No sufoco, Parada Gay de SP traz olhar sobre voto consciente e inclusão

Ato de caminhoneiros afetou planos e deixou turistas em dúvida sobre evento

Jovens de beijam durante a Parada Gay de 2017, na av. Paulista, região central de São Paulo
Jovens de beijam durante a Parada Gay de 2017, na av. Paulista, região central de São Paulo - Bruno Santos - 18.jun.17/ Folhapress
Paulo Saldaña
São Paulo

De olho nas eleições, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, considerada a maior do mundo, pode ser um pouco menor neste domingo (3), se comparada a anos anteriores. A paralisação dos caminhoneiros afetou o plano de muitos turistas. Mas, segundo os organizadores, vazia a Parada não estará.

Até a quarta-feira (30) ainda era dúvida a própria chegada a São Paulo dos 18 trios elétricos que conduzem o desfile e por onde devem passar Pablo Vittar, Preta Gil e April Carrión (do programa de TV RuPaul’s Drag Race), entre outras atrações. Veículos que saíram de outros estados acabaram presos nos bloqueios.

Mas deu tempo para deixar tudo pronto para este domingo, segundo a ONG que organiza o desfile. A Parada começa às 10h em frente ao vão livre do Masp e segue a partir das 12h pela avenida da Consolação. O último trio deve chegar às 18h à Consolação.

“Seria complicado se o movimento dos caminhoneiros durasse mais um pouco. Existe a possibilidade de ter menos gente do que no ano passado, mas, ainda assim, esperamos muita gente”, diz Nelson Matias Pereira, 51, do conselho de sócios fundadores da ONG Associação da Parada do Orgulho ​LGBT, que promove o evento na cidade de São Paulo.

A organização ainda teve que desmentir ao longo da semana falsos boatos nas redes sociais que indicavam o cancelamento da Parada.

A administradora mineira Laura Fraga, 28, já havia desistido da viagem na terça-feira (29). “A empresa de ônibus nem estava vendendo passagem, só consegui de última hora”, diz ela, que vive em Itajubá. É a terceira vez que ela comparece à Parada.

Os hotéis registraram cancelamento e queda na ocupação dos quartos. Em 2017, havia 90% de ocupação nesta época, o que recuou para 50% neste ano, como informou a prefeitura no meio da semana.

O curitibano Jair Caetano de Oliveira, 27, manteve a reserva do hotel confirmada duas semanas antes, mas também esperou até terça para comprar a passagem. Viajou de ônibus e chegou na manhã de quinta.

“Até segunda-feira pensei que não viria mais”, diz o servidor público. Esta é sua primeira experiência na Parada de São Paulo, depois de ter conhecido as celebrações de Lisboa, Zurique e Milão. “Sempre quis vir, mas sempre estive namorando. E pra Parada tem que estar solteiro”, brinca.

A organização estima que, no ano passado, 3 milhões de pessoas estiveram na Parada. Em 2012, quando a estimativa foi de 4 milhões de pessoas, pesquisa Datafolha aferiu a presença de cerca de 270 mil.

Segundo o instituto, 1,5 milhão de pessoas é a lotação máxima do trecho Paulista-Consolação, isso em um cálculo superestimado: com lotação de sete pessoas por metro quadrado, aperto semelhante ao enfrentando no metrô no horário de pico.

Pernambucano que vive em São Paulo há 11 anos, o chefe de cozinha Luis Ricardo Silva, 30, acredita que vai encontrar uma multidão na avenida Paulista, apesar dos reflexos do movimento dos transportadores. “Muita gente que desistiu de viajar ficou em São Paulo e vai na Parada”, diz.

O misto de celebração, festa e ato político sempre marcou a realização de paradas gays em todo mundo. 

O evento de São Paulo chega à sua 22ª edição também com toda essa carga.

A exemplo de 2010, as eleições voltam ao tema da Parada: “Poder para LGBTI+, Nosso Voto, Nossa Voz” (à sigla LGBT, de lésbicas, gay, bissexuais e transexuais, a ONG incluiu neste ano o I e o sinal + para representar o intersexo e outras identidades).

Nelson Matias Pereira diz que a ideia foi aproveitar o conturbado momento político e o perfil conservador do atual Congresso Nacional para falar sobre voto consciente.

“A função da parada é alertar a sociedade. Se reclamamos que não temos políticas, precisamos pensar em quem vamos votar”, diz ele, que reforça o caráter político permanente do evento.

“Estamos com nosso corpo livre, na principal avenida de São Paulo, e não no gueto. Isso é um ato político. Seguimos a lógica da festa e celebração, ainda que muitos de nós não tenhamos o que comemorar por ainda sermos expulsos de seu lar, de sua escola, por causa do seu gênero.”

Toda essa simbologia atraiu a mineira Pamela Junqueira, 27, pela terceira vez a São Paulo. Comprou a passagem só na quarta e no dia seguinte estava hospedada na rua Oscar Freire, via conhecida como reduto da comunidade LGBT. “Me atraem o protesto e o próprio por quê da Parada. Mas tem também muitos encontros, bagunça e as festas são ótimas”, diz.

A inclusão foi outra preocupação do evento. Estão previstos uma comitiva de deficientes físicos, interpretação em libras e balé de cadeirantes. 

Ao final do desfile, acontece a partir das 19h no Vale do Anhangabaú o show de encerramento com Banana Split, Fíakra e Jade Baraldo.

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