São Paulo estende por 5 dias festejos e atividades do Dia da Consciência Negra

Segundo IBGE, 37% da população paulistana é composta por pretos e pardos

A cirandeira Lia de Itamaracá é uma das atrações da semana da Consciência Negra em SP - Bruno Santos/Folhapress
Dhiego Maia
São Paulo

Após se firmar como a mais rica, populosa e de vasta opção cultural e gastronômica, São Paulo corre atrás de mais um título nacional: a capital da Consciência Negra.

Segundo censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 37% da população paulistana é composta por pretos e pardos.

Comemorado no dia 20, o feriado da Consciência Negra serve para fazer uma reflexão sobre a inserção do negro na sociedade. O dia foi escolhido porque os registros históricos atribuem como o mesmo da morte de Zumbi dos Palmares, um dos líderes mais célebres contra a escravidão no Brasil.

Em vez de restringir as comemorações ao dia 20, a capital paulista multiplicou os festejos por cinco dias seguidos.

Entre este sábado (17) e a próxima quarta (21) haverá uma centena de atividades culturais, como shows encabeçados por artistas ligados ao tema; peças de teatro que denunciam o racismo; uma feira literária e a final da Copa Nacional de Futebol dos Refugiados, com times compostos por jogadores africanos.

Monumentos icônicos como o edifício Matarazzo, sede da prefeitura paulistana, e o viaduto do Chá receberão iluminação especial nas cores vermelha, verde e amarela.

O calendário ainda inclui a entrega na próxima segunda-feira (19) do Troféu Raça Negra a personalidades que se destacaram em 2018 na luta pela igualdade racial no país. 

A grande Semana da Consciência Negra paulistana está sob o guarda-chuva da ONG Afrobras e de seu braço educacional, a Faculdade Zumbi dos Palmares (SP). 

A iniciativa de bombar a data em terras paulistanas surgiu de uma preocupação, conta José Vicente, reitor da Zumbi dos Palmares. “O feriado estava se transformando em uma data sem vida e com as discussões restritas ao movimento negro. O que fizemos dessa vez foi ampliar o número de parcerias para colocar o tema na vitrine”, disse.

Sem citar nomes, Vicente disse que prefeitos de algumas cidades reverteram nos últimos anos o decreto que estabelecia o feriado por “falta de atividades”.

Oficializado por Dilma Rousseff (PT) em 2011, o Dia da Consciência Negra não é feriado nacional e para valer precisa ser aprovado na Câmara Municipal das cidades e sancionado pelo prefeito. Os estados também podem aderir à iniciativa.

Segundo balanço mais recente da Seppir (Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial), o país contava em 2015 com 1.045 cidades que comemoravam a data como feriado.

Em São Paulo, a festa será aberta neste sábado, a partir das 12h, com a lavagem da esquina mais famosa da cidade: a da Ipiranga com a avenida São João, no centro. Além da cerimônia afro, o local vai sediar um encontro de baterias de escolas de samba, como X-9 Paulistana e Vai-Vai. 

Ali mesmo, no bar Brahma, a cada chope black consumido, R$ 1 será doado para alunos pesquisadores da Zumbi dos Palmares —assim como o bar, ao menos 30 empresas, museus, a rede Sesc (Serviço Social do Comércio), escolas e faculdades são parceiros do evento municipal. 

Ao longo da semana, as bikes do Itaú também estarão disponíveis sem custo. O ciclista terá que inserir a senha “ViradadaConsciência” no aplicativo para se locomover.

Outra instituição bancária que se envolveu foi o Santander. Com uma política agressiva na contratação de funcionários negros —hoje, 22% dos 47 mil colaboradores são negros, o banco criou a hashtag “Talento não tem cor”, que foi escolhida pelos próprios colaboradores para ser impressa em painéis que tomaram as fachadas da sede do banco e do Farol Santander, no centro.

Segundo Fátima Gouveia, superintendente de diversidade e inclusão do banco, entrar na campanha “é lutar por uma causa que é nacional e precisa ser enfrentada de frente”.

Na programação esportiva,  a Copa dos Refugiados, terá a final realizada no estádio Pacaembu, no dia 20. Quatro times de Rio, Porto Alegre e São Paulo estão na disputa. “É um jogo que escancara as aspirações de pessoas que forçadas a deixar seu país estão buscando integração e um recomeço”, disse Miguel Pachioni, assistente de informação pública da Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados).

Lia de Itamaracá, 74, é uma das artistas que é “um símbolo vivo pela luta contra o preconceito”. Ela vai se apresentar no Sesc Campo Limpo, às 16h do dia 20, acompanhada das percussionistas do Ilú Oba de Min para “gritar por mais liberdade e diversidade”.

“Será um show muito simbólico. Vou cantar no dia da Consciência Negra, uma data que foi criada para dizer que nós existimos e precisamos de mais espaço”, contou a artista, que disse querer ver na sua apresentação “gente de todas as cores ‘cirandando’ como se não houvesse amanhã”. 

 
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