Sem dono, muro de vidro na USP tem abandono e investigação inconclusiva

Mistério da quebra de placas continua e 'paternidade' da obra está no limbo

 
Mariana Zylberkan Thiago Amâncio
São Paulo

O novo muro de vidro que separa a marginal Pinheiros da raia olímpica da USP, hoje, não tem dono, já tem sinais de abandono e é alvo de uma investigação policial que deve ser arquivada sem nenhuma conclusão.

O modelo de muro com vidraças foi anunciado em julho do ano passado. A construção foi feita por meio de doação de empresas à USP, sob intermediação do então prefeito e atual candidato ao governo, João Doria (PSDB).

A negociação para a construção do muro não dispõe de um contrato entre as companhias e a universidade, apenas um termo de doação, o que dá margem ao atual limbo em que se encontra a execução dos serviços.

Para a gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), apesar de a obra ter sido desenhada sob os moldes das doações de empresas à prefeitura, praticadas desde o início da gestão Doria, não cabe ao município fazer nenhuma intervenção p or não se tratar de obra da administração. O chamamento público foi feito pela universidade, ressaltou a gestão. 

Por outro lado, a universidade afirma que, até a obra ser entregue, qualquer intervenção é de responsabilidade das 44 empresas que aceitaram participar das doações, inclusive a substituição de ao menos 20 placas de vidro quebradas de forma misteriosa nos últimos quatro meses.

 

A USP diz ainda que não está definido quem irá pagar a conta de toda a manutenção do muro após o fim da obra —são 1.222 placas de vidro, cada uma delas avaliada em cerca de R$ 4.000.

Diante de grave crise financeira, a universidade terá dificuldade com esses custos.

Com 96 mil alunos e orçamento de cerca de R$ 5 bilhões por ano, a USP tem quase todo recurso onerado pela folha de pagamento. A universidade fez planos de demissão voluntária, congelou contratações e obras, e o Hospital Universitário reduziu atendimentos.

Mesmo assim, a definição a respeito da manutenção do muro de vidro deve ser decidida em breve, já que resta pouco a ser feito na obra.

Há cerca de duas semanas, o muro recebeu as últimas placas de vidro, e a empresa responsável pela instalação afirma que, com isso, sua participação na obra chegou ao fim.

A fabricante doadora dos vidros ainda disponibilizou cerca de 120 placas extras para servir como um estoque em caso de quebras.

Na tarde desta terça (7), havia sinais de abandono no local. Ainda restava um vão com vidros estilhaçados desde a última quinta-feira (2) e que ainda não tinham sido substituídos. Parte do estoque de placas está armazenado ao ar livre, disposto em cavaletes de ferro, à beira da marginal Pinheiros, sem proteção.

Sete placas de vidro reservas sofrem danos ao ar livre, sob chuva e sol, e podem ser furtadas por quem passa pela marginal (cada uma é avaliada em R$ 4.000); ao fundo, obra de tubulação onde passará cabeamento de câmeras de segurança - Joel Silva/Folhapress

A Folha encontrou ao relento cerca de dez placas de vidro —só esse conjunto vale em torno de R$ 40 mil. Por estarem à disposição das variações de tempo e temperatura,  apresentavam avarias como quinas trincadas e sujeira provocada pela lama do canteiro de obras do muro.

Até o momento, não há também posicionamento oficial sobre o trecho de aproximadamente 20 metros que continua com as esquadrias de alumínio instaladas, mas vazias, sem as placas de vidro. Um muro de alvenaria ainda protege essa parte.

De acordo com o empresário Jorge Abduch, um dos responsáveis pela instalação das placas de vidro, o trecho irá ficar de fora da obra por estar em uma área afetada por uma tubulação de esgoto, que dificulta a instalação das placas.

A pulverização de empresas envolvidas na construção e a falta de um contrato têm dificultado também o trabalho da Polícia Civil, que investiga desde abril o motivo de pelo menos 20 placas terem aparecido quebradas.

O delegado Ubiraci Oliveira afirma que o inquérito aberto em abril deve ser concluído em breve sem apontar o autor ou as causas das avarias. “Por ora, não existe nenhum suspeito”, diz ele, que deve postergar a conclusão do inquérito por mais 30 dias.

Em comum, os 16 boletins de ocorrência registrados desde então são vagos em apontar suspeitos ou causas técnicas que levaram ao espatifamento das peças. Duas testemunhas, entre elas um remador que frequenta a raia olímpica da USP, afirmaram que ouviram o barulho dos estilhaços, mas não sabem dizer quem ou o que os provocaram.

De acordo com o delegado, 11 placas de vidro quebradas foram submetidas à perícia, mas cinco laudos foram considerados inconclusivos. Dos outros seis, três apontam que o vidro foi quebrado de dentro para fora da raia, e os outros três, no sentido oposto.

 

Não há também vestígios de objetos que possam ter sido usados nas depredações, arremessados por passageiros de veículos que passam pela margina l ou vindos de outra forma. Em frente ao muro, no lado de fora da raia, há um lamaçal com pedras para todos os lados e o acesso ao muro não tem barreira.

A esperança dos investigadores é de alguma prisão em flagrante que leve a outros suspeitos. Nenhuma denúncia foi feita, nem sequer anônima.

De acordo com a USP, está prevista para o início de setembro a instalação das câmeras de vigilância prometidas desde o início da obra.

A expectativa dos policiais é que as imagens ajudem a solucionar o mistério dos vidros quebrados, apesar de levarem em conta um extenso leque de fatores técnicos, como falha de projeto, movimentação do solo e trepidação dos veículos.

Os laudos dizem, por exemplo, que problemas no armazenamento podem deixar os vidros mais suscetíveis às quebras, já que ficam soltos ao ar livre, sem suporte.

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