Tecnologias e fake news mudam oferta e currículos de faculdades de jornalismo

Instituições criam cursos de especialização menores, que podem ser ajustados com frequência

Érica Fraga
São Paulo

Os desafios enfrentados pelo jornalismo na onda da atual revolução tecnológica têm forçado uma reinvenção do ensino na área, com mudanças nos currículos de instituições antigas e a entrada de faculdades com tradição em outras disciplinas no mercado de comunicação.

“O jornalismo digital foi uma transformação paradigmática muito grande. Isso tem feito com que grades curriculares que antes eram mantidas por 15, 20 anos, agora durem, no máximo, quatro”, diz Helena Jacob, coordenadora da graduação em jornalismo da Cásper Líbero.

Segundo especialistas, a informação tem se democratizado com o maior acesso a dados, o surgimento de novas ferramentas de visualização e a disseminação mais rápida de imagens e textos.

O outro lado dessa história vem sendo o desafio cada vez maior da mídia tradicional na esteira da concorrência mais intensa tanto com novos meios confiáveis como com fontes de notícias falsas, as chamadas fake news.

Isso tem contribuído para ajustes frequentes na estrutura de funcionamento da imprensa —como mais investimentos em tecnologia e equipes mais enxutas— e exigido dinamismo e capacidade de adaptação dos profissionais.

Marcos Lisboa, presidente do Insper, em aula para jornalistas na faculdade -  Zanone Fraissat /Folhapress

Essas transformações vêm demandando respostas rápidas das instituições de ensino. 

“Temos feito atualizações curriculares frequentes, mas, ainda assim, a academia não consegue acompanhar a velocidade de transformação do mercado jornalístico”, afirma Jorge Tarquini, coordenador de pós-graduação da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

Uma saída buscada pelas faculdades tem sido a oferta de cursos mais curtos, com foco em áreas específicas de especialização, que podem ser ajustados com maior frequência.

Mais conhecido pela formação em economia e administração, o Insper acabar de lançar um programa nesse formato, dentro da área de políticas públicas.

A iniciativa começou em outubro com um curso de economia para jornalistas.

Em novembro, a instituição oferecerá outros dois módulos, um centrado na mensuração de audiência e impacto e outro na elaboração de textos. Segundo Marcos Lisboa, presidente do Insper e colunista da Folha, a ideia é, posteriormente, avançar para uma pós-graduação. “O atual momento é difícil, tem toda uma discussão sobre como serão os novos modelos de negócios da imprensa, de como ela vai se reinventar com as dificuldades que os meios tradicionais enfrentam”, afirma.

Segundo ele, os programas vão se empenhar no desenvolvimento de novas formas de gestão e no treinamento para a análise crítica de dados e outras informações.

“O papel do jornalista é checar, desconfiar. Isso não muda. Mas a ideia é que ele não fique refém apenas da opinião das fontes”, diz.


Para Lisboa, a atual corrida presidencial no Brasil evidenciou a necessidade de maior embasamento por parte dos profissionais da imprensa.

“A gente viu isso na televisão. Às vezes, o que vinha [dos candidatos] era uma resposta completamente estapafúrdia, que poderia ser contestada por dados e pesquisas que mostram o contrário do que estavam falando.”

Segundo Tarquini, um desafio em meio à necessidade de formação especializada e reciclagem mais frequente é o achatamento de salários.

“Nós, jornalistas, nunca tivemos tradição de valorizar a educação continuada. 

Mas agora, com o achatamento de salários, certas formações se tornaram praticamente inviáveis”.

Esse foi um dos motivos que levou a ESPM a encerrar neste ano sua pós-graduação em jornalismo digital e a transformá-la em quatro módulos curtos, que podem ser combinados ou cursados de forma independente. Os cursos, que terão início no próximo ano, tratarão de novas narrativas, audiência na era digital e novos modelos de negócios.

De acordo com especialistas consultados, a reformulação do ensino em jornalismo também busca atender a profissionais com outras formações que têm se convertido em produtores de conteúdo. 

“Hoje, qualquer um com uma câmera ou smartphone pode produzir conteúdo”, diz Ana Hutz, assistente especializada da pró-reitoria de educação continuada da PUC-SP.

Segundo ela, isso faz com que cursos que a PUC tem oferecido, como produção de conteúdo para mídias digitais, atraiam desde jornalistas a profissionais que trabalham com jogos digitais e blogueiros.

Um desafio dos cursos novos e da graduação é a abordagem de temas como fake news e a separação necessária entre informação e conteúdo patrocinado por empresas.

“Tentamos mostrar que, embora a mídia seja representação, há parâmetros e técnicas para apurar a informação”, diz Helena Jacob, da Cásper Líbero.

Segundo a acadêmica, ainda que as grades curriculares estejam sendo atualizadas para dar espaço a novidades, certos fundamentos da profissão não mudaram. 

Ela cita como exemplo de reformulação a saída de disciplinas focadas exclusivamente em revistas —publicações muito afetadas pela crise dos últimos anos— e a entrada de aulas voltadas ao jornalismo de dados.

“O uso de dados se intensificou, mas é importante que não se torne hegemônico. O restante da apuração, o contraponto, a reflexão das fontes, permanece essencial para a boa prática da profissão.”

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