Uso de ciclovia da Faria Lima dispara, e 'rush' é para ir ao trabalho

Total de viagens em rota da zona oeste de SP teve acréscimo de 45% em 2018

Thais Lazzeri
São Paulo

Quando Willian Barbosa Marcondes, 29, gerente de uma empresa de tecnologia em e-commerce, teve oportunidade de mudar de casa e morar perto do trabalho, na zona oeste de São Paulo, um item foi inegociável: a rota incluir uma ciclovia.

Vendeu o carro e comprou uma bicicleta dobrável para percorrer os 9 quilômetros até a empresa —de camisa, blazer e sapato. São dele duas das mais de 2.500 mil viagens/dia na ciclovia da Faria Lima.

“Antes, quando usava carro e ficava preso em engarrafamento, via ciclistas passando por mim de terno, vestido, calça jeans. Pensei que era uma boa ideia ir trabalhar de bicicleta. Foi uma mudança de mindset”, conta.

Usar a magrela como alternativa de transporte para trabalhar, e não apenas para lazer, é cada vez mais comum. 

Segundo dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o total de viagens na ciclovia da Faria Lima teve acréscimo de 45% de janeiro a julho deste ano em relação ao mesmo período do ano passado: de 537 mil para 781 mil. Na ciclovia da Vergueiro, o aumento foi de 10%.

Levantamento inédito a pedido da Folha mostra que os cinco horários de maior tráfego nessas duas ciclovias —as únicas com medidores— se concentram na ida e volta ao trabalho durante a semana.

Foram analisadas 2.934.554 viagens, entre 19 de janeiro de 2016 e 31 de dezembro de 2017. O levantamento foi feito pelo estúdio de data analytics Novelo a partir de dados da prefeitura, obtidos via Lei de Acesso à Informação.

“O que a gente vê aqui não é diferente de outros lugares do mundo. As ciclovias e a conectividade com as vias arteriais aumentaram o número de viagens de quem flertava com a bicicleta, mas não usava porque não sentia segurança”, afirma Marta Obelheiro, coordenadora de segurança viária do World Resources Institute Brasil, instituição global de pesquisa.

O corredor Faria Lima foi entregue em 2012, duas décadas depois do combinado.

Alguns fatores que ajudam a explicar a alta na Faria Lima são a grande concentração de escritórios e o consequente deslocamento de funcionários, a presença de estrutura cicloviária boa e plana e bikes compartilhadas em abundância na saída do metrô. 

O tempo gasto no deslocamento pesou para a engenheira Stella Colussi, 30, que trocou o carro pelo aluguel de uma bicicleta elétrica —valor 30% menor do gasto só com o estacionamento mensal.

“Antes, eu não sabia se o trajeto ao trabalho levaria 20 ou 50 minutos. Agora consigo controlar meu tempo mesmo com os congestionamentos nos faróis”, diz, sobre a quantidade de ciclistas parados em um mesmo ponto. “Uma vez até contei. Era a 12 de 14”.

Colussi sai de casa às 9h e costuma retornar depois das 20h. Em nove meses em duas rodas, afirma que há valas nas vias, trechos ruins e falta de iluminação adequada.

São Paulo tem atualmente 468 km de ciclovias e ciclofaixas e 30 km de ciclorrotas.

Nos últimos dois anos, a falta de investimentos, manutenção e expansão das ciclovias foi motivo de críticas às gestões de João Doria e Bruno Covas, do PSDB.

A Secretaria dos Transportes apresentou nesta sexta (3) um novo plano cicloviário para a cidade. “O objetivo é buscar a melhor utilidade à rede existente, oferecendo segurança, corrigindo falhas e, principalmente, garantir e ampliar a conectividade entre as rotas de bicicletas e os meios de transportes coletivos.”

De 2017 a junho de 2018, a prefeitura não gastou nenhum real dos R$ 34 milhões previstos para obras e manutenção das ciclovias. Nos quatro anos anteriores à gestão tucana, sob Fernando Haddad (PT) foram gastos R$ 114 milhões (em números atualizados) para implantar e manter 400 km de ciclovias.

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