Casal brasileiro pega pena leve por sequestro de neto americano

Eles eram acusados de ajudar a filha a manter garoto no Brasil desde 2013

Juan A. Lozano
Houston (EUA) | Associated Press

Um abastado casal brasileiro foi condenado nesta quarta-feira (12) a pena mínima de prisão nos Estados Unidos por ter ajudado a filha a manter o filho dela no Brasil pelos últimos cinco anos, violando os termos do divórcio dela com o pai do garoto, que é americano. 

Carlos Guimarães, 68, foi condenado na corte federal em Houston a três meses de prisão, enquanto sua mulher, Jemima Guimarães, 66, recebeu pena de um mês. 

O casal disse ao juiz que eles queriam apenas ajudar a filha, porque acreditavam que ela era vítima de violência doméstica. 

Promotores afirmam que o casal ajudou a filha, Marcelle Guimarães, a manter o filho dela no Brasil depois que ela o trouxe para o país em 2013 e deixou de voltar aos Estados Unidos, contrariando uma sentença de custódia do divórcio, assinado em Houston. 

Carlos, Jemima e Marcelle Guimarães
Carlos, Jemima e Marcelle Guimarães - Arquivo pessoal/Divulgação

Carlos e Jemima foram presos em fevereiro, após voar para Miami. Em maio, um júri os condenou sob acusação de sequestro, mas os inocentou de uma acusação relacionada de conspiração. 

Marcelle Guimarães, que também foi indiciada no caso, é considerada foragida e continua no Brasil com seu filho, Nico, 9. 

O pai do menino, Christopher Brann, vive em Houston. Ele negou ter abusado fisicamente de sua ex-mulher, e nunca foi oficialmente acusado de tê-lo feito. 

Antes de anunciar sua sentença, o juiz federal Alfred Bennett disse acreditar que as evidências mostravam que o casamento era volátil e que Brann e a ex-mulher haviam abusado fisicamente um do outro. Bennett também expressou preocupação com o papel dos réus no caso, dizendo que eles não tinham direitos de custódia sobre o garoto. 

"Procuro uma sentença justa", disse Bennett. "Não há sentença que eu possa impor que vá resolver esta fratura familiar".

Bennett determinou aos Guimarães uma sentença abaixo das diretrizes, que previam que o casal pegasse de um ano e três meses a um ano e nove meses de prisão. 

Em um depoimento emotivo como vítima, Brann disse ter passado os últimos cinco anos lutando para ter de volta o filho, mas que Carlos e Jemima tinham feito tudo o que podiam para impedi-lo de conseguir isso. 

"Quando eles levaram meu filho de mim, eles me tiraram tudo", Brann disse, chorando, diante de Bennett.

Em breves falas antes do sentenciamento, os Guimarães negaram ter feito qualquer coisa de errada. "Nós nos arrependemos profundamente de onde estamos hoje. Estamos à sua mercê", disse Carlos. O casal continuará livre sob fiança até se apresentar à prisão federal no começo do ano que vem.

Rusty Hardin, um dos advogados do Guimarães, os apresentou como avós amorosos que queriam apenas proteger sua filha. 

Carlos Guimarães é presidente da ED&F Man Brasil, uma firma de comércio de commodities, enquanto sua mulher é dona de uma escola infantil no Brasil. 

Os advogados de Brann recorrem de uma decisão de 2015 de um juiz brasileiro que negava o retorno do menino aos EUA sob a Convenção de Haia sobre os Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças, um tratado internacional para cooperação governamental em casos como este. 

O caso Nico Brann é um de muitos em anos recentes envolvendo o Brasil e os EUA que atraíram atenção internacional, incluindo o caso de Sean Goldman, cujo pai, David Goldman, passou anos em tribunais americanos e brasileiros até que finalmente conseguisse levar o menino para Nova Jersey, em 2009.

O caso de Sean provocou a criação de uma lei em 2014 que dá ao Departamento de Estado americano mais ferramentas --que incluem a suspensão de apoio financeiro-- para pressionar governos estrangeiros a devolver crianças americanas sequestradas. É incerto se os Estados Unidos usaram desses recursos para acelerar o retorno de Nico Brann. 

David Goldman, que esteve presente no sentenciamento nesta quarta, disse que queria demonstrar seu apoio a Brann e chamar atenção para o esforço de outros pais que também lutam para conseguir seus filhos de volta. 

Em seu relatório de 2018 sobre abdução internacional de crianças, o Departamento de Estado dos EUA disse que, em 2017, o Brasil apresentou um padrão de não adesão ao tratado da Convenção de Haia sobre sequestro infantil e que o país têm sido citado assim desde 2006.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.