Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro anuncia ida de ministro a Israel para projeto de água no Nordeste

Presidente eleito avalia dessalinização, técnica que em anos anteriores esbarrou em alto custo

Fabrício Lobel
São Paulo

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), anunciou nesta terça-feira (25) que o futuro ministro de Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes, visitará Israel logo no primeiro mês de governo em busca de parceria e tecnologia em projetos de água que poderão beneficiar o Nordeste —região onde obteve a menor votação.

Segundo Bolsonaro, o ministro visitará instalações de dessalinização de água, técnica cuja ampliação já foi discutida no país em anos anteriores, mas que sempre esbarrou no alto custo. 

"Pretendemos ainda em janeiro construir instalação piloto para retirar água salobra de poço, dessalinizar, armazenar e distribuir para agricultura familiar, estendendo o projeto para mais localidades após testes e ajustes", escreveu Bolsonaro no Twitter e no Facebook.

Ao menos desde a década de 1990, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), já existem dessalinizadores para tratar a água salobra do subsolo do semiárido (com salinidade menor do que a do mar).

Em 2004, no governo Lula (PT), o uso da técnica foi ampliado com o programa federal chamado Água Doce. Mas o projeto de combate à seca no Brasil foi dificultado por valores considerados elevados para a implantação e operação das estações de dessalinização. Outra barreira, sob o ponto de vista orçamentário, foi a prioridade dada nos últimos governos a obras de transposição como a do rio São Francisco.

A operação de estações deste tipo consome muita energia, o que, além de ser caro, demanda a matriz energética no Brasil que é altamente dependente de usinas hidrelétricas. Ou seja, para que programas desse gênero funcionem de maneira sustentável, é preciso investir em geração alternativa de energia, como a eólica e a solar.

Outro problema enfrentado por projetos desse setor é a manutenção das estações, que gera um custo dificilmente absorvido pelas pobres comunidades beneficiadas pela dessalinização. 

Há ainda uma preocupação com os rejeitos das estações, que podem ter impacto ambiental, se descartados de maneira imprópria. 

Ainda assim, especialistas avaliam que as estações de dessalinização podem ser uma alternativa viável para regiões mais afastadas de centros urbanos. 

A ida de representantes do governo federal a Israel ganha também um caráter político.

De um lado, Bolsonaro acena com propostas ao Nordeste, onde tem menor popularidade. 

De outro, o novo presidente se aproxima de um dos países com maior conhecimento em dessalinização no mundo. Dono de uma imensa rede de irrigação artificial e estações de dessalinização, Israel vê o tema como um cartão de visitas internacional. Em 2014, quando o Sudeste do Brasil passou pela crise hídrica, representantes do governo israelense e empresas daquele país tentaram chamar atenção para a alternativa da dessalinização. 

Para Bolsonaro, a aproximação com Israel é um tema caro desde a campanha eleitoral. Em novembro, o presidente eleito disse que mudaria a embaixada brasileira, em Israel, de Tel-Aviv para Jerusalém. O assunto gerou repercussão internacional, uma vez que a mudança implicaria em reconhecer a capital de Israel em Jerusalém, o que pode causar atritos e prejudicar negócios com palestinos e países árabes.

Bolsonaro disse que estuda junto ao embaixador de Israel e uma empresa especializada testar tecnologia que produz água a partir da umidade do ar em escolas e hospitais. Segundo ele, o país poderia negociar a instalação de uma fábrica dessas no Nordeste.

"Livre das amarras ideológicas o Brasil agora pode dar os primeiros passos para fora do buraco em que foi colocado pelos últimos governos", escreveu.

Bolsonaro está passando o feriado de Natal na base naval da Restinga da Marambaia, uma instalação da Marinha no litoral do Rio de Janeiro habitualmente usada por presidentes para períodos de descanso, por ser uma praia onde o acesso é restrito e a segurança é feita pelas Forças Armadas.

Na noite de segunda (24), Bolsonaro participou de uma missa e de uma ceia realizadas dentro da base. Sua assessoria também divulgou imagens onde ele aparece participando de um churrasco e fazendo uma brincadeira com um militar ironizando a facada que recebeu em setembro.

SECA NO NORDESTE

Como mostrou a Folha, o principal desafio de Bolsonaro no combate à seca no Nordeste será implantar de fato a transposição do São Francisco, que, quando estiver pronta, deve beneficiar cidades de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.

A obra, pensada por d. Pedro 2º e iniciada no governo Lula (PT), chega ao fim de 2018 com 477 km, ao custo de R$ 11,7 bilhões. No início da construção, falava-se de um conjunto de até 700 km de canais, ao custo de R$ 4,5 bilhões (R$ 9,55 bilhões a preços corrigidos pela inflação).

A transposição já deveria ter sido entregue e os motivos dos atrasos são muitos: de falhas de projeto a desistências de empreiteiras e investigações por desvio de verbas. O primeiro passo para entregar a transposição é finalizar os dois eixos principais. 

Outro desafio do presidente eleito será incentivar os governos estaduais a fazer estruturas para receber a água dos canais principais, de modo que a água da obra federal chegue às cidades.

Entretanto, a conclusão da obra ainda não é suficiente para encher as represas no semiárido. Isso porque, segundo especialistas ouvidos pela Folha, é muito frágil o arranjo institucional que une o governo federal, os governos dos quatro estados envolvidos e as entidades locais.

Definir melhor esse desenho é o segundo desafio de Bolsonaro, e exigirá articulação com governadores de partidos que formam oposição na esfera federal.

Colaborou UOL

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