Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Crime usa pula-pula com crianças para barrar blindado em favela do Rio

Estratégia atrasa operações e vira alvo de investigação do comando militar

Rio de Janeiro

O comando da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro investiga se criminosos estão usando brinquedos com crianças como barreiras para dificultar incursões em comunidades dominadas por traficantes de drogas e milicianos. Nesta sexta-feira (17), durante uma ação na favela de Antares, na zona oeste da capital fluminense, os militares se depararam com camas elásticas fechando ruas de acesso ao local.

O Comando Militar do Leste, responsável pela atuação do Exército na região, afirmou que os serviços de inteligência estão apurando o caso e que uma das hipóteses é o uso das crianças como escudos humanos.

Na posição em que foram colocadas, esses pula-pulas dificultaram o acesso dos veículos usados na operação. "Os serviços de inteligência estão trabalhando nisso, mas ainda não há confirmação assertiva. É uma possibilidade", disse neste sábado (18) o porta-voz do Comando Conjunto da intervenção, coronel Carlos Cinelli. 

Foto mostra um pula-pula no meio da rua enquanto um tanque com soldados tenta passar
Brinquedo pula-pula no meio da rua, em favela da zona oeste do Rio, enquanto um tanque com soldados tenta passar - Divulgação/Gabinete da Intervenção Federal

A intervenção federal na segurança do Rio completou seis meses na quinta-feira (16). A medida anunciada em fevereiro pelo presidente Michel Temer (MDB) ainda não conseguiu reduzir os homicídios, acumula o maior índice de mortes por policiais desde 2008 e tem retirado menos armas das ruas.

Desde que chegaram ao Rio, os representantes do governo federal também intensificaram as operações em favelas, sem comprar ainda os materiais prometidos às polícias com o R$ 1,2 bilhão liberado pelo Palácio do Planalto. Por outro lado, conseguiram reduzir os roubos de carga e de rua, e doações emergenciais de equipamentos.

Com a intervenção, na prática, as polícias, os bombeiros e o sistema penitenciário estão sob o comando federal, que nomeou interventor o general Walter Souza Braga Netto, do Exército. A medida ocorre paralelamente a uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) decretada por Temer em julho de 2017, que dá poder de polícia às Forças Armadas no estado também até o fim do ano.

A medida também foi decretada (às pressas e sem um plano pronto) logo depois do Carnaval, quando cenas de roubos em áreas nobres foram amplamente divulgadas pela imprensa e aumentaram a percepção de insegurança e vácuo no governo do estado.

A intervenção vale até 31 de dezembro. Em entrevista à Folha publicada neste sábado (18), o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que a medida deve mesmo acabar no prazo inicialmente previsto, pois os responsáveis pela medida já demonstraram não querer a sua renovação.

Em junho passado, Jungmann chegou a defender que a intervenção fosse renovada para, pelo menos, dezembro de 2019. Mas, vencido na discussão interna, o ministro optou pelo “meio-termo”, que seria a continuidade “da reestruturação das forças de segurança” no Rio e a manutenção da operação militar de GLO (garantia da lei e da ordem) para 2019.

Desde o início da intervenção, foram mais de 300 operações das forças de segurança, com aumento de 60% dos disparos e tiroteios registrados pela plataforma colaborativa Fogo Cruzado.

Há poucas trocas nos comandos dos batalhões mais violentos e um silêncio de porta-vozes sobre más condutas. Operações com suspeita de abuso policial, como no Salgueiro e no Alemão, seguem ainda sem explicações.

O interventor Braga Netto e o general nomeado para a pasta da Segurança Pública, Richard Nunes, também evitam a imprensa. À frente da Polícia Civil, eles não comentam crimes como o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), ocorrido em março e até hoje não esclarecido. ​

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