Estado do Rio tem 40º policial militar assassinado neste ano

Operação realizada após o crime deixou ao menos 4 mortos em Cidade de Deus

Lucas Vettorazzo Bernardo Tabak
Rio de Janeiro

​O Rio atingiu a marca de 40 policiais militares assassinados neste ano, quando, na manhã desta quinta-feira (3), o capitão Stefan Cruz Contreiras, 36, foi morto em uma tentativa de assalto no bairro Pechincha, na zona oeste da capital do estado. 

O capitão, que tinha 16 anos de corporação e atuava no batalhão de Jacarepaguá, estava de folga. Ele trafegava de moto por uma estrada do bairro quando foi abordado por outros dois homens, também em uma motocicleta. O policial reagiu e houve troca de tiros. Contreiras foi ferido e morreu no local. Segundo nota divulgada pela PM, o oficial deixa esposa.

​Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado.

Os últimos dias têm sido marcados pelas mortes de PMs. Na última quarta-feira (2), um PM também foi morto, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O sargento Luiz Alves de Carvalho foi encontrado morto em seu carro em uma avenida do bairro de Imbariê. Câmeras flagraram um homem fazendo disparos contra o carro do policial no meio da avenida. 

No sábado (28), dois policiais foram mortos. O sargento Carlos Eduardo Gomes Cardoso foi baleado e não sobreviveu em confronto na favela do Bateau Mouche, na praça Seca, zona oeste da capital, onde milícia e tráfico de drogas travam uma guerra por territórios. 

Já o cabo Antônio Carlos Oliveira de Moura foi sequestrado e morto por criminosos em Iguaba, cidade da região dos Lagos. O carro do policial foi encontrado incendiado. 

Pessoas abandonam carros e tentam se proteger durante tiroteio na Linha Amarela
Pessoas abandonam carros e tentam se proteger durante tiroteio na Linha Amarela - Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo/Folhapress

A morte do capitão da PM nesta quinta levou a uma incursão policial na Cidade de Deus, que resultou ​em tiroteio e levou ao fechamento da Linha Amarela. A ação teve ao menos quatro pessoas mortas e três feridas, sendo uma delas um policial do Bope (Batalhão de Operações Especiais). 

Os números de vítimas ainda são divergentes entre a PM e a Secretaria Municipal de Saúde. O primeiro contabiliza quatro mortos, enquanto o segundo afirma ter recebido cinco pessoas já sem vida ao Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca.

A ação foi realizada após indicações de que os responsáveis pela morte do capitão da PM teriam fugido para a comunidade. Até o começo da noite, a Polícia Militar informou que oito criminosos foram presos e dois fuzis e quatro pistolas foram apreendidos, além de quantidade de drogas ainda não contabilizada. 

ESTATÍSTICAS  

A estatística de morte de policiais é uma das formas de medir o nível da violência do Rio que, a despeito da intervenção federal na segurança pública, desde fevereiro, não tem registrado queda significativa nos indicadores de criminalidade. 

Em março, primeiro mês completo com atuação da intervenção, quatro PMs foram mortos em serviço, três a mais que o registrado um ano antes. Os números são do ISP (Instituto de Segurança Pública), órgão ligado ao governo do estado. 

Já os homicídios dolosos, quando há intenção de matar, tiveram alta de 1% em março, frente a março de 2017, com 503 casos no mês, cinco a mais que em igual período do ano passado. As mortes decorrentes de intervenção policial, no entanto, caíram 11%, com 109 casos no período.

Houve alta de 24% nas tentativas de homicídios, com 557 casos no período, assim como aumento de 40% nas lesões corporais dolosas, com 5.400 casos. O Rio teve dez casos a menos de latrocínios em março deste ano, totalizando 18 contra 28 de março de 2017. 

Seis tipos de roubos computados pelo instituto tiveram alta nas ocorrências. Roubos de veículos subiram 7% para 5.300 em março. Já o roubo de telefones celulares tiveram alta de 13%, com 2.100 casos no período. 

O roubo de cargas também aumentou Foram 781 casos em março de 2017 e passaram a 917 em março deste ano —alta de 17% no período. 

Quando da divulgação dos dados, o ISP lembrou que de janeiro a março de 2017 o Rio vivenciou uma greve da Polícia Civil, o que pode ter comprometido o registro de crimes e distorcido as comparações devido à possíveis subnotificações.  

Indicadores relacionados a atividade policial tiveram queda no período, como a apreensão de armas (queda de 12%) e cumprimento de mandados de prisão (-6%). Houve, por outro lado, aumento de apreensão de drogas, de 2%, e sensível melhora na recuperação de veículos (18%), com 3.400 veículos recuperados.

INTERVENÇÃO FEDERAL

O estado do Rio está sob intervenção federal na segurança pública desde 16 de fevereiro. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB), com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto, que atua como chefe dos forças de segurança do Estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o Estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

Apesar de contar com o apoio da população, a intervenção ainda não obteve resultados significativos na melhora dos indicadores de violência urbana no estado. O assassinato da vereadora Marielle Franco, em março e ainda sem ninguém preso, e a chacina de cinco jovens em Maricá foram dois crimes de repercussão que ocorreram na vigência da intervenção.

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