Doença misteriosa causa surto e intriga médicos em cidades da Bahia

Casos começaram a aparecer no início do mês; não há registro de mortes

Rafael Pezzo
Salvador

Salvador e região metropolitana já registraram pelo menos 90 casos de uma doença misteriosa, que causa lesões semelhantes a picadas de insetos, seguidas de manchas vermelhas e coceira. Segundo as secretarias municipal e estadual de saúde, os casos começaram a aparecer no início de outubro, em pessoas com idades entre 4 e 64 anos. Até o momento, ainda não se sabe o que causa a enfermidade e não foram documentadas mortes nem evoluções para quadros mais graves.

Doença causa lesões semelhantes a picadas de insetos, seguidas de manchas vermelhas e coceira - Arquivo Pessoal

Os sintomas relatados são coceira e vermelhidão, mas "não há reclamação de febre, dor de cabeça ou muscular e conjuntivite", afirmou ao UOL Cristiane Cardoso, subcoordenadora da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde. A especialista fala em surto da doença e explica que os pacientes apresentam melhora espontânea dentro de cinco ou seis dias.

Cristiane ressaltou que não há qualquer indício de que a doença seja contagiosa. Devido às características das lesões, a principal suspeita é de que a enfermidade seja causada por um inseto. Como nenhum morador relatou uma espécie em particular, as autoridades acreditam que se trata de um mosquito de difícil visualização.

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, nenhuma das amostras de sangue coletadas deu resultado positivo para as arborviroses transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como a zika, chikungunya, dengue e febre amarela. No entanto, há ainda quatro amostras a serem analisadas pelo Laboratório Central de Saúde Pública.

Manchas na pele e coceira

Ana Karla Nolasco, de 43 anos, ficou assustada ao ver que seu filho Arthur, de 11 anos, estava com manchas na pele que "coçavam demais e chegaram até a sangrar" no último dia 5 de outubro. A assistente social conta que o levou à emergência, onde o menino foi diagnosticado "com algo parecido com urticária" e foi tratado com pomada antialérgica e medicação por via oral.

"Fiquei mais tranquila quando o médico me informou que a sorologia tinha dado negativo para zika, chikungunya e dengue", explicou a mãe. "Não teve febre, dor no corpo, cor de cabeça, nada além das marcas e da coceira."

Mesmo com o filho curado, a assistente social diz que segue apreensiva. "Fico com medo porque não sei o que ele teve. Até agora os infectologistas estão investigando, mas não sabem que doença é essa", afirmou. Segundo Ana Karla, outros garotos do condomínio de Salvador que jogaram bola com o menino apresentaram os mesmos sintomas.

"Caroços vermelhos que coçavam muito" também surgiram na pele da engenheira Adriana Brito, de 43 anos, moradora do mesmo bairro onde residem Ana Karla e Arthur. Segundo ela, as lesões "apareceram do nada", entre os dias 6 e 10 de outubro. "Eu marquei um clínico geral, que analisou as marcas e diagnosticou como urticária. Ele receitou cortisona e um antialérgico", explicou.

Adriana conta que as manchas diminuíram um pouco, mas não desapareceram completamente. Até hoje, mais de uma semana depois do tratamento, elas seguem no corpo, mas mais claras.

Casos semelhantes também são relatados por quem vive na região metropolitana de Salvador. Moradora de Camaçari, Viviane Ferreira, de 43 anos, disse ao UOL que há mais de um mês também está com coceira e manchas vermelhas pelo corpo.

"Fui a um dermatologista e ele me disse que a causa era estresse. Passado um mês, começou a surgir essa história de surto", explicou. O tratamento receitado a ela continha um hidratante, um creme anti-inflamatório e um calmante.

Como citado, a secretaria estadual confirmou apenas um caso na região metropolitana, em Lauro de Freitas. À reportagem, a pasta declarou que, pelo menos por enquanto, não há suspeita de quadros dessa enfermidade em Camaçari.

Doença investigada

A partir dos primeiros casos, no início de outubro, a doença começou a ser investigada pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde da SMS, o Centro de Controle de Zoonoses e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) na Bahia. A equipe é composta por infectologistas, epidemiologistas, dermatologistas, veterinários e biólogos.

Os pacientes têm tratado da coceira com cremes, mas a prática não é recomendada pelas autoridades. "Orientamos que procurem um médico, já que é possível que o quadro se agrave caso haja alergia ao produto", afirmou Cristiane Cardoso.

A subcoordenadora também atenta para a higienização frequente das mãos e das unhas, uma vez que elas podem levar possíveis infecções após o ato de coçar as lesões.

Outra recomendação dos órgãos é que os moradores da região não deixem braços e pernas expostos ao saírem de casa e usem inseticidas. 

UOL
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