Aeroporto de Confins reabre após pouso de emergência de avião

Pista ficou fechada por mais de 10 horas após problema com aeronave da Latam

Fabrício Lobel Thais Arbex
São Paulo e Brasília

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Um Boeing 777 da Latam que saiu do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (Grande SP), com destino a Londres teve que fazer um pouso de emergência em Confins (MG) na madrugada desta quinta (20) após um problema elétrico que deixou passageiros em pânico.

A aeronave com 339 passageiros e 16 tripulantes apresentou barulho em um dos motores e teve um apagão nas telas de entretenimento a bordo minutos após decolar.

Ao sobrevoar Minas Gerais, o piloto disse à torre de comando que estava com um problema elétrico "um pouco sério". "Me providencie bombeiro, ok, amigão? Estamos com esse problema um pouco sério, ok?", disse ele aos controladores de voo, conforme áudio obtido pela Folha.

Durante o pouso de emergência, à 1h43, os pneus do Boeing 777 foram danificados, mas não houve feridos.

O advogado Marcello Sant'Ana, 50, que viajava com a mulher, a assessora de comunicação Márcia Stival, 48, diz que o comandante da aeronave foi um herói. "Ele foi muito hábil, encontrou um aeroporto com pista longa e pousou no escuro. Segundo nos contaram, ele não tinha nenhuma visibilidade da pista", afirma.

Segundo Sant'Ana, o áudio da cabine de comando vazou dentro do avião, com a informação de que ele estava com um problema de pane elétrica, e "as pessoas começaram a gritar e a chorar".

"Alguns desafivelaram os cintos e levantaram, outros pegaram bíblias e terços e começaram a rezar", contou o advogado. "Foi assustador."

Em meio a gritos, choro e pânico, conta ele, uma passageira se trancou em um dos banheiros da aeronave. Um dos tripulantes precisou praticamente arrombar a porta e tirá-la à força. A orientação era para que todos permanecessem sentados e com os cintos de segurança afivelados.

Sant'Ana conta que a tripulação fez um esforço para que todos mantivessem calma. "Tentavam nos acalmar dizendo que não era nada sério, mas a gente sabia que algo estava errado. O avião fazia um forte barulho estranho e sentíamos um cheiro de queimado. O ar-condicionado também foi desligado", disse.

Em um dos primeiros contatos com a torre do aeroporto de Confins, um dos quatro pilotos a bordo questionou o tamanho da pista, e o controlador de voo indicou que havia 3.000 metros homologados e mais 600 metros de escape. 

Após a informação, o piloto solicitou apoio de bombeiros na pista do aeroporto, e a aeronave começou a dar voltas tentando alijar combustível —medida preventiva adotada para minimizar riscos de incêndio depois de um pouso de emergência.

O piloto afirmou à torre que a aeronave estava com dificuldade de despejar grande quantidade de combustível.

"Nós estamos muito pesados. O sistema de alijamento não está funcionando também. Nós estamos praticamente sem nenhum sistema elétrico funcionando corretamente", disse. "Estamos efetuando o procedimento, tentando alijar o máximo possível o peso da aeronave. Mas está difícil", completou o piloto.

O problema num pouso desses é que, com muito peso, uma aeronave precisa de maior velocidade para pousar devidamente. O conjunto de peso e velocidade sobrecarregam os freios da aeronave, que podem ficar incandescentes e precisam ser resfriados pelos bombeiros, sob o risco de incêndio. Os pneus inclusive têm um sistema de segurança que os faz murchar nessas situações, para evitar explosão.

Após o pouso, a possibilidade de incêndio foi a preocupação da tripulação da aeronave. O piloto questionou à torre de controle se havia presença de fogo. A torre disse que as chamas estavam sendo controladas pelos bombeiros.

A partir daí, piloto e torre parecem se desentender sobre a gravidade do fogo e a necessidade de evacuação.

Conforme o áudio, o piloto informou à torre que, se os bombeiros estivessem conseguindo controlar as chamas, ele aguardaria a chegada de escadas para o desembarque dos passageiros. Caso contrário, ele iniciaria o procedimento de evacuação, que poderia trazer riscos de ferimentos aos passageiros. 

João Henrique Varella, co-piloto e diretor de segurança de voo do sindicato dos Aeronautas, avalia que houve um "telefone sem fio" nesta parte da operação, tomando segundos importantes de decisão.

"Em voos nos Estados Unidos ou na Europa, em uma situação dessas, a equipe de bombeiros se comunica diretamente com o comandante, que é quem deve tomar a decisão por uma evacuação."

Após o resfriamento dos freios, o desembarque dos passageiros foi feito normalmente, na pista de Confins.

O advogado Marcello Sant'Ana disse que a tensão dentro da aeronave continuou depois do pouso. Como a tripulação informou que havia risco de incêndio, o clima de pânico voltou assim que um passageiro começou a gritar dizendo que o avião iria explodir.

"Nesse momento, todo mundo ficou nervoso de novo e começou a gritar. Você pensa, realmente, que tudo acabou", afirmou Sant'Ana.

"A primeira informação foi a de que sairíamos em grupos pequenos e sem nossos pertences de mãos. Depois de uns 40 minutos, já com a situação estabilizada, pudemos deixar a aeronave com as nossas bagagens", relatou o advogado.

Varella, do sindicato dos aeronautas, afirma que o apagão em telas de entretenimento relatado logo após a decolagem é compatível com falhas elétricas do gerador de energia, quando a aeronave busca concentrar toda a carga de energia em funções que são vitais ao voo, desligando outras não essenciais. 

"Mesmo numa falha elétrica parcial, menos grave, são desligados sistemas secundários como o de entretenimento ou o de aquecimento das galleys [onde são preparados os lanches dos passageiros]", disse.

Segundo a Latam, todos os passageiros foram retirados em segurança e receberam a assistência necessária. Em razão do problema, 49 voos da companhia de e para Confins foram cancelados até às 23h59 desta quinta e 1 foi alterado.

A pista de Confins acabou sendo liberada com restrições no início da tarde, após ficar mais de dez horas fechada, e só foi totalmente autorizado os pousos de decolagens no início da madrugada desta quinta depois que a aeronave foi retirada da pista, às 22h45.

Os passageiros que estavam no Boeing embarcaram à tarde de volta para São Paulo, onde pegariam um novo voo com destino a Londres.


 

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