Faixas e corredores de ônibus de SP têm menor velocidade desde 2014

Gestão Covas considera desempenho bom e afirma que obras afetam fluidez

Corredor de ônibus da avenida João Dias, um dos mais congestionados de SP
Corredor de ônibus da avenida João Dias, um dos mais congestionados de SP - Rafael Roncato/Folhapress
Fabrício Lobel
São Paulo

O congestionado corredor de ônibus da avenida M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, é o caminho diário de Marcos Garcia, 28, até o trabalho. O problema é que, após chegar ao terminal Santo Amaro, o motorista Marcos assume a direção do ônibus 5154-10 que vai até o Terminal Princesa Isabel, no centro. A partir dali, serão mais horas de lentidão em corredores e faixas de ônibus.

“É uma fila de ônibus, um atrás do outro, táxi entrando e saindo do corredor sem dar seta, motorista invadindo a faixa”, diz Marcos. “Todo dia o corredor trava”. Sim e, segundo dados da gestão Bruno Covas (PSDB), esse quadro está piorando aos poucos.

A velocidade dos ônibus nas faixas e nos corredores exclusivos tiveram em 2017 o pior desempenho desde 2014, quando o cálculo passou a ser feito com a metodologia atual. Os ônibus chegaram a esse patamar após ligeira queda em relação às velocidades de 2016, que já havia sido o pior ano da sequência histórica.

Apesar da redução das velocidades, a prefeitura considera bom o desempenho dos ônibus nas faixas e corredores, mas diz que os coletivos sofreram com obras no asfalto e aumento do tempo destinado à travessia de pedestres.

O dado de redução do desempenho do transporte surge após seguidas promessas de modernizar e agilizar os ônibus em São Paulo. A licitação do novo sistema de ônibus poderia ajudar a melhorar esse quadro, mas o processo está emperrado após questionamentos do TCM (Tribunal de Contas do Município).

A piora das velocidades em 2017 se deu por causa de lentidão 5% maior dos coletivos no sentido centro. Nos corredores de ônibus, a velocidade média recuou de 22 km/h em 2016 para 21 km/h em 2017. 
Nas faixas exclusivas, a variação foi de 21 km/h em 2016 para 20 km/h em 2017.

Já no sentido bairro, os ônibus mantiveram o mesmo desempenho de 2016. Nos corredores, a velocidade média foi de 20 km/h, e nas faixas exclusivas, 17 km/h.

Na gestão Fernando Haddad (PT), a meta era que os ônibus em toda a cidade, e não só nas faixas e corredores, tivessem velocidade média de 25 km/h. Porém, São Paulo nunca chegou a esse patamar.

Em uma plataforma de monitoramento online da SPTrans (companhia municipal de ônibus), é possível ver que durante a manhã e nos finais de tarde os coletivos trafegam em velocidades ainda menores por alguns trechos. 

 

Na última quinta-feira (19), às 18h30, o sistema indicava que a velocidade média no corredor da av. Ibirapuera, na zona sul, era de 4 km/h, num trecho de cerca de 1,5 km.

As faixas e corredores de ônibus são estruturas criadas justamente para dar prioridade aos ônibus sobre o transporte individual. Atualmente, São Paulo tem 128 km de corredores e 508 km de faixas.

Os corredores são mais caros, construídos à esquerda da via e permitem fluxo maior de coletivos. Já as faixas ficam à direita das vias e sofrem com mais perturbações de veículos que precisam acessar ruas transversais ou imóveis.

Para Gabriel Oliveira, pesquisador do ITDP (sigla em inglês para instituto de políticas  de transporte e desenvolvimento), os dados de 2017 mostram como a velocidade dos coletivos não consegue deslanchar em São Paulo.

“Ainda que a extensão dessas faixas tenha aumentado nos últimos anos, elas são apenas cerca de 3% da malha viária na cidade. E ainda é permitido o trânsito de táxis, o que traz perturbações ao sistema. Uma sugestão é analisar quais corredores e faixas perderam mais velocidade e pensar em restringir o acesso de táxis nesses locais”, comenta. 

“Onde a infraestrutura confere prioridade ao ônibus, como acontece no Expresso Tiradentes, a velocidade média é de cerca de 45 km/h”, afirma o presidente do sindicato, Francisco Christovam.

A Prefeitura de São Paulo diz considerar que as velocidades dos ônibus nos corredores e faixas exclusivas são boas, já que alguns dos trechos têm médias acima de 20 km/h.

Sobre as faixas, que tiveram velocidades médias de 17 km/h, a prefeitura diz que os ônibus estão sujeitos a maiores interferências de veículos. Nos casos em que as velocidades tiveram leve redução, a prefeitura diz que o cenário pode ser considerado estável. 

A gestão diz ainda que praticamente todos os corredores passaram por intervenções para recuperar o asfalto ou obras externas, como a construção de linhas do Metrô, o que prejudica o fluxo.

A administração alega ainda que o aumento de tempo de travessia programado nos semáforos de pedestres também pode ter impactado a fluidez dos coletivos.

Uma oportunidade para mudar o atual sistema de ônibus é firmar novos contratos, a partir de uma megalicitação, que é tentada desde 2013. O edital desenhado altera a organização das linhas de ônibus e a forma de remuneração das empresas.

O certame, porém, recebeu diversos questionamentos do TCM. Segundo o tribunal, as gestões João Doria (PSDB) e Bruno Covas prepararam um edital com os mesmos erros que já haviam sido apontados anteriormente quando Haddad também tentou, sem sucesso, fazer a licitação dos ônibus.

“Ainda que a extensão dessas faixas tenha aumentado nos últimos anos, elas são apenas cerca de 3% da malha viária na cidade. E ainda é permitido o trânsito de táxis, o que traz perturbações ao sistema. Uma sugestão é analisar quais corredores e faixas perderam mais velocidade e pensar em restringir o acesso de táxis nesses locais”, comenta Oliveira. 

Para a SPUrbanuss (sindicato que representa as empresas de ônibus da cidade), a diminuição da velocidade é reflexo da baixa prioridade que os coletivos têm na capital paulista, uma responsabilidade da prefeitura. 

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