Horário de verão força mudança de rotina para detratores e entusiastas

Relógios devem ser adiantados em uma hora nesta madrugada em dez estados e no DF

Dona Rosa caminha de casa até o ponto de ônibus todas as madrugadas e vai ter que acordar mais cedo a partir do dia 4
Dona Rosa caminha de casa até o ponto de ônibus todas as madrugadas e vai ter que acordar mais cedo a partir do dia 4 - Zanone Fraissat/Folhapress
Dhiego Maia Fernanda Canofre
São Paulo

Rosa Maria de Oliveira, 71, acorda quando muita gente ainda está no meio do sono. Cobradora de ônibus há 29 anos, ela sai de casa todos os dias às 4h10 para pegar o transporte e chegar à garagem da empresa às 5h20. Até o ponto de embarque, são 10 minutos caminhando sozinha pelas ruas da Casa Verde (zona norte) no escuro da madrugada paulistana.

A partir da 0h deste domingo (4), quando o relógio de São Paulo, de outros nove estados brasileiros e do Distrito Federal for reajustado uma hora à frente, para o início do horário de verão, a rotina ficará pior pela insegurança de amanhecer mais tarde e pela dificuldade para se adaptar.

"Não gosto de horário de verão. Acho que ninguém gosta, porque vejo todo mundo reclamar. Tem que acordar mais cedo, demora para acostumar, quando está acostumando, muda de novo", diz.

A cobradora não está sozinha. Instituído pela primeira vez no Brasil em 1931 pelo então presidente Getúlio Vargas, que importou a ideia dos Estados Unidos, o horário de verão ficou suspenso até 1949, porque a população demorou a se aclimatar à medida.

A mudança de horário foi e voltou duas vezes até ser retomada de vez em 1985, devido ao baixo nível dos reservatórios de hidrelétricas. Desde então, a economia de energia serviu de mote principal para a mudança nos ponteiros.

"A coisa mudou, as pessoas [mudaram], o horário de pico de consumo mudou, então, aquela vantagem que tinha não existe mais. O humor piora, você sai de casa e não dá bom dia para o porteiro", diz o funcionário público Carlos Augusto Abreu Soares, 49.

"Prejudica os mais pobres, os mais vulneráveis, os que moram longe do serviço, a quem essa é a grande causa, a grande briga", completa.

Com a mulher Fabrícia Miranda, 35, Carlos comanda uma página no Facebook que reúne 13.500 pessoas pedindo o fim do horário especial desde 2012.

Em uma das publicações, eles alertam os seguidores que "vem aí, o inútil, danoso, horroroso, odioso e maldito horário de verão".

"É mais fácil odiar", diz Fabrícia, rindo. "Não vejo vantagem nenhuma, nem na conta de energia. Se tiver vantagem é no Rio de Janeiro, no Nordeste, que tem praia para ir. Nunca entrou na cabeça que isso faz bem pro ser humano."

O mau humor do casal, segundo o neurologista Luciano Ribeiro, especialista em medicina do sono, deve durar sete dias. “É o tempo que o corpo humano leva para se ajustar ao novo horário”, conta.

Ribeiro diz que reações como perda de memória recente, fadiga, cansaço e muita irritação serão comuns entre os brasileiros nos primeiros dias da mudança. 

“Idosos, crianças e gente com insônia vão sofrer mais”, afirma o especialista. Um ano antes de Carlos e Fabrícia terem a ideia da página reunindo o time contra o horário, Carla Crestana, 60, que trabalha na administração de um escritório, criou a página dos fãs da mudança. 

Com um número menor de curtidas (3.749), ela e os seguidores falam de saudades do relógio de verão e calculam “ansiosos” os dias para a chegada dele. 

“A imensa maioria gosta. Na página é quase zero quem entra para criticar. As pessoas ficam mais descontraídas, a claridade e o sol ajudam também com o bom humor”, conta ela.

“Vários países têm horário de verão, eu não entendo os argumentos de quem reclama. Uma hora faz tanta diferença assim? Acho que as pessoas são muito sugestionáveis. A mesma pessoa viaja para outro país, muda cinco ou seis horas e não reclama. Acho que é mimimi”.

Para Alexandre Moana, presidente da Abesco (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia), o horário de verão é benéfico, mas perdeu a relevância.

“Se fosse colocar na balança os efeitos colaterais causados na população que reclama de um cansaço maior nos primeiros dias, pode chegar uma hora que se fale que ele não vale mais a pena”, afirma Moana.


Veja dicas para lidar com o horário de verão

Efeitos adversos do horário de verão no corpo 
- Irritabilidade
- Fadiga, cansaço
- Déficit de atenção
- Perda da memória recente

7 dias é o tempo médio que o corpo leva para se adaptar ao novo horário

Quem mais sofre
- Crianças
- Idosos
- Pessoas com insônia

O QUE FAZER

Sono Procure dormir bem. No caso de crianças, faça com que elas durmam no fim de semana o mesmo número de horas que costumam dormir durante a semana

Exercício Para manter o padrão de sono durante o horário de verão, faça atividades físicas

Alimentação Evite a ingestão de comidas pesadas, café e chá preto à noite

Sem celular Ao ir dormir, procure criar um momento livre da influência de qualquer aparelho luminoso e sonoro, como smartphones e TV. Em silêncio e no escuro, você vai dormir mais rápido e com qualidade

Consulta médica Procure um médico e veja se você precisa tomar melatonina. O hormônio é manipulado no Brasil e funciona como um ativador de sono

Fonte: Associação Brasileira do Sono

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