Após 2 meses, impasse deixa famílias acampadas e Paissandu sem limpeza

Gestão Covas conclui lista de famílias com direito a auxílio e grupo excluído barra zeladoria

Mariana Zylberkan
São Paulo

Dois meses depois do incêndio seguido de desabamento de um prédio invadido por sem-teto no largo do Paissandu, famílias acampadas com barracas em frente à área mantêm um impasse com a gestão Bruno Covas (PSDB) que impede as ações de limpeza no marco tradicional do centro de São Paulo.

Com a intenção de pressionar a prefeitura para obterem moradia e com medo de serem expulsos, sem-teto instalados com crianças no local já impediram cinco tentativas de lavagem por equipes municipais, que dizem temer a proliferação de ratos e insetos.

A tensão entre as famílias e a prefeitura também se agravou, com troca de acusações.

A gestão Covas encerrou nesta terça (3) a lista de vítimas do incêndio aptas a receberem benefícios e afirma que os sem-teto que estão agora no Paissandu não eram moradores do prédio Wilton Paes de Almeida, que desabou e deixou ao menos sete mortos.

Já os acampados afirmam que foram abandonados pela prefeitura e que têm dificuldade de comprovar a moradia anterior inclusive devido à perda de documentos.

Em meio ao embate, as imediações da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo do Paissandu, estão fora da rotina de limpeza do município. "Os varredores têm dificuldade de trabalhar entre as barracas", afirma Eduardo Odloak, prefeito regional da Sé.

Segundo ele, a entrada dos funcionários é permitida sob a condição de serem seguidos pela liderança do movimento, e eles são impedidos de se aproximarem de determinadas barracas. Tal comportamento, afirma Odloak, eleva a desconfiança de consumo de drogas —suspeita que é rechaçada pelos sem-teto.

Na mais recente tentativa de limpeza do largo com jatos d'água, no último final de semana, agentes de limpeza entregaram vassouras e sacos plásticos para sem-teto improvisarem alguma faxina no largo do Paissandu.

A preocupação com a falta de salubridade do acampamento cresceu nas últimas semanas diante do aumento de reclamações de comerciantes.

As famílias resistem em permitir a aproximação de agentes de limpeza porque temem se tratar de uma tentativa camuflada da prefeitura de se infiltrar e impedir a remontagem das barracas.

Cerca de 44 famílias continuam no acampamento e dizem que só saem de lá quando receberem auxílio-aluguel, benefício que repassa R$ 400 por mês a moradores vítimas de incêndio ou habitantes de áreas de risco em São Paulo.

A secretaria de Habitação afirma que, nos trabalhos para cadastramento das vítimas do desabamento, analisou os pedidos de 435 famílias que afirmaram serem moradoras do edifício e se cadastraram para receber a parcela mensal.

O auxílio-aluguel, porém, só está sendo concedido para metade delas (224 famílias), já que as demais, diz a gestão Covas, não comprovaram vínculo no edifício que desabou.

Com isso, os ocupantes das barracas no Paissandu passam a ser considerados moradores de rua pela prefeitura a partir desta quarta-feira (4). 

"Fomos abandonados pelo prefeito. Não temos para onde ir", diz Katia Gilmara de Oliveira, 36, que afirma viver há dois meses em duas barracas com os seis filhos e o pai idoso.

Ela diz que era moradora do prédio invadido que pegou fogo e ruiu há dois meses, mas não tem como comprovar seu vínculo porque perdeu os documentos no incêndio.

Além do cadastro de moradores feito meses antes do desabamento, a prefeitura pede às vítimas da tragédia, por exemplo, comprovantes de filhos matriculados em escolas na região central e de atendimento em equipamentos de saúde nos arredores.

Katia afirma que não se enquadra apenas na última exigência e, por isso, não recebe auxílio-aluguel. "Minha filha fez aniversário de quatro anos aqui. Se tivesse opção, estaria em uma casa", afirma.

Nos próximos dias, estão previstas mais ações da gestão Covas para fechar o cerco em torno das famílias que permanecem no largo do Paissandu —incluindo a retirada dos banheiros químicos e das grades de ferro que delimitam o espaço do acampamento.

Os banheiros foram disponibilizados pela prefeitura depois de decisão da Justiça Federal, que acatou pedido das defensorias públicas de São Paulo e da União cerca de um mês depois da tragédia. 

Os sem-teto acampados reclamam que os banheiros não são limpos por equipes da prefeitura há semanas. Alguns relataram já terem visto larvas saindo dos vasos sanitários. 

Mesmo assim, as famílias afirmam que só saem da praça quando todas receberem auxílio-aluguel municipal.

O medo das mães, enquanto isso, é de alguma ação violenta da polícia para retirada do acampamento. "Estamos desesperados", diz Katia, com o RG dos seis filhos nas mãos.

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