Descrição de chapéu BBC News Brasil

Em 1844, diretor do Museu Nacional já se queixava de condições precárias e falta de recursos

Teto que ameaçava desabar, salas entulhadas e cortes orçamentários foram relatados no século 19

João Fellet
São Paulo

Teto que ameaçava desabar, salas entulhadas, cortes orçamentários, falta de reconhecimento pelo poder público. Essas condições foram detalhadas num relatório em que o diretor do Museu Nacional se queixava ao governo sobre as condições do edifício.

O ano do documento é 1844 –26 anos após a criação do museu, e 174 anos antes de um incêndio destruir grande parte de seu acervo, no domingo (2).

"A Seção de numismática e artes liberais, arqueologia, usos e costumes das nações antigas e modernas acha-se em uma sala cujo teto ameaça ruína, visto as grandes fendas do estuque que continuamente se alargam", escreveu Frei Custódio Alves Serrão, diretor do museu entre 1828 e 1847.

Serrão foi diretor do Museu Nacional de 1828 a 1847
Serrão foi diretor do Museu Nacional de 1828 a 1847 - Koegel & Schwasicka/Relics and Selves: Iconographies of the National in Argentina, Brazil and Chile (1880-1890). Web exhibition, London 2000

Na época, a instituição ainda estava em sua primeira sede, em Campo de Santana (centro do Rio), antes de ser transferida para o Palácio Imperial de São Cristóvão, cujo interior foi consumido pelo fogo de domingo passado.

Diante dos riscos, Serrão alertava que seria obrigado a transferir as coleções para outras salas, "que serão assim tão acumuladas tornando-se impossível nelas todo o trabalho e inevitável o encerramento do estabelecimento até que essa falta se remedeie".

Nascido no Maranhão em 1799, Serrão foi um dos dois religiosos a dirigir o museu em suas primeiras décadas de existência.

Formado em Ciências Naturais na Faculdade de Coimbra, em Portugal, assumiu a chefia da instituição após lecionar zoologia e botânica na Imperial Academia Militar. Naquele período, o Brasil ainda integrava a Coroa Portuguesa.

Serrão tentava reestruturar o museu. Sob o reinado de D. Pedro 2º (1840-1889), o desenvolvimento científico ganhou importância na agenda de governo, e o "museu [Nacional] foi gradualmente transformado num centro de pesquisa, um local de produção e agregação de conhecimento no Brasil", analisou Jens Andermann em artigo sobre a história da instituição publicado pelo Birkbeck College, de Londres, em 2000.

 

Hoje professor de cultura latino-americana na New York University, Andermann diz que a criação do museu, em 1818, buscava retratar "não só uma nação, mas um império". Segundo o pesquisador, ao expor objetos que representavam a natureza, a população e a história das colônias portuguesas na África, Ásia e Américas, a Coroa tentava preservar "a ficção de um império luso-brasileiro, ainda capaz de competir com seus rivais europeus".

Museu Britânico como referência

Tomado por esse espírito, Serrão pretendia abandonar o modelo do Museu de Paris, até então principal referência da instituição brasileira, e seguir os passos do Museu Britânico, que vinha aproveitando seu vasto acervo colonial em pesquisas científicas. 

Mas o diretor se queixava da falta de apoio governamental à missão.

"A utilidade do nosso museu ainda não está perfeitamente sentida no seio da Representação Nacional, nem grande parte de nossos administradores tem reconhecido a benéfica influência de semelhante estabelecimento", escreveu Serrão.

O Brasil do século 19 despertava grande interesse entre cientistas europeus, que se lançavam em grandes expedições para catalogar a fauna e flora do país.

"Entretanto [enquanto] que as nações europeias vão mandando com enormes sacrifícios seus sábios perlustrarem este riquíssimo Império, vamos nós amesquinhando esta criação dos tempos coloniais", reclamou o diretor.

Quando Serrão redigiu o texto, o Senado acabara de cortar o orçamento do museu. O diretor disse então que abriria mão do salário, pois preferia "servir antes gratuitamente, se as circunstâncias da nação o exigem, do que receber como paga de próprio e mui pesados sacrifícios, um honorário menor ainda do que o de um jornaleiro".

O relatório de Serrão foi citado por Luiz de Castro Faria, naturalista do Museu Nacional, em conferência publicada em 1949 pelo Departamento de Imprensa Nacional.

O diretor deixou o cargo em 1847. Até 1859, segundo Faria, "as instalações eram ainda bastante precárias, e a falta de recursos fazia com que, dia a dia, se tornassem mais deficientes".

No fim da década seguinte, "a imagem de um edifício desabando sob o peso de seus ornamentos suntuosos não só não tinha mudado no museu, mas parecia ter se estendido ao Brasil Império em geral", diz Jens Andermann.

Período de auge

Foi só a partir de 1876, sob o comando de Ladislau Netto, que o museu passou por uma ampla reforma.

Durante sua gestão, a instituição se mudou do Campo de Santana para a Quinta da Boa Vista, a sede atual, e ganhou um de seus itens mais emblemáticos, o meteorito Bendegó.

Foi o período áureo do museu, quando a instituição participou de várias exposições internacionais, melhorou sua estrutura física e aumentou o salário dos funcionários.

No entanto, já na gestão seguinte, de João Batista de Lacerda (1895-1915), vislumbravam-se alguns dos problemas que assombrariam a instituição por várias décadas –como a falta de espaço para armazenar um acervo tão grande e diverso.

Em 1901, um artigo no Correio da Manhã, então um dos principais jornais do Rio, criticava o diretor pelas condições do museu.

"O parque da Boa Vista não encontra quem dele trate", diz o texto, que também condena a situação do setor de mineralogia. "De todas as secções, a única que se salva é a de zoologia e anthropologia."

Quase meio século depois, em 1949, o relato do naturalista Luiz de Castro Faria indicava que museu continuava carecendo de cuidados.

"É fácil compreender a impossibilidade de permanência de uma tal situação sem lamentáveis prejuízos para o instituto e para o completo e conveniente desempenho das suas atribuições."

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