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Moradores de vila operária e histórica de SP ganham prêmio de preservação

Honraria foi concedida no final de agosto pelo Iphan à Associação Cultural Vila Maria Zélia

Morador da Vila Maria Zélia está sentado na calçada em frente a sua casa
Edelcio Pereira Pinto, conhecido como Dedé, 68, é morador da Vila Maria Zélia, a primeira vila operária do Brasil, inaugurada em 1917 - Zanone Fraissat/Folhapress
Luciano Cavenagui
São Paulo | Agora

Moradores da Vila Maria Zélia, bairro operário centenário e histórico do Belenzinho (zona leste), ganharam um prêmio do governo federal pelas ações de preservação da memória, patrimônio e cultural do local.

A honraria foi concedida no final de agosto pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), autarquia do Ministério da Cultura, da gestão Michel Temer (MDB). O prêmio, no valor de R$ 30 mil, foi concedido à Associação Cultural Vila Maria Zélia, formada por moradores do bairro.

O conjunto de edificações, distribuído em 11 ruas, foi a primeira vila operária da capital, construída em 1917 para abrigar os trabalhadores da Companhia Nacional de Tecidos e Juta.


Por causa do centenário, comemorado no ano passado, a associação cultural promoveu palestras sobre a história da vila, visitas guiadas, criou um centro de memória, lançou um livro de contos sobre o bairro, fez uma exposição fotográfica das construções e um documentário, entre outras atividades.

As ações foram reconhecidas pelo Iphan, por meio do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade. Outros sete projetos de outros estados também foram premiados. A cerimônia acontece em novembro, no Pará.
“Essa premiação nos deixou muito emocionados, pois nosso trabalho foi reconhecido em nível nacional. A nossa vila será conhecida em todo o Brasil”, afirma Ana Luiza Jardim Frangello, integrante da associação.
 
A Vila Maria Zélia tem 171 casas e cerca de 400 moradores. Desde 1992 está tombada. “É muito importante o que conquistamos, pois moramos em um país que não tem memória. As histórias e o que elas significam acabam esquecidas. Um exemplo é o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro”, diz Ana.

A vila operária abriga, desde 2004, o Grupo XIX de Teatro, no mesmo espaço compartilhado onde fica a associação cultural. Diversas peças já foram encenadas no local, no mesmo lugar onde são realizados estudos e ensaios.

A Vila Maria Zélia se tornou um espaço de pesquisa, difusão e formação que abriga diversos projetos em grupos de pesquisa. São acolhidos anualmente centenas de artistas em diversos núcleos, que já originaram dezenas de espetáculos.

O grupo, em 16 anos de trajetória, encenou espetáculos como “Hysteria”, “Higiene”, “Arrufos”, “Marcha para Zenturo”, “Nada Aconteceu, tudo acontece e tudo está acontecendo” e “Teorema 21”, entre outras peças.O XIX de Teatro já foi contemplado por editais e prêmios pelo país, realizando também apresentações na França, Portugal, Inglaterra, Itália e Cabo Verde.

Um dos moradores mais antigos da Vila Maria Zélia é o aposentado Edelcio Pereira Pinto, 69, mais conhecido como seu Dedé. Ele mora desde o nascimento na mesma residência da família. ”Não troco esse lugar por nada, é o melhor que existe no mundo.”

O aposentado conta que o seu avô morava no interior de São Paulo e foi convidado por Jorge Street para trabalhar na fábrica e se mudar com a família para a vila.
construções antiga que deram início ao bairro Vila Zélia em 1912
Vista parcial da Vila Maria Zélia, em 1919; construção teve início em 1912 - Folhapress


“Meu avô trabalhava com tecidos e veio fazer uma visita informal na fábrica. Acabou saindo dessa visita com um emprego novo e moradia aqui em São Paulo. Mudou a vida de toda a nossa família”, diz seu Dedé.

Ele trabalhou a vida toda como representante comercial e atualmente é uma espécie de relações públicas da vila, recebendo com muita alegria grupos em excursões monitoradas e outros visitantes. “Estou muito feliz por termos recebido esse prêmio do governo federal. Dá mais orgulho de viver aqui.”

A Vila Maria Zélia começou a ser construída em 1912 e foi inaugurada cinco anos depois. Foi idealizada pelo médico e industrial Jorge Street para dar abrigo aos 2.500 funcionários que trabalhavam na filial do Belenzinho da tecelagem Companhia Nacional de Tecidos da Juta, cuja sede era localizada em Santana (zona norte).

O terreno escolhido no Belenzinho foi adquirido do Coronel Fortunato Goulart, um grande proprietário de terras da região. A extensão ia da atual avenida Celso Garcia até as margens do rio Tietê.

Para projetar a vila operária, Jorge Street procurou na Europa o arquiteto francês Paul Pedraurrieux, que se inspirou nas vilas estrangeiras que eram construídas no começo do século 20.

Uma vez inaugurada, a vila foi rapidamente ocupada pelos operários que já trabalhavam na fábrica ao lado, aberta pouco antes da vila ficar pronta.

As instalações da indústria eram destinadas à fiação, tecelagem e estamparia de algodão. Possuía 2.000 teares e cerca de 3.000 motores elétricos. A empresa era uma das maiores consumidoras de energia elétrica da capital. 

Após diversas crises, nos anos 1930 a fábrica e a vila foram confiscadas pelo IAPI, atual INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Em 1968, os moradores se tornaram proprietários definitivos dos imóveis residenciais.

O nome da vila é em homenagem à filha do dono da fábrica, Maria Zélia Street, morta aos 16 anos, em 1915, quando a vila ainda estava em construção. Ela morreu de tuberculose.

CRONOLOGIA

1912 Início de construção da Vila

1915 Morre Maria Zélia, filha do casal Jorge e Zélia Street, aos 16, de tuberculose

1917 Inauguração da Vila; assassinato do operário José Martinez; greve geral dos operários de SP

1924 Vila é vendida para os Scarpa

1929 Vila é vendida aos Guinle; quebra da bolsa de NY

1931 Fábrica é fechada por dívidas fiscais

1936 Fábrica e Vila passam para o Iapi (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários)

1936/7 Fábrica é usada como presídio político do Estado Novo

1939 Fábrica é comprada pela Goodyear

1969 Casas da Vila são vendidas a seus inquilinos pelo Banco Nacional da Habitação (BNH)

1992 Vila Maria Zélia é tombada como patrimônio histórico e cultural de São Paulo

2017 Centenário da fundação da Vila Maria Zélia

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