Descrição de chapéu SUS, 30

Exame de vista remoto funciona no RS sob resistência de conselho

Para entidade, presença de médico é fundamental em todo o atendimento

Cláudia Collucci
Porto Alegre

É melhor assim ou assim?”, pergunta a oftalmologista Anelise Szortyka, apontando as letras que aparecem em uma tabela usada para avaliação ocular.

O paciente André Luiz de Souza responde à medida que as letras diminuem de tamanho. A médica vai anotando os resultados no computador.

Diante da queixa de André de “visão embaçada” e de dor de cabeça quando fica no computador, a médica recomenda pausas para descansar a visão. “A cada 30 minutos, dê uma descansada de dois minutos, olhando para longe”, diz.

O inusual da cena é Anelise estar próxima à região central de Porto Alegre enquanto Souza é examinado num consultório de uma clínica de família do bairro Restinga, a 20 km dali, com apoio da equipe de enfermagem.

Inaugurado há quase um ano, o Teleoftalmo é um serviço de diagnóstico ofertado pelo TelessaúdeRS, em parceria com o Hospital Moinhos de Vento, governo estadual e prefeituras do Rio Grande do Sul.

O projeto oferece exames oftalmológicos a distância, usando ferramentas da telemedicina.

Conta com oito consultórios (capital e interior gaúcho), cada um equipado com três câmeras, computadores e equipamentos que, além da aferição da acuidade visual, fazem medição da pressão ocular, exames de fundo de olho e refração ocular.

Juntos, eles têm conseguido reduzir a fila de espera por oftalmologistas. Das 14 mil pessoas que aguardavam, 5.000 já foram avaliadas pelo serviço. Cerca de dois terços (3.350) são pacientes do interior que amargavam meses de espera por exames na capital.

Para acessar o serviço, o médico da atenção primária entra na plataforma do Telessaúde e pede o exame, que é marcado pelo time do programa.

O laudo do exame é colocado na mesma plataforma e acessado pelo médico do posto. É ele que vai interpretar o resultado e prescrever óculos, por exemplo, ou encaminhar o paciente a uma consulta presencial com o oftalmologista. “O serviço não é uma consulta oftalmológica e sim um telediagnóstico. O médico do paciente é o que está na atenção primária”, afirma Roberto Umpierre, coordenador do Telessaúde.

O reforço dessas funções tem uma razão objetiva. O serviço de telediagnóstico enfrenta resistência das entidades médicas. No ano passado, o CFM (Conselho Federal de Medicina) emitiu nota dizendo que serviços de telemedicina podem ser realizados apenas com a participação direta de médicos nas duas pontas do atendimento.

À época, o CFM disse que tomaria “as medidas cabíveis para impedir irregularidades”. Segundo o secretário municipal da Saúde de Porto Alegre, Erno Harzheim, os esclarecimentos já foram prestados às entidades médicas. “O serviço é fundamental para aumentar a resolubilidade e melhorar o acesso da população aos serviços especializados de oftalmologia”, diz.

Cinco usuários ouvidos pela Folha aprovaram o serviço. “Parece coisa de filme”, disse Dorvideo Medeiros, 61, após ser examinado a distância pela oftalmologista Paula Cross.

Assim como ele, 30% dos pacientes procuram o Teleoftalmo para atualizar receita de óculos. “Faz tempo que a vista tava ruim e que eu esperava vaga”, contou Medeiros.

Casos mais complexos, como catarata, glaucoma e retinopatia diabética exigem consulta presencial, explica a oftamologista Aline Lutz de Araújo, responsável pelo serviço.

O Telessaúde oferece outros telediagnósticos, como exame pulmonar e de lesões da boca e da pele. No caso dos dois últimos, o médico da atenção primária tira as fotos e manda as imagens pela plataforma ou do próprio celular.

“Já diagnostiquei um câncer de pele com o recurso. Ajuda muito”, diz o médico de família Thiago Sousa Silva, que trabalha numa unidade de saúde com área total de 40 m² em uma região violenta no extremo sul de Porto Alegre.

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