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Cidade vira referência no combate ao sarampo ao mandar agentes de porta em porta

Após surto, Fortaleza adotou políticas para reforçar a imunização

Anna Carolina Cardoso
Fortaleza

A agente de saúde Janaína Alves tem uma missão importante: garantir que nenhuma das cerca de 300 crianças que ela acompanha em Fortaleza fique sem tomar vacina. A partir de levantamento mensal nos postos de saúde, a agente bate na porta de quem tiver doses atrasadas e pede que os pais levem os filhos para serem imunizados.

Quando o alerta não é suficiente, uma enfermeira leva a vacina até a casa. “É difícil que alguém não dê a vacina quando ela está ali”, diz Janaína.

De 2013 a 2015, Fortaleza enfrentou surto de sarampo, com 395 casos, pega de surpresa em meio a uma crise de saúde no estado em que pacientes chegaram a ser atendidos no chão de hospitais.

Hoje, enquanto o Brasil vê o reaparecimento da doença, ela é considerada erradicada na capital cearense, um exemplo em vacinação no país. 

Após o surto, Fortaleza adotou políticas para reforçar a imunização, sendo o cadastro nominal e a extensão dos horários de atendimento nos postos de saúde as principais.

O cadastro passou a ser usado em 2017. Antes dele, a contagem era apenas numérica, feita em planilhas preenchidas a mão. Se uma criança deixava de tomar uma dose, os agentes não sabiam quem ela era, apenas a idade e as vacinas tomadas. Agora, é possível saber quem deixa de tomar uma vacina e onde mora.

Um sistema nominal semelhante, o SI-PNI, do Ministério da Saúde, é usado em 67% das salas de vacinação do país, segundo o Programa Nacional de Imunização. Há, porém, problemas de implantação e acesso à rede que dificultam sua utilização.

“Tínhamos receio de mudar o sistema que era utilizado há anos, mas deu muito certo”, diz a coordenadora de imunização de Fortaleza, Vanessa Soldatelli. Quando foi implantado, todas as equipes foram treinadas e se mantiveram em contato pelo WhatsApp para ajudar nas dúvidas.

Os horários de vacinação estendidos foram implantados em 2013, e a secretaria acredita que essa seja a principal política responsável pelos bons resultados. Os 110 postos funcionam de 7h30 às 18h30, o que facilita a ida dos adultos.

Sob a gestão de Roberto Cláudio (PDT), Fortaleza tem dois postos que fecham só duas vezes por ano. Também estão entre as estratégias convênios com creches e escolas e o reforço da comunicação nas campanhas.

O Ministério da Saúde recomenda para todos os municípios que adotem o cadastro nominal e a extensão do horário de atendimento para reverter a tendência de queda da vacinação no país.

Segundo o ministério, o município cumpre não só as metas de vacinação para sarampo, mas todas as metas estabelecidas pela pasta. A cidade aparece como a capital mais bem posicionada do Brasil em termos de cobertura vacinal.

No momento, Amazonas e Roraima enfrentam surtos de sarampo, com 444 e 216 casos confirmados até meados de julho, respectivamente. Ambos os estados ficaram abaixo da meta de 95% em 2016 e 2017. 

Dados do ministério apontam que a cobertura nacional da vacinação contra o sarampo relativa a 2017 está em 84,9% na tríplice viral, que deve ser aplicada aos 12 meses, e de 71,5% na tetra viral, aos 15 meses. Também houve casos em São Paulo, Rondônia, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Segundo a pasta, também houve queda na cobertura de outras vacinas obrigatórias para bebês e crianças, levando o país a enfrentar a maior crise de vacinação dos últimos 16 anos. Um em cada 4 municípios estão abaixo da meta do ministério, de 90% para contra gastroenterite e tuberculose e 95% para as outras doenças, incluindo sarampo.

Os números abaixo da meta são preocupantes porque aumentam o risco de áreas com muitas pessoas não imunizadas. Nesses casos, uma única pessoa contaminada pode espalhar o vírus rapidamente, o que pode permitir a volta de doenças já erradicadas.

Especialistas atribuem a atual queda ao baixo temor em relação a doenças já erradicadas. “Houve um relaxamento do medo. Não que a família seja irresponsável, mas há um relaxamento em relação aos riscos. Ninguém conhece essas doenças, não viram essas doenças, então não têm tanto medo”, afirma Isabella Ballalai, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunização). 

Entre os mais ricos, começam a surgir alguns movimentos antivacina, ainda que pouco expressivos nas estatísticas. Outro fator preocupante é a quantidade de informações sem fundamento espalhadas por redes sociais.

“A última vacina que o meu filho tomou foi a da gripe. Eu quase não levei porque todo mundo estava falando que a criança tomava a vacina e depois passava mal”, diz a vendedora Flávia de Oliveira, 39. 

A família dela é uma das acompanhadas pela agente Janaína em Fortaleza. Flávia conta que levou o filho mesmo com medo. “Melhor ter algum efeito que ele pegar uma doença mais forte, que pode levar até a morte.”

Apesar da cobertura satisfatória, Fortaleza ainda permanece alerta, já que passou a utilizar o sistema nominal online só no ano passado e ainda precisa concluir a transferência de dados de 10% das cadernetas de vacinação de papel.

Segundo a coordenadora de imunização de Fortaleza, o trabalho é grande e as equipes acabam sobrecarregadas. Além disso, o “resgate das cadernetas” depende de que as agentes tenham acesso à internet, o que nem sempre é possível no momento da coleta das informações.

Mesmo com essas dificuldades, o caso de Fortaleza é considerado exemplo para outros municípios. “Eles viveram um susto, ou melhor, uma triste realidade, mas levantaram, sacudiram a poeira e deram a volta por cima”, diz a presidente da Sociedade Brasileira de Imunização.

Esta reportagem foi produzida pela Agência Resposta, especializada em jornalismo de soluções​​

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