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Comida de rua e lixo põem em xeque eficácia da lei dos pombos em SP

Projeto sancionado por Covas prevê multa de R$ 200 por alimentar bichos

Jéssica Lima
São Paulo

A lei que prevê proibir e multar quem alimentar pombos em ruas, praças e calçadas da cidade de São Paulo terá eficácia duvidosa.

Sancionada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), a medida vai funcionar primeiro com uma advertência. Depois, se a pessoa for novamente flagrada alimentando os bichos, terá multa de R$ 200. Embora já esteja em vigor, na prática a punição ainda depende de regulamentação —a ser feita nos próximos 90 dias. 

Pombos no parque da Aclimação, em SP - Apu Gomes/Folhapress

A reportagem percorreu praças na capital e, na maioria dos casos, o que atraía os pombos era o lixo dentro e fora de lixeiras, locais que comercializavam comida nas praças.

Munir Akar Ayub, professor de infectologia da Faculdade de Medicina da Universidade do ABC, afirma que inalar os fungos contidos nas fezes secas do animal pode provocar doenças pulmonares e até meningite.

Ele duvida que a lei terá efeito. “Pode não ter quem dê a comida diretamente, mas tem lixo e comida no chão. As pessoas não têm consciência.”

No largo Santa Cecília (centro), a cozinheira Izolina Muzzio, 83, estava desolada com a notícia. Há 17 anos, ela, que mora na rua Canuto do Val, vai todos os dias à praça na parte da manhã e da tarde para alimentar os bichos. “Trago um quilo e meio de arroz e jogo para eles. São minhas companhias depois que meu filho morreu.”

Na praça Silvio Romero (zona leste), a costureira Elizabete dos Anjos, 55, comemorou a iniciativa, principalmente depois de contrair uma infecção transmitida pelas fezes dos pombos, há seis anos. “Eu trabalhava em uma empresa que se mudou e o novo prédio não foi devidamente higienizado antes. Comecei sentindo fortes dores na cabeça e nos olhos, e o diagnóstico demorou quatro meses. Felizmente não fiquei com nenhuma sequela.”

O texto do vereador Gilberto Natalini (PV) também prevê penalidade para quem comercializar a ração nesses mesmos locais ou manter abrigo para os bichos. Agora o prefeito tem 90 dias para regulamentar as regras de como vai funcionar a fiscalização.

Natalini sugere que seja feita, em primeiro lugar, uma campanha de conscientização, como foi feita com a dengue. “Precisamos reforçar os riscos que os pombos representam, podendo transmitir até 70 doenças”, disse.

Ele acha também que a fiscalização poderia ser feita por agentes da zoonose, agentes comunitários da saúde, fiscais das subprefeituras ou mesmo pela guarda municipal.

Sobre os locais que comercializam comida, ele diz que “os donos são responsáveis pela limpeza do local”. Se houver aglomeração das aves, afirma, eles estão “descumprindo a lei e alimentando os pombos”.

EDEMA

Em 2013, Cátia Seabra, 48, repórter especial da Folha, teve edema cerebral e pulmonar provocado pela inalação das fezes secas do pombo. “Sentia muito cansaço, que virou dor de cabeça, ânsia de vômito, fotofobia e enjoo”, contou.

Em agosto daquele ano, ela recebeu um diagnóstico errado de AVC e foi transferida às pressas de um hospital de Brasília para São Paulo, onde um tumor no cérebro foi diagnosticado.

Ela passou por uma cirurgia e, após a biópsia, recebeu a notícia de que estava com criptococose em paciente imunocompetente (quando não há deficiência imunológica). “Os médicos cogitaram que eu vivesse por três meses com dignidade”.

Cátia não sabe quando teve contato com as fezes secas dos pombos.

Em outubro, ela foi internada novamente ao sofrer ataques epilépticos a cada cinco segundos. O edema voltou mais violento, Cátia ficou em coma e fez a segunda cirurgia. Depois, houve a suspeita de que teria câncer no pulmão e, na biópsia, detectaram a criptococose novamente.

Na terceira cirurgia retiraram 45% de seu lóbulo pulmonar direito. “Os médicos cogitaram não me operar porque eu poderia morrer na cirurgia, ficar em estado vegetativo ou cega.”

Ela chegou a perder parte da visão, mas a recuperou quase totalmente. “Me diagnosticaram com câncer pela semelhança da imagem do edema com um tumor.”

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