Cidades de Santa Catarina travam guerra por título de mais fria do país

Em Urupema, Urubici e São Joaquim, na Serra Catarinense, menos é mais

Ivan Finotti
Santa Catarina

Era um belo domingo de outono aquele 10 de junho de 2018. Urubici (a 112 km de Florianópolis) amanhecera gelada como sempre e o secretário de Turismo da cidade, André Monsores, se preparava para comemorar seu sétimo aniversário de casamento com uma linguiça que ele mesmo embutiu e cervejas que fermentou em casa. Mas então seu telefone começou a apitar.

As redes sociais do secretário foram invadidas por mensagens revoltadas de seus concidadãos reclamando, veja só, da alta temperatura. 

 

Leia o WhastApp de Monsores: "4,9ºC para Urubici é uma piada. Esse cara é um babaca. Quando é que vai mudar isso?". Confira o Facebook de Monsores: "Está faltando o secretário tirar a bunda da cadeira e se mexer".

Esses desaforos podem não fazer sentido para a maioria dos brasileiros, mas fazem muito na região da Serra Catarinense, mais especificamente na batalha de geada e mídia que se instaurou nos últimos dez anos entre as cidades de São Joaquim, Urubici e Urupema.

Muito diferentes em tamanho (26 mil, 11 mil e 2.500 habitantes, respectivamente) e distantes entre 50 e 75 km entre si, têm disputado o posto de cidade mais fria do Brasil. 

A guerra, que promete esquentar com o início do inverno nesta quinta (21) às 7h07, é travada em duas frentes: a instalação (onerosa) de estações meteorológicas na tentativa de registro de temperaturas mais baixas e o envio (gratuito) de fotografias e vídeos gelados para jornais e televisões de todo o Brasil. A vitória: turistas. O espólio inconfessável: o orgulho de aparecer na imprensa à frente das vizinhas. Pergunte a qualquer morador e ele dirá que você está na cidade mais fria do Brasil.

O principal alvo das bolas de neve atiradas pelas cidades serranas se chama Leandro Puchalski (é ele o "babaca" do WhatsApp citado acima), o meteorologista da NSC, a transmissora da Rede Globo em Santa Catarina. 

Ele apresenta a previsão do tempo em dois horários diários na emissora, além de fornecer dados para outros jornais e rádios do conglomerado. Também tem um blog e mantém coluna no Diário Catarinense.
Sua influência no humor serrano, portanto, é imensa. E foi ele o responsável por estragar, indiretamente, é claro, o aniversário de casamento do secretário de Turismo de Urubici. Naquele fim de semana, ele publicou uma reportagem anunciando que "pelo menos 25 cidades" do estado haviam amanhecido abaixo de zero. 

Não apenas Urupema estava em primeiro lugar, com 4,9º C negativos e São Joaquim em décimo (-1,9º C), como Urubici estava na 52º posição, com 4,9º C ACIMA de zero. Os dados são do Ciram, centro de informações de Santa Catarina.

"Sei que mexemos com as expectativas das pessoas. No inverno, recebo muitas reclamações e maioria vem mesmo de Urubici", diz ​Puchalski, em sua mesa na emissora em Florianópolis. "Quando chega o verão, o pessoal da praia é que reclama", diverte-se ele, já acostumado a bloquear insatisfeitos histéricos no Twitter.

O problema de Urubici é que eles tinham uma estação no morro da Igreja. Há alguns anos, a cidade de Bom Jardim da Serra reclamou que o ponto do morro onde ficava a estação estava em seu território, apesar de só se chegar lá via Urubici. Conseguiram. 

"Por anos, tive que dar a previsão dizendo na TV 'morro da Igreja, entre Bom Jardim e Urubici'. Hoje, eles têm uma estação que parece não estar num local para registrar o frio", avalia o meteorologista.
Mas qual é a mais a fria, Puchalski? "Não dá para saber. É o ponto mais frio? Ou a média anual? A parte habitada ou o morro? Cada cidade vai exibir o critério que lhe convém. A briga lá é tão grande que Urupema, com menos de 3.000 habitantes, possui três estações meteorológicas oficiais! Onde já se viu isso?"

Urupema vem despontando com brilho na guerra fria da Serra Catarinense. É sua a marca de menor temperatura deste ano no Brasil: -6,6º C. 

É seu o endereço esperto do site: cidademaisfriadobrasil.com.br. É ali que fica o impressionante ponto turístico da cachoeira que congela no morro das Torres (de Urubici vê-se a Pedra Furada, é preciso dizer). É onde acontece o sincelo, belo fenômeno que resulta do congelamento do nevoeiro em suspensão. Ali também, em junho, acontece um encontro natural no papagaio-charão, que grita e come pinhão.

Por fim, Urupema tem Marleno Muniz Farias, assessor de imprensa da prefeitura recém-promovido a assessor de comunicação --por produzir conteúdo e não só responder a demandas de jornalistas. 
O conteúdo que produz: todo dia acorda às 4h e sai pela cidade e arredores fotografando o frio. "Mando umas 50 fotos e vídeos por semana para um mailing de jornais e TVs, como Globo, G1, NSC, Band, RecordNews. Aliás, pode me passar o email da fotografia da Folha?", pergunta Marleno.

Urupema, entretanto, tem apenas dois pequenos hotéis e sete pousadas, com 250 leitos, contra 185 pousadas (3.000 leitos) e 50 restaurantes de Urubici, de longe a mais bem equipada das três para receber turistas, fora o ecoturismo e demais belezas da região. Já São Joaquim, com 25 opções de hospedagem e nenhuma opção para almoçar após as 15h, é a mais famosa da região.

Há anos o município aparece no Jornal Nacional, com suas árvores congeladas na praça principal --fruto de mangueiras amarradas nos caules que despejam água nos ramos. Há 18 anos na cidade, o português Nazário dos Santos escolheu a região para cultivar peras-rocha, que aqui chamamos de peras portuguesas, ora pois, porque precisava de 450 horas abaixo de 7º C no inverno.

"O ideal são 700 horas para a pera-rocha. E São Joaquim apresenta 1.200 horas. Portanto, a cidade mais fria é São Joaquim. A suíça brasileira", derrete-se Nazário, que há alguns meses abriu o restaurante Pão Saloio, onde só serve bacalhau gadus morhua imperial com azeitonas portuguesas, é claro.

De volta a Urubici, o secretário André Monsores exibe um papel que parece ser a esperança final do urubicienses: um datalogger CR310 Campbell de R$ 10.750, mais R$ 3.968 pela "instalação e reconfiguração da estação de telemetria Ethernet, integrando com o banco de dados da Ciram".

A estação meteorológica instalada no ponto mais frio de Urubici não está enviando dados para a central estadual, brrrrr. "Os lojistas e a prefeitura se cotizaram para pagar por esse transmissor" e resolver o problema, anuncia Monsores. 

"Mas o que quero finalizar dizendo é o seguinte: as cidades devem trabalhar juntas. A região é linda e não por que brigarmos entre nós mesmos." Será um inverno paz e amor na Serra Catarinense.

Erramos: o texto foi alterado

Por erro da Redação, na reportagem a palavra “sincelo” (gelo formado por meio do resultado do congelamento da água da atmosfera e que fica em beirais de telhados ou em árvores) foi incorretamente substituída por “singelo”. O texto já foi corrigido

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.