Descrição de chapéu Folha Verão

Maresias ganha grafites, ciclovia noturna, hostel no morro e visual Vila Madalena

Fachadas em estilo colonial também compõem novo perfil da praia do litoral norte de São Paulo

Angela Pinho
São Sebastião (SP)

​Nem só de surfe, e cada vez menos de balada, vive Maresias. Com ciclovia noturna, hostel no morro e muros grafitados por toda parte, a praia do litoral norte de SP viveu uma mudança de público na última década e, agora, ganha uma nova cara.

Em um paralelo com a capital paulista, a praia que nos anos 1990 e 2000 era uma espécie de filial de verão para os frequentadores da Vila Olímpia quer adquirir um visual mais Vila Madalena.

Não à toa, o símbolo mais evidente dessa mudança meio hipster é o novo Beco da Mulher Maravilha. Versão praiana do Beco do Batman do bairro paulistano, é uma rua recém iluminada com grafites dos dois lados entre a avenida principal e a via detrás.

A inauguração oficial acontece na sexta-feira (16), com shows, exposição e projeção ininterrupta de filmes.

O apelido dado à nova via, além de uma brincadeira com o "primo" turístico da Vila Madalena, é uma homenagem às artistas que despejaram ali seus tubos de spray –metade das painelistas é de mulheres.

Há também artistas com murais no Beco do Batman, caso do paulistano Rafael Higraff. "Procurei usar cores quentes e marítimas para captar a atmosfera local", diz.

A ideia dos organizadores da intervenção é que a rua integre um novo circuito turístico em Maresias.

Seria o ponto final de um passeio pela ciclovia, que existe há muito tempo, mas só foi iluminada no início deste ano, explicam Carlito Colhado, 39, e Renata Pascucci, 43.

Artista e arquiteta, eles integram o Coletivo Maresias, responsável por essa e outras iniciativas –em regra, bancadas pela associação de hotéis e sociedade de amigos, por vezes com o apoio da Prefeitura de São Sebastião.

 
Índia grafitada pela artista Lady Guedes no Beco da Mulher Maravilha
Trabalho da artista Lady Guedes no Beco da Mulher Maravilha - Eduardo Anizelli/Folhapress

Paulistanos e moradores de Maresias há mais de 15 anos, Renata e Carlito estão envolvidos em uma outra vertente do novo visual da praia.

Chamados a reformular estabelecimentos comerciais, eles têm apostado em fachadas em estilo colonial, como as de Paraty (RJ).

Para contornar uma diferença fundamental com a cidade fluminense –as construções originais não são coloniais– eles se valem até, se for preciso, de portas e janelas falsas. Elas são visíveis do exterior, mas dão para a parede. "A ideia é uma cara mais praiana, em que o comércio converse com a rua", diz Renata.

Além das fachadas, do final do ano para cá a dupla começou a colocar nos seus projetos painéis grafitados. A ideia pegou e foi replicada por moradores e comerciantes.

Os grafites subiram também para uma rua do morro de Maresias, onde vivem, entre outros, garçons e demais funcionários do circuito turístico.

A intervenção foi feita no mesmo dia da pintura do Beco da Mulher Maravilha, com os mesmos artistas.

Algumas crianças e moradores se empolgaram e também fizeram os seus murais. 

A boleira Erileuza Marques, 38, é uma das que topou ceder o muro de casa para um painel. "Agora está todo mundo conhecendo a nossa rua", diz.

A abordagem dos moradores do local foi feita pelo ex-jogador de futebol Hélio Souto, 53, e sua mulher, Amélia Fonseca Souto, 55. O casal foi morar no morro há três anos, após duas décadas na Europa.

Mais conhecido por Hélio Carrasco por sua passagem pelo time do Ceará, onde virou ídolo, ele conheceu Amelinha há 36 anos em Marília (SP). No clube da cidade, ele jogava bola, e ela fazia atletismo.

Aos 29 anos, Hélio recebeu uma proposta de um clube de Israel. Embarcou com a mulher e os dois filhos, mas os meninos não conseguiram entrar na escola. Amelinha foi quem alfabetizou o mais velho.

O ex-jogador de futebol Hélio de Oliveira Souto e sua esposa Amélia Fonseca Souto no hostel do casal em Maresias
O ex-jogador de futebol Hélio de Oliveira Souto e sua esposa Amélia Fonseca Souto no hostel do casal em Maresias - Eduardo Anizelli/Folhapress

Para que as crianças pudessem estudar, Hélio conseguiu emprego num time da quarta divisão da Bélgica, em uma cidade de 10 mil habitantes. "Fomos a primeira família negra da cidade", lembra Amelinha.

No país, Hélio subiu com o time para a segunda divisão e rodou por diversos outros times do litoral.

Encerrada a carreira de jogador, fez curso para treinar equipes, mas não se limitou ao esporte.

Para completar a renda, ele trabalhou alguns anos em uma lanchonete. Ela, em um hospital e na cozinha de uma escola. Ainda foram colegas em uma fábrica de peixe.

Nunca esqueceram, no entanto, do clima e dos amigos do Brasil –​ele principalmente. Após duas décadas fora, resolveram voltar ao país e procuraram um lugar para morar, de preferência no litoral.

Acabaram se deparando com aquela casa espaçosa, com piscina e vista para o mar, no morro de Maresias. Comprada por uma família que não se adaptou ao local e foi para o Japão, a residência vinha sendo usada para raves.

Quando Amelinha e Hélio resolveram instalar um hostel ali, houve gente que questionou: um hostel no morro? "Quando você vem da Europa, não tem esse problema", afirma ela. 

Por enquanto, de fato quem mais curte a novidade são os estrangeiros, quase metade dos hóspedes –nos outros hotéis, a proporção não costuma ultrapassar 10%.

Com o tempo, o hostel virou referência também para moradores. Ganhou biblioteca, oferta aulas de alfabetização dadas pela própria Amelinha, e recebe eventos de todo o tipo, de saraus a palestras sobre empreendedorismo.

No portão, o casal pintou um verso de MC Brenalta, rapper local que também é um dos rostos da nova cara de Maresias: "o morro é da praia ou a praia é do morro?"

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