garrafa térmica em uma parada final do ônibus. Depois disso, fez um pouco de tudo, seguindo a natural carreira do retirante sem estudo: ajudante de pedreiro, pedreiro e encanador, até montar uma barraquinha de doces e salgados na gigante favela de Paraisópolis, onde foi morar em seguida.

Bom de papo e apaixonado por forró, Sassá teve muitas namoradas e sete filhos, que hoje têm de 14 a 23 anos, cada um com uma mulher.

Quando foi visitar um desses filhos em Campinas, que morava com a mãe, a mulher com quem vivia em São Paulo vendeu o barraco dele na favela e sumiu com todo o dinheiro que recebeu numa indenização por acidente de trabalho, numa empresa onde era aprendiz de operador de máquinas, seu último emprego.

Isso já faz dez anos e, desde então, virou morador de rua.

Sua primeira morada na rua foi no largo da Batata, em Pinheiros, e depois zanzou por vários lugares até montar sua primeira casinha num canteiro da avenida Santo Amaro, perto de onde vive hoje.

“Tive que sair de lá porque a televisão veio fazer uma reportagem comigo e não tive mais sossego. Me reconheceram, vieram me perguntar quanto ganhei pela reportagem, muita inveja, sabe?”

Sassá já estava de olho na praça Edgard Leite, suja e abandonada, em frente à rotisserie Fellice e Maria, de Massimo Ferrari, celebrado restauranteur de São Paulo. Sua primeira providência: tirar o mato e limpar a praça.

No dia em que a reportagem da Folha foi lá, o morador de rua estava lendo Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade, que encontrou no lixo da praça. 

Sassá conta que já leu 53 livros desde que foi morar na rua. Entre eles, A Arte de Fazer Acontecer, A Peste, de Camus, e Nada a Perder, de Edir Macedo, o que mais gostou.

“Sou cristão, mas não tenho santo de devoção, não acredito em milagre, não vou em igreja. Faço só uma oração antes de dormir e sempre agradeço a Deus por me ajudar nesta vida”, afirma.

Jeitoso na carpintaria, ele também faz casinhas para cachorro, sob encomenda. No momento, está terminando um carrinho para a cachorra de uma vizinha que foi atropelada e quebrou as patas. 

“Não ponho preço. Pergunto quanto você acha que vale, e me pagam R$ 30, R$ 40. Tá bom”, afirma.

Sem ter chefe nem patrão, Sassá estabeleceu que segunda-feira é seu dia de folga.

“Leio um pouco, fico só descansando. Quando tenho preguiça, não faço nada. Só sou empregado de mim mesmo. Legal é dar vida ao que não tem mais vida, essas coisas que o pessoal joga fora.”

Tudo ele dá um jeito de reaproveitar sem gastar nada. “Até hoje só gastei 50 centavos na construção da casa para comprar pregos...” 

Na praça, ele também faz as suas próprias leis “para manter o respeito”. Por exemplo: crianças e mulheres não podem entrar no seu quarto, sempre bem arrumado. “Só namoro nas quebradas, aqui não”, afirma.

Começo de noite, hora de puxar o carrinho para o trabalho, a única luz do barraco vem dos enormes postes com lâmpadas de LED plantados pela prefeitura entre as velhas seringueiras que arrodeiam o mundinho de Sassá.

Se lhe perguntam se é feliz assim, responde com uma palavra só: “Sou!”.

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