Estoque de vacina contra meningite C em bebês está em situação crítica

Queda na distribuição afeta alguns estados, e ministério culpa laboratório

Bebê toma vacina na UBS Dona Mariquinha Sciáscia, na zona norte de São Paulo
Bebê toma vacina na UBS Dona Mariquinha Sciáscia, na zona norte de São Paulo - Eduardo Anizelli/Folhapress
Natália Cancian
Brasília

Um informativo do Ministério da Saúde enviado aos estados aponta que o país apresenta situação “crítica” de abastecimento da vacina meningocócica, recomendada a bebês para proteção contra meningite C.

O problema ocorre desde abril, quando foram distribuídas doses equivalentes a apenas 58% da cota mensal de cada estado, e piorou nos meses seguintes —chegando a atingir 10% da cota em maio, 15% em junho e 36% neste mês. Diante do envio reduzido, secretarias estaduais e municipais de saúde em ao menos seis estados consultados pela reportagem admitem que o cenário já gera falta da vacina em alguns postos de saúde.

É o caso de cidades de Espírito Santo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.

Procurados, Pernambuco e Rio de Janeiro também afirmam ter baixos estoques, mas não responderam se houve falta nos postos até agora.

A situação tem levado a uma peregrinação de pais em busca da vacina. Desde a última sexta (20), a auxiliar administrativa Patrícia, que pede para não ter o nome completo divulgado, procura a vacina para a sua filha de três meses em unidades de saúde de Araraquara, no interior de SP. Até agora, não conseguiu em nenhuma delas. “Hoje [quarta], falaram que chegaram apenas quatro doses, que já acabaram, e pediram que eu ligue na segunda-feira.”

Para ela, a situação preocupa. “Existe uma campanha forte para nós, pais, vacinarmos corretamente nossos filhos. Mas queremos vacinar e não podemos. Tenho certeza que o governo não vai se responsabilizar se, Deus me livre, minha filha pegar alguma doença por não estar vacinada.”

Questionada, a secretaria de saúde de Araraquara diz que, devido ao atraso no recebimento das doses, há falta de vacina meningocócica em todas as 32 unidades de saúde do município. Diante disso, começou a anotar os dados para contato de quem procura os postos para informar quando houver reposição.

Outras cidades do estado também relatam estoques zerados. Em São José dos Campos, 20 dos 40 postos de saúde não têm a vacina. A prefeitura diz que tem orientado a população a ligar e confirmar a disponibilidade com os postos antes de sair de casa.

Na capital paulista, a coordenadoria municipal de vigilância em saúde informa ter recebido apenas 16% das doses pedidas para este mês.

“Apesar das ações para amenizar possíveis transtornos, como o remanejamento das doses de salas de vacina com menor demanda, o atendimento já começou a ser comprometido na cidade pela falta da vacina em algumas unidades”, diz em nota. 

Segundo a secretaria estadual de saúde de SP, o cenário ainda é de alerta. Até o momento, foram recebidas 101 mil doses para o mês de agosto —o equivalente a 36% do previsto. “A manutenção do abastecimento depende do envio de novas doses.”

Já de maio a julho, a pasta diz ter recebido 339 mil doses —o total solicitado, no entanto, era de 896 mil.

Para a infectologista Karen Mirna Morejon, do comitê de imunizações da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), a situação preocupa, uma vez que, em caso de falta prolongada, crianças podem ficar desprotegidas.

Ela lembra que, apesar de haver outras vacinas que protegem contra meningite no SUS, a vacina meningocócica é a única da rede pública que protege contra a doença causada pela bactéria Neisseria meningitidis (meningococo) do grupo C —tipo prevalente entre as meningites bacterianas e que desperta atenção devido à possibilidade de gerar quadros graves.

Em geral, a meningite é caracterizada pela inflamação das meninges, membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. A doença pode ser causada por vários agentes, como vírus e bactérias. Os principais sintomas são febre, dor de cabeça, vômitos, náuseas, rigidez de nuca e manchas vermelhas na pele.

Na rede privada, a vacina contra esse e outros tipos de meningite, chamada de ACWY, custa em torno de R$ 350. Quem não pode custear esse valor, assim, fica sujeito a atrasos no calendário vacinal.

Na rede pública, a vacina meningocócica C é indicada por meio de duas doses, aos três meses e cinco meses, além de um reforço aos 12 meses de vida e outro na adolescência.

Em meio à incerteza sobre onde há baixos estoques e onde há desabastecimento, a presidente da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunizações), Isabela Ballalai, recomenda aos pais que procurem informações junto ao município e busquem a proteção para os filhos assim que o abastecimento for regularizado.

Segundo ela, mesmo com o atraso, crianças que já tomaram uma das doses não precisam recomeçar o esquema vacinal. Neste caso, é preciso apenas completá-lo com as demais doses para garantir que a proteção seja efetiva.

Em nota, o Ministério da Saúde informa que a vacina meningocócica C está sendo distribuída de forma reduzida devido a atrasos na entrega pelo laboratório produtor, a Funed (Fundação Ezequiel Dias). De janeiro a julho deste ano, foram enviadas aos estados 3,9 milhões de doses. No mesmo período do ano passado, foram 5,9 milhões.

Segundo a pasta, a previsão é que a situação seja normalizada em agosto em todo o país. Até que isso ocorra, o ministério diz orientar municípios com estoques reduzidos a realizarem o agendamento da vacinação, de acordo com a disponibilidade de doses.

Questionada, a Funed informa que o problema ocorre “devido a problemas atípicos na cadeia produtiva e logística” nos últimos três meses, “com consequente impacto no abastecimento e disponibilização para a população”. 

O laboratório diz ainda que o cenário é “temporário” e que a situação já vem sendo regularizada, com entrega de 1,2 milhão de doses neste mês e previsão de regularização total em agosto. Ainda segundo o ministério, foram registrados 316 casos de meningite C em 2017, número semelhante ao do ano anterior. A pasta não informou quantos casos foram registrados neste ano.

Em junho, a Folha mostrou que a vacinação de crianças já atinge o índice mais baixo em mais de 16 anos. A taxa de cobertura da vacina meningocócica C, por exemplo, teve queda de 91,7%, em 2016, para 78,7% no ano passado.


O que é meningite? É uma doença caracterizada pela inflamação das meninges, membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal

Quais as causas da doença? A meningite pode ser causada por bactérias, fungos, vírus, parasitas e até mesmo por processos não infecciosos, como traumatismos. As formas mais comuns são as bacterianas e as virais

Quais os sintomas? Dor de cabeça, febre, náusea, vômito e rigidez na nuca. Também podem aparecer manchas vermelhas na pele. Em crianças com menos de um ano de idade, é preciso atenção redobrada, pois os sintomas nem sempre são muito evidentes. Pode haver, além de febre, moleira elevada ou tensa, rigidez corporal, irritabilidade e inquietação com choro persistente e até mesmo convulsões. Ao notar os sintomas, procure rapidamente um médico

Como é transmitida? Geralmente de pessoa para pessoa, pelo contato com secreções do nariz e da garganta. Nos casos virais, também pode ser transmitida por via fecal-oral

Qual o tipo mais grave? A bacteriana é mais perigosa, pode deixar sequelas (como problemas de visão, motores e de audição) e pode levar à morte. Geralmente, os casos mais graves e fatais são causados pela bactéria meningococo 

Qual o tratamento? Varia. Nos casos virais mais leves, pode haver apenas alívio de sintomas. Já nos bacterianos é indicado o uso de antibiótico

Existe vacina? Sim. Há três tipos de vacinas, que previnem contra diferentes tipos da bactéria meningococo: C, B e ACWY (que protege contra quatro sorotipos da bactéria). Apenas a C está disponível na rede pública, para crianças. As demais podem ser encontradas na rede privada, com preços que variam de R$ 300 (tipo ACWY) a R$ 600 (tipo B) a dose. Como a meningite pode ter várias causas, outras vacinas, como a BCG (contra tuberculose) e a pneumocócica, também ajudam a prevenir a doença

Como prevenir? O mais importante é se vacinar. Além disso, mantenha os ambientes limpos e arejados e, em casos de surtos, evite aglomerações

Fonte: Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Imunizações

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.