Entenda passo a passo o 'CSI' para identificação de corpos de tragédia em SP

Reconhecimento vai desde entrevista com famílias até exame de DNA

Thiago Amâncio
São Paulo

Uma sala ampla, toda branca, tem uma mesa retangular no centro. Em uma caixa azul, a inscrição "crânios 2018". Em outra, de vidro, dois crânios expostos. Sobre uma mesa, ossos de um feto.

Há tabelas de comparação que mostram a possível altura de um indivíduo de acordo com o porte do osso. Um transferidor, que mede ângulos, como os que se usa em aulas de geometria na escola, pode indicar se os restos mortais são de homem ou de mulher.

Na mesa central, sob um pano, estão ossos de vítimas do incêndio do Wilton Paes de Almeida, edifício que desabou no centro de São Paulo no dia 1º de maio (a reportagem não pode vê-las).

O local em questão é a sala de exames do Núcleo de Antropologia do Instituto Médico-Legal de SP, onde são feitas análises que ajudam a identificar os restos mortais (ou "remanescentes", no jargão da área) das vítimas do incêndio —dois já foram identificados, Francisco Lemos Dantas e Ricardo Galvão.

O núcleo faz parte de uma extensa cadeia que trabalha em uma espécie de "CSI São Paulo", cujo processo lembra o da série de TV americana sobre cientistas forenses.

Tudo começa quando, nas escavações dos escombros do prédio, os bombeiros suspeitam que estejam próximos de alguma vítima ou quando um cão farejador sinaliza que pode haver um corpo por perto.

Suspende-se o uso de maquinário pesado, como escavadeiras (cessando por momentos a constante nuvem de poeira que paira sobre a área). Começa aí uma busca manual, explica o tenente André Elias, dos Bombeiros.

Se acham algum corpo, fragmentos ou outros indícios, os bombeiros convocam peritos da Polícia Científica, que isolam e fotografam a área e garantem a integridade dos fragmentos antes que os bombeiros (com luvas ou pinça) coloquem-nos em sacos plásticos lacrados com uma cola.

Estacionada no Paissandu há uma caminhonete branca modelo S10, ano 2015, cuja carroceria foi adaptada em um baú, como o de caminhões, onde há quatro gavetas para cadáveres e uma caixa com água para lavar as mãos —o motorista pega uma luva só para abrir a caçamba e mostrá-la à reportagem, para evitar qualquer contaminação.

Os corpos são levados ao IML (Instituto Médico-Legal), a 4 km dali. Na chegada, passam por um "exame de recebimento", onde o estado dos fragmentos é analisado.

Se estão mais preservados, a identificação é simples: pode haver reconhecimento facial ou exame papiloscópico —de impressões digitais, usado no caso de Ricardo Galvão.

Se não, como os fragmentos que chegaram depois, passam por uma limpeza, que envolve até a fervura dos ossos. 

Aí são levados ao Núcleo de Antropologia. Este grupo (onde trabalham dois médicos legistas, dois auxiliares de necrópsia e um auxiliar de papiloscopia) entrevista as famílias, a fim de obter informações que possam identificar os desaparecidos: desde que roupas e adornos usavam da última vez que foram vistos até características físicas, como tatuagens e próteses.

Um dos aspectos mais úteis é a identificação de arcadas dentárias, feita pelo Núcleo de Odontologia Legal, onde trabalham seis odontolegistas (dentistas com especializados em perícia criminal). Radiografias da arcada guardadas por dentistas de vítimas costumam ser decisivas. 

Se a comparação dentária não for possível, o Núcleo de Antropologia descobre o sexo e a idade da vítima a partir do esqueleto. Ossos masculinos são mais ásperos, já que são desgastados por músculos mais rígidos, como costumam ser os de homens. Os femininos, mais lisos. A idade pode ser estimada pelo tamanho e estado de calcificação dos ossos.

Quem explica o processo é Paulo Tieppo, chefe do núcleo há cinco anos. Em sua mesa, há um esqueleto e um crânio de brinquedo —ele diz que não sente o forte cheiro de produtos químicos notados pela reportagem. Tieppo afirma não ter dificuldades adicionais no trabalho atual: dos cerca de 140 corpos analisados no ano passado, 40 estavam carbonizados.

Pode haver mais de uma vítima no mesmo conjunto de restos mortais. Uma das remessas de fragmentos do incêndio tinha um osso de adulto e dois ossos de duas crianças diferentes —sabe-se disso porque são dois fêmures da perna direita.

Se esses exames não são suficientes para identificar a vítima, os fragmentos vão para o Instituto de Criminalística, para passar por análise de DNA, no Núcleo de Biologia e Bioquímica. É preciso descontaminar a amostra —retirar fungos, bactérias e outros elementos vivos—, extrair o material biológico e amplificá-lo, para que haja matéria suficiente para análise. 

Esse exame mostra se o fragmento é de homem ou mulher (de acordo com os cromossomos), mas não identifica a idade da vítima. Com ele, pode-se também comparar com o DNA de algum familiar e, assim, ter certeza da identidade da vítima.

Identificados, os fragmentos são entregues em um recipiente lacrado, seja uma urna ou um caixão, a critério das famílias das vítimas.


Como funciona a identificação de corpos

1. Cachorros farejadores indicam possibilidade de haver vítimas em determinada área dos escombros

2. Bombeiros interrompem o uso de máquinas pesadas e fazem buscas manuais

3. Quando encontram restos mortais, acionam a Polícia Científica

4. Perícia isola a área, fotografa a cena e garante que os restos mortais não sejam danificados

5. Bombeiros coletam o material e o guardam em sacos plásticos

6. Carro adaptado da Polícia Científica leva os fragmentos ao IML

7. Exame indica quais partes do corpo podem ser lavadas, como ossos

8. Depois de limpas, partes mais preservadas passam por exame de impressão digital

9. Fragmentos mais comprometidos vão para o Núcleo de Antropologia do IML, que analisa o sexo e a idade da vítima a partir de exame em ossos e pelos

10. Núcleo entrevista famílias para descobrir características dos desaparecidos que possam ajudar a identificá-los

11. Se os testes já feitos não forem conclusivos, fragmentos passam por exame de DNA na Polícia Científica

12. Depois de identificados, corpos são liberados em caixões fechados para as famílias

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