Esquema burla aplicativo e taxímetro em caça a passageiros nos aeroportos

Motoristas oferecem viagens por fora em aeroportos e cobram mais caro

Mariana Zylberkan
São Paulo

Basta aparecer na saída dos dois maiores aeroportos de São Paulo com uma mala na mão para ser alvo da abordagem insistente. "Uber? Precisa de Uber, patroa?" 

A pergunta se repete algumas vezes e é ponto de partida para um esquema que oferece transporte irregular a passageiros de Cumbica, em Guarulhos (Grande São Paulo), e Congonhas (zona sul) —que, em geral, não estão cientes da clandestinidade da viagem.

A maioria diz ser condutor cadastrado em aplicativos como Uber, 99 e Cabify —apesar de algumas placas não constarem no cadastro das empresas. E existem taxistas que recorrem ao artifício para fisgar quem desembarca de um voo.

Por trás do esquema está a intenção desses motoristas de driblar a fila de espera por clientes e escapar das taxas dos aplicativos, que consideram abusivas —podem passar de 20% do valor da corrida.

Como a viagem é feita no mercado paralelo, para os usuários, é como se estivessem entrando no carro de um desconhecido qualquer, sem nenhum controle externo.

Em um dos testes, a reportagem chegou a ser deixada no meio do trajeto por um desses motoristas —que havia se esquecido do rodízio municipal de veículos (leia abaixo).

Ao fazer a abordagem, o motorista pergunta o destino e saca o celular do bolso para entrar no aplicativo da Uber e simular o valor cobrado. Ainda aproveita para pedir até 30% acima da tarifa oficial.

À Folha, por exemplo, foram cobrados R$ 80 para ir do terminal 2 de Cumbica até o bairro dos Campos Elíseos, na região central de São Paulo, numa tarde de segunda-feira. O mesmo trajeto de 28 km fica por volta de R$ 60 na opção mais barata do aplicativo. 

No caso de Cumbica, a abordagem é constante a poucos metros do totem instalado pela Uber que serve de ponto de encontro entre motoristas e passageiros. Há outro totem, da 99, também próximo dali.

Para sair do saguão do aeroporto ao local indicado na tela do celular é preciso passar por um "corredor polonês" de motoristas oferecendo corridas por fora do aplicativo.

Pela lei federal, esse tipo de transporte remunerado de passageiros é permitido apenas mediante intermediação das empresas. Fora disso, a prática é considerada infração gravíssima pelo código de trânsito, que prevê a apreensão do carro e a suspensão da habilitação.

Em Cumbica, os motoristas clandestinos se reúnem e organizam um rodízio para determinar de quem é a vez de fazer a abordagem. Para quem percebe se tratar de uma corrida extraoficial, a agilidade no embarque é um argumento usado para convencer os passageiros.

No aeroporto de Guarulhos, o esquema de transporte irregular se tornou uma disputa de gato e rato com os fiscais. A prefeitura local afirma que 33 veículos clandestinos foram apreendidos desde 2017 no aeroporto e que a fiscalização foi intensificada.

Em uma quarta, a Folha presenciou a articulação dos motoristas para fugir da fiscalização de dois guardas municipais de Guarulhos que faziam ronda a pé no terminal 2. Bastava os guardas se afastaram para eles se juntarem em frente à mureta de concreto e, com a mesma rapidez, sumiam quando a ronda municipal se aproximava.

Um motorista que não quis se identificar contou que aderiu ao esquema para driblar a fila virtual de carros que se forma no entorno do aeroporto. O ex-copeiro de 52 anos afirma ser preciso esperar até quatro horas por sua vez para pegar um passageiro em Cumbica. 

Argumento parecido saiu da boca de um taxista que aborda passageiros no terminal 2 para oferecer corridas extraoficiais. O homem loiro e de estatura baixa disse que trabalha há mais de dez anos transportando passageiros a partir do aeroporto de Guarulhos e viu seu faturamento mensal cair pela metade após a chegada dos aplicativos. 

Ele cobrou R$ 80 pela corrida com taxímetro desligado até a região central de São Paulo. O valor, 30% mais caro do que a tarifa calculada pelo aplicativo, foi cobrado sob a justificativa de que ele poderia trafegar pelos corredores de ônibus, apesar de não ter recorrido a essa possibilidade em nenhuma parte do trajeto. 

Em Congonhas, segundo a secretaria dos Transportes, sete veículos clandestinos foram apreendidos neste ano. 

A Uber afirma que qualquer viagem feita fora do aplicativo é irregular. A 99 afirmou que a prática descrita na reportagem é proibida pela legislação. A Cabify ressalta que as chamadas das corridas devem ser feitas com o aplicativo.


Saiba quais os riscos da corrida fora do app

Motoristas de aplicativo podem fazer corridas fora da plataforma? Não. A prática viola os termos de adesão aos aplicativos e é considerada transporte ilegal de passageiros, infração gravíssima segundo o Código Brasileiro de Trânsito
 
Taxistas podem oferecer corridas fora do taxímetro? Não. Lei federal determina que o uso do taxímetro é obrigatório em cidades com mais de 50 mil habitantes.
 
Quais são os riscos aos passageiros? Não há garantia de que o motorista teve seus antecedentes criminais checados, o que acontece com todos os que são aceitos nas plataformas. Ao aceitar corridas feitas fora dos aplicativos, o passageiro também deixa de ter direito à cobertura do seguro que as plataformas são obrigadas por lei a disponibilizar em caso de acidentes.
 
Como evitar embarcar em um corrida irregular? Acione o aplicativo e cheque a placa e o nome do motorista que aparecem na tela do celular antes de entrar no carro. No aeroporto de Guarulhos, espere seu motorista próximo às placas que sinalizam o ponto de encontro oficial usado pelos aplicativos —nem todos os apps têm o totem, contudo. Não aceite a ajuda de estranhos e, se tiver dúvidas, peça ajuda a funcionários identificados com o logo do aplicativo que ficam nesses pontos de encontro.


Depoimento: "Corrida clandestina obriga trocar de carro no caminho"

A missão do dia era embarcar em um dos carros de motoristas particulares que se fingem de Uber para fisgar passageiros no aeroporto de Congonhas. Nem precisei estar com mala para ser abordada pelo grupo de homens que fica no saguão de desembarque. Bastou fazer cara de perdida e segurar o celular na mão. Ouvi “Uber, moça?” e entendi que era a senha para o esquema.

O homem aparentando cerca de 60 anos perguntou para onde eu ia e logo lançou o preço quando respondi “Campos Elísios: R$ 60”. Pedi para ele me mostrar o cálculo no aplicativo, mas ele me enrolou dizendo que seu celular estava sem sinal e pediu para outro motorista simular a tarifa. Deu R$ 45. “Mas meu carro é o ‘black’”, disse para justificar o preço mais alto. 

O ‘black’ era um Citroen C3 ano 2010 estacionado a cerca de 500 metros do saguão em local proibido. O modelo não se enquadra na categoria de luxo exigida pelo aplicativo para cobrar tarifa mais cara. 

Segui o motorista, que andava apressado. Ele estava aflito com o horário porque sua placa estava no rodízio e ele estava com medo de ser multado. 

Ainda faltavam 15 minutos para as 17h, estávamos na avenida 23 de Maio, quando ele avisou que eu iria continuar a corrida de táxi. A essa altura ele já tinha acelerado para emparelhar com um taxista e gritado da janela: “termina essa corrida para mim?” 

O taxista disse que já estava com um passageiro. Um segundo taxista aceitou. Saí do Citroen e entrei no táxi em um recuo na avenida. 

Descobri que o homem que me abordou no saguão do aeroporto é, na verdade, um taxista e usa seu carro particular para as corridas clandestinas. Os motoristas eram colegas.

Paguei em dinheiro ao taxista antes de desembarcar em segurança na porta do jornal. A placa do Citroen não está cadastrada entre os carros que trabalham com o aplicativo Uber.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.