Após pedido de prisão, casa de João de Deus amanhece esvaziada e com protesto

Administração de hospital espiritual prevê colapso caso médium seja preso

Natália Cancian
Abadiânia

Um dia após o Ministério Público de Goiás protocolar pedido de prisão do médium João de Deus, a Casa Dom Inácio de Loyola, onde ele atua em Abadiânia, no interior de Goiás, amanheceu em clima de tensão.

O tradicional silêncio deu lugar a pequenas rodas de conversa onde frequentadores e voluntários comentavam o caso. Nesta quarta (12), a Promotoria de Goiás protocolou pedido de prisão preventiva do médium, acusado de abuso sexual por ex-frequentadoras da Casa.

Por volta das 7h30, a área central do espaço tinha quase todas as cadeiras vazias. 

Dentro da sala principal, uma fila de cerca de 40 pessoas esperava para entrar em um espaço interno dedicado a orações e meditação —o habitual, porém é ver filas que contornam quase toda a área central. 

A maioria dos visitantes era de outros países. "Se João for preso, a cidade inteira vai chorar", afirma Francisco Lobo, um dos principais encarregados da administração da casa, sobre os impactos à economia do município.

"Todo mundo fica chateado. Até o Beira-Mar, vamos dizer assim, tem o lado bom dele. O João também. Ele sempre foi bom para o povo", disse.

Ao contrário dos dias anteriores, funcionários passaram a vetar a possibilidade de entrar com câmeras na instituição. Um carro da Polícia Militar também circula em frente ao local.

Seguidor do médium João de Deus faz protesto solitário em frente à casa dom Inácio de Loyola, em Abadiânia
Seguidor do médium João de Deus faz protesto solitário em frente à casa dom Inácio de Loyola, em Abadiânia - Walterson Rosa/Folhapress

"Hoje a energia aqui está pesada", afirmou um frequentador à Folha, que pediu para não ser identificado por medo de represálias. Após seis meses no centro, ele dizia se preparar para ir embora nesta sexta. "Não dá mais para ficar aqui", disse.

À frente ao portão que dá acesso ao centro, um estrangeiro meditava no meio da pista, em uma espécie de protesto silencioso. "Help João. A meditação começa aqui", dizia o cartaz à sua frente. 

Para voluntários da casa, o aviso é uma mensagem à imprensa que se acumula em frente aos portões. "É um protesto dele contra vocês. Cada um se expressa da maneira que acha interessante", afirmou Lobo.

DENÚNCIAS DE ABUSO

Uma força-tarefa liderada pela Promotoria de Goiás foi criada para recolher relatos de supostas vítimas e, até esta última terça (11), já havia feito mais de 200 atendimentos, a maioria por email. As Promotorias de São Paulo, Maranhão e Rio de Janeiro também montaram equipes e canais de comunicação específicos para o caso.

Os relatos de 13 mulheres foram feitos inicialmente ao programa Conversa com Bial e ao jornal O Globo. Desde então, outras denúncias surgiram, levando à força-tarefa.

A maioria dos relatos aponta que, uma vez na Casa, as mulheres recebiam um aviso para procurar o médium em seu escritório ao fim das sessões. Lá, ele dizia que elas precisavam de uma "limpeza espiritual". Nesse instante, elas teriam sofrido o abuso.

À Folha, a empresária Aline Saleh, 29, relatou ter sido abusada por João de Deus, em 2013, quando esteve com a avó em Abadiânia, em busca de cura e espiritualidade.

Saleh contou sua história sem medo de registrar sua identidade e seu rosto. "Quem tem de sentir vergonha é ele, e não eu." Seu depoimento é parecido com o da coreógrafa holandesa Zahira Lieneke Mous ao programa de Bial.

Zahira contou que conheceu a Casa, em Abadiânia, em 2014, quando buscava a cura para o trauma de ter sofrido abusos sexuais no passado. Na segunda visita, foi informada que teria uma consulta particular com o médium. "Você se sente especial", relatou.

Ela disse que ele pediu-lhe que ficasse de costas, conduzindo-a para um banheiro. Ali, ele teria colocado as mãos dela no pênis e feito com que se movimentassem. Depois, abriu um armário com pedras preciosas e pediu a Zahira que escolhesse uma delas. Em seguida, ela foi levada novamente ao banheiro, onde João de Deus a teria penetrado.

Até esta quarta, 12 vítimas já haviam prestado depoimento no Ministério Público em São Paulo. Outras 12 oitivas estão agendadas para os próximos dias. Segundo a promotora Valéria Scarance, há ainda 38 que devem ser marcadas até a próxima semana, totalizando cerca de 60 casos.

Os relatos em São Paulo também têm o mesmo padrão. As mulheres eram escolhidas e levadas para uma sala. "Isso fazia com que elas se sentissem especiais e gratas por terem sido escolhidas por um ídolo", afirma Scarance.

Quando algumas se insurgiam contra as investidas, porém, o médium teria feito ameaças. "Dizia que ele era um homem muito poderoso, que elas seriam chamadas de loucas", diz a promotora.

Em 2016, Dalva Teixeira, uma das filhas do médium, afirmou ter sofrido abusos sexuais do pai dos 10 aos 14 anos. A afirmação foi feita em entrevista a uma rádio de Goiânia e exibida pelo Jornal da Record na noite de terça.

João de Deus nega e, em 2017, Dalva gravou vídeo em que aparece ao lado do pai rejeitando a acusação que fez anteriormente —segundo advogados, ela teria sido coagida. Procurada nesta semana, ela não comentou.

Nesta quarta, de acordo com o depoimento da ativista social Sabrina Bittencourt à coluna Mônica Bergamo, uma das vítimas do médium cometeu suicídio

"Ela se desesperou quando viu que ele foi trabalhar hoje de manhã", diz a ativista. Sabrina diz que seu advogado a orientou a não divulgar nenhum detalhe sobre a morte. "A família da vítima nunca acreditou nos relatos de abuso. São todos seguidores do médium".

MÉDIUM DAS CELEBRIDADES

O médium João de Deus, que diz fazer cirurgias espirituais através de entidades incorporadas, ostenta longa carteira de pacientes estrelados —de políticos a celebridades, brasileiros e estrangeiros. Da apresentadora americana de TV Oprah Winfrey ao atual presidente da República, Michel Temer (MDB). 

Sua fama mundial começou em 1991, quando a atriz americana Shirley MacLaine —vencedora do Oscar pelo filme “Laços de Ternura” (1983)— tratou um câncer na região abdominal com João Deus. A bilionária apresentadora só ficou sabendo do médium, no entanto, quando entrevistou o psicoterapeuta Wayne Dyer, que afirma ter sido curado de uma leucemia por ele. 

O empresário Marcus Elias, dono da Laep Investments, ex-controladora da Parmalat e da Daslu, é uma das figuras mais próximas de João de Deus. Foi ele quem apresentou ao médium personalidades internacionais como a modelo Naomi Campbell e fez pontes para que os ex-presidentes Lula e Dilma e tantos outros políticos de diferentes matizes ideológicos recebessem tratamento espiritual pelas mãos do homem que fez de Abadiânia (GO) uma Meca de peregrinos.

Gente de todas as classes sociais e dos mais diversos cantos do planeta que batia às portas da Casa de Dom Inácio de Loyola (padre jesuíta cujo espírito João diz incorporar) em busca de milagres e alívio para todos os tipos de males e dores.

Em 2012, Oprah decidiu vir até a cidadezinha de 15 mil habitantes, dividida ao meio pela BR-060, rodovia que liga Goiânia a Brasília, para conhecer o trabalho de alento e cirurgias espirituais. Lá, ela teria meditado, orado e testemunhado as tais cirurgias, na chamada sala da entidade.

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